Diário de uma mãe atípica

Young woman writing in a library, focusing on her studies with determination and concentration.

20 de fevereiro de 2026

O trabalho me distrai. Muitas vezes estou um caco por dentro mas tento sempre separar as coisas. Não é masking, é realmente usar o ambiente como fuga. Dou gargalhada, converso, canto e os males espanto. Algumas horas do dia fora da realidade.

Tive um pai alcoólatra que, quando estava sóbrio, era maravilhoso. O pai das minhas filhas não bebe; ainda bem, pois sem beber ele já consegue ser agressivo e violento. Escolhi mal. Elas não tiveram a “sorte” que eu tive. 

Ele está querendo aparecer aqui pra vê-las. Mas ninguém quer vê-lo. Mais uma situação para lidar, como se as que tenho não fossem suficientes. 

Eu e as meninas criamos um código de alerta. Vamos usar emojis de bolinhas verdes, amarelas e vermelhas para sinalizar entre nós como estamos nos sentindo, assim saberemos como nos ajudar. Por que um código de emoji? Porque, quando se está deprimido, não há forças ou ânimo para conversar ou sair da cama. Já foram cinco dias de teste e está funcionando. 

Chego em casa, vejo minha filha careca chorando porque um vídeo acionou gatilhos. Pelo menos o pai não vem mais amanhã, afinal ele só é pai quando tudo está bem. Melhor longe do que perto. 

Precisei dar um discurso sobre a finitude que sinto. Precisei defender meu direito de viver. É pesado (o peso novamente) ouvir dela: “Eu não sei se vou viver”. Assunto para a terapia da próxima quinta (Me lembra, Camila? Você deve estar lendo isso rs). 

Hoje o dia foi intenso, cansativo e emotivo. Minha vida é uma montanha russa, meus dias são uma montanha russa. Meus pensamentos ficaram até com labirintite.


21 de fevereiro de 2026

Ela queria tanto ver a Aline Bei. Ia bater foto profissional dela. Mas o tema “ausência” pode desencadear gatilhos que já estão instáveis. Sofro em vê-la sem conseguir viver tudo o que gostaria, tudo o que a idade dela permite e oferece. Me pergunto constantemente o que posso fazer pra diminuir essa dor, pra arrancar dela tamanha tristeza. Fato é que nenhuma de nós consegue viver plenamente em casa. Nós sobrevivemos. Um dia de cada vez.

Hoje foi um dia cheio, corrido, mas meu celular está sempre por perto pois o toque especial das filhas pode soar a qualquer momento. Hoje não soou 🙏. Trabalhei “tranquila”, entre aspas porque não existe tranquilidade e nem paz genuína pra quem vive uma maternidade atípica. Para mim esse tipo de maternidade não diz respeito apenas a mães de filhos autistas, mas a mães de filhos atípicos no geral. Uma maternidade atípica, a meu ver, é aquela que possui desafios que as demais não têm. Por isso, incluo aqui não apenas as neurodivergências, mas também os transtornos mentais. Pois são tão desafiadores quanto. Minha maternidade é atípica pelos dois motivos. Isso torna tudo muito mais difícil. Queria voltar a participar de um grupo de apoio às mães. Me faz muita falta… 


22 de fevereiro de 2026

Ontem demorei a pegar no sono. Acordei sem querer me levantar. Cheguei atrasada no trabalho. O dia correu bem. Ganhei um cappuccino gostoso pra acordar e ser abraçada. Eu e Alex reorganizamos os livros. Terminei meu décimo livro do ano. Almocei algo bem gostoso. Lunna jogou tarô para mim rs. Perguntei sobre minha vida amorosa. O resultado foi interessante. Não faria outros tipos de pergunta pois tenho pavor das possíveis respostas. Então prefiro viver um dia de cada vez. Por isso a importância do diário. 

Hoje cheguei mais cedo em casa. Tetê está bem. Maria é uma incógnita. Tenho medo de perguntar como ela está. Então apenas fiquei deitada com ela puxando conversas aleatoriamente, nada que pudesse puxar um gatilho. 

Finalmente deitei na minha cama, a melhor invenção dos seres humanos! Amanhã estarei de folga 🙏 Tenho nutricionista de manhã; esse ano estou focada em cuidar melhor do meu físico, além do mental. Fui convidada para ir ao cinema à tarde. Adoro! Também tenho que estudar para a faculdade de matemática depois. Mas planejar a folga não é tão simples. Tenho duas filhas que precisam do meu tempo de qualidade. Preciso ouvir suas dores, dar muitas risadas juntas ou apenas tirar Maria de casa para o sol lembrar que ela existe, pois sozinha ela não sai nos dias ruins, e estes são mais corriqueiros que os bons. Então, no momento em que falei que ia ao cinema, vi os olhos dela marejarem, vi seu semblante mudar, ouvi suas queixas com a voz trôpega. Na mesma hora segurei minhas lágrimas, me senti culpada, uma péssima mãe porque preciso de um momento só meu, sem elas. Procurei não demonstrar no meu semblante o que eu estava sentindo. Amo minhas filhas e amo passar tempo com elas, mas também preciso do meu tempo. Isso é necessário para minha saúde mental. Por fim, decidimos que vamos almoçar fora juntas. 

Agora sim, tomei meus remédios e espero acordar bem tarde. Eu nunca gostei de acordar tarde, mas agora tenho necessidade disso, então faço ao menos uma vez na semana. Boa noite.

Autora: Roberta Castro

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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