Um lugar para mim no amanhã

Black and white photo of smartphone showing popular app icons like Facebook and WhatsApp.

O barulho da máquina de lavar dita o ritmo do meu fim de semana. Olho para a pilha de roupas que chegou do pai, as minhas e as do filhe durante a semana. Sinto que minhas forças simplesmente acabaram até para descansar. Você descansa? Para mim, que sou autista, o caos da rotina de mãe solo não é apenas cansativo, é um colapso sensorial iminente, no qual busco refúgio em lugares que recarregam energias. Você já sentiu o seu próprio corpo falhar de tanta exaustão? Enquanto o mundo continua exigindo que você seja forte, o que você sente? O silêncio da casa, após meu filhe dormir, grita para que eu entenda como posso ser eu mesma e dar uma previsibilidade à cria, que também é autista. Dormir deveria ser um alívio, mas parece que virou tempo de pensar. A minha mente está dopada de cansaço. “Eu não vou aguentar amanhã. De onde eu vou tirar forças para organizar tudo de novo?”, sussurro para mim mesma, sem resposta.

Para piorar, a rasteira veio há duas horas por um áudio do WhatsApp. A pessoa que cuidava dele para eu trabalhar avisou, em cima da hora, que não iria mais. Ela já estava em um processo seletivo há semanas, conseguiu o emprego e simplesmente omitiu isso de mim. Quando desabei e disse que não tinha o que fazer, ela soltou: “Ah, posso te ajudar a pagar alguém”. Dá para acreditar nisso? Como se o cuidado de duas pessoas neuroatípicas fosse um produto de prateleira e a gente não precisasse do cuidado da previsibilidade. Como se encontrar alguém que entenda as crises e acolha o meu filhe fosse questão de dinheiro, e não de um acordo humano de afeto. Quem acolhe a mãe quando o mundo decide que tudo se resolve com um Pix?

Essa quebra abrupta me joga direto no julgamento que recebo de todos os lados. Mês passado, comentei com amigos que queria tentar uma pós-graduação. O silêncio na mesa foi constrangedor. Minha melhor amiga me olhou com pena e disse: “Mas você vai conseguir manejar isso tudo? Você já tem as terapias, amiga. Não acha que está querendo abraçar o mundo?”. Por que o desejo de uma mãe solo de estudar é visto como ganância, e não como direito? A sociedade aceita me ver arrastando os pés de cansaço, mas se recusa a me ver tentar voar. 

Ninguém cobra o mesmo do pai dele. O Pix da pensão está sempre atrasado e cheio de humilhação no WhatsApp, e vira um passe livre para ele controlar a minha vida. “Se tem tempo para estudar, não precisa da pensão”. Entende a armadilha? Para o genitor, para os meus amigos e para o mundo, eu deixei de ser uma mulher com futuro. Virei apenas um plano de fundo funcional por ter escolhido ser mãe.

Sento no sofá, trêmula, olhando para a tela do computador aberta na página de inscrição. Estou exausta demais até para chorar. “Por que eu insisto? Eles estão certos, eu deveria apenas aceitar o meu papel de exaurida e sumir”, minha própria mente me sabota, repetindo a violência que vem de fora. É justo que a gente passe a policiar e assassinar os próprios desejos só para caber no que exigem de nós?

Fecho os olhos, tentando regular o meu cérebro que grita por descanso. O mundo quer que eu aceite que o meu teto agora é a mera sobrevivência. Mas olho para o meu filhe e sei que, se eu desistir agora, estarei ensinando a ele que pessoas como nós só servem para resistir, nunca para viver. Com os dedos pesados de cansaço, apesar da falta de previsibilidade, digito o meu CPF na tela. Me inscrever nesse curso não é sobre ambição; é o meu último grito para não esquecer de quem eu sou. Mas a pergunta que fica é: “Eu não mereço ter previsibilidade? Eu não posso sonhar?”.

Autora: Marina Melo
Revisão: Laura Bonruck 

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