Teto quebrado

Side view of a pensive person with dreadlocks in a white shirt, enjoying coffee indoors.

Toda madrugada, Melina fumava na varanda. Não era só o cigarro que procurava, era o céu, o ar, eram respostas. Havia perguntas grandes demais para silenciar durante a noite e conseguir dormir. Enquanto a fumaça desenhava caminhos que o vento desfazia, ela relembrava as fases da vida que já tinha vivido sem nunca abandonar o próprio corpo. Lembrava da criança que vivia adoecida e era cuidada pela avó. A adolescente noiva que se casou sem véu porque o padre proibiu. A menina cheia de sonhos que achava que tinha encontrado sua liberdade no casamento. A jovem divorciada com duas filhas, chamada de louca. A mãe que acreditava conhecer as filhas. Todas permaneciam sentadas ao seu lado, esperando que o céu pudesse lhes oferecer respostas.

Melina nasceu em 1976, em São Gonçalo, Rio de Janeiro; naquela época, a cidade respirava outro ritmo e costumes. Vinha de uma família pobre, em que a escassez nunca impediu o afeto. Durante quatorze anos foi filha única. Depois nasceu a irmã, de surpresa e fora do tempo esperado, chamada de temporã pela família e principalmente seus avós, como se existisse um tempo certo pra chegar ao mundo. 

Sua infância teve cheiro de remédios e ervas. O gosto doce e enjoativo do antibiótico ficou marcado na memória da língua e até hoje Melina se recusa a ingerir remédios líquidos. Vivia com febre. Sua avó alisava sua testa com as mãos e com a fé de que o carinho também curava. E talvez curasse mesmo. Cresceu aprendendo que o corpo guarda cicatrizes antes mesmo de entender o significado da palavra dor.

Na adolescência, se apaixonou por Gustavo e pela promessa de um amor para sempre. Um sonho que ensinaram tantas meninas a desejar. Antes que o namoro amadurecesse, já havia um filho anunciado; ela só tinha dezessete anos. Veio o vestido branco, a igreja enfeitada, a festa e o padre negando o véu. Antes do casamento, foi preciso pedir perdão ao padre e à família. A culpa parecia acompanhar as mulheres antes mesmo de elas aprenderem a escolher seus próprios caminhos.

Melina entrou na igreja acreditando que estava começando uma vida. Queria uma liberdade, uma vida boa. Alguns anos depois, percebeu que também atravessava uma porta, enquanto outra se fechava atrás dela.

Em cinco anos nasceram duas meninas. Ela costumava dizer que sonhava em ter filhos homens, sem imaginar que a vida ainda guardava para ela um entendimento impossível naquele tempo.

A sogra entoava uma frase que preenchia a casa como uma reza antiga:

— Mulher, quando casa, só muda de dono.

Melina não respondia. Engolia as palavras, que desciam amargas feito chá de boldo. Não sabia explicar por que aquela frase lhe feria tanto, parecia uma sentença. Apenas sentia. Muito tempo depois, compreendeu que as violências que vivia chegavam primeiro, como uma repetição da ancestralidade, ou uma moral. 

Os dias passaram a não ter mais cor. A maternidade dominava todos os espaços, enquanto a mulher que existia nela desaparecia um pouco a cada manhã. Havia abundância material, mas faltava aquilo que não se compra: a liberdade de ser quem realmente é. 

Quando descobriu as traições do marido, se desesperou. Um silêncio pesado invadiu a casa inteira. Depois percebeu que já não reconhecia a mulher refletida no espelho. Já não sentia seu corpo e não sorria mais. 

Pediu o divórcio aos vinte e dois anos, com duas meninas nos braços.

Melina não tinha profissão nem planos.

Existe uma coragem que nasce do esgotamento. Permanecer dói mais do que partir; o medo não consegue impedir a ida. Com o passar dos anos, viver era somente dar conta. A casa dos pais já não comportava mais ninguém. Os avós envelheciam, a irmã temporã crescia. Não havia espaço físico nem emocional para recomeçar ali.

Melina trabalhou onde conseguiu. Estudou quando deu tempo. Fez faculdade sem pensar na melhor escolha profissional. Sobrevivia carregando uma mochila de cadernos, marmitas, culpas e incertezas.  

Em troca do apoio para criar as filhas, suportou palavras que diminuíam, olhares que julgavam, deboches e silêncios que machucavam. Opressão, abuso psicológico, racismo e o constante conflito de precisar agradecer até pelas migalhas de respeito que lhe ofereciam.

Com seu pai aprendeu a ficar quieta e baixar a cabeça.

Com a vida aprendeu, sobretudo, a aguardar.

A raiva existia e encontrou um lugar escondido dentro dela, permanecia silenciada para que fosse possível sobreviver. Não havia tempo para elaborar as próprias dores. A vida exigia pressa. Os boletos chegavam. As crianças cresciam. O relógio nunca perguntava se ela estava cansada.

Mas há dias em que a vida explode sua porta e o teto cai.

Foi em 2016.

Começou a sentir pequenos estranhamentos com a filha caçula. Os diálogos terminavam antes de começar. Criou um hiato de vazio entre elas. 

Até que Melina encontrou um perfil numa rede social.

Encontrou outro nome.

Outra forma de existir.

Tudo estava no masculino.

O chão se abriu e Melina sentiu o teto sobre ela.  

Soterrada. 

Negou.

Não por falta de amor.

Negou porque ainda estava agarrada ao nome escolhido durante a gravidez. Aos vestidos, às festas de aniversário, ao ballet, às lembranças que durante dezessete anos construíram a maternidade que conhecia.

Ela não entendia que o amor permaneceria.

Quem pedia pra partir era a imagem que ela conhecia e havia criado.

Enquanto o mundo discutia identidade, ela enfrentava perguntas que não ousava dividir com ninguém. Sentia vergonha de ser leiga no assunto. Sentia culpa pela vergonha. Sentia medo de perder a filha, agora filho, justamente tentando não perdê-lo.

As noites ficaram longas. 

Enquanto todos dormiam, ela acendia vários cigarros na varanda.

O céu se manteve do mesmo tamanho.

E era ela quem não cabia dentro das certezas que conduzia por toda a vida.

Foi olhando as estrelas que Melina entendeu uma verdade que ninguém jamais lhe ensinou. 

Ser mãe nunca acontece uma única vez.

Maternidades precisam nascer de novo. 

Renascem quando o coração encontra para amar alguém para além da história que um dia idealizou escrever.

Autora: Marcele Silva

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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