A força do amor

A mother and daughter smiling together with face stickers, showcasing affection and joy.

A noite havia chegado e, como de costume, no momento de dormir, ela queria um colo quentinho, um afago, a música que eu costumava cantar para fazê-la adormecer. Mas aquela era uma noite diferente; havia uma necessidade naquele choro que até então eu não percebia. Não saberia explicar com palavras, mas foi possível decifrar o sentimento. Ali, com ela em meus braços, chorando copiosamente, a pequena pedia pelo pai. Não adiantava tentar contato; raramente atendia. Quando conseguia falar com ele, depois ficava mais entristecida. Foi ali que me vi diante do maior desafio da minha vida.

Era inevitável o choro que brotava em mim, enquanto meu coração estava duplamente dilacerado. Não havia como chorar meu choro naquele momento, focar em meus sentimentos pós-separação, porque minha filha precisava da mãe ali, trazendo a ela segurança em meio ao caos. Engoli meu choro, minha dor de mulher, olhei para ela e a acolhi, abraçando-a com tanto amor em meu coração como se fosse possível tirar dela aquela dor, tentando fazê-la se sentir melhor, certa de que tinha um porto seguro.

Naquele instante, ao fechar os olhos em lágrimas que escorriam incontrolavelmente pela face, em prece silenciosa lembrei-me daquela que sabia a dor de ver um filho sofrer tão profundamente, Maria, quem conhecia todas as aflições do coração das mães. Pedi forças a ela. Ao meu lado, o socorro logo estava: seu avô, meu pai. Pude sentir-me também em porto seguro. Não podia imaginar o que ele sentia, mas dava pra perceber que seu coração estava também dilacerado em ver filha e neta sofrendo. A netinha tão pequena, em seus dois anos e meio de idade, passando por tamanha dor de abandono paterno, e a filha na luta por manter-se minimamente inteira após tantas decepções e dificuldades. Mas, ali estava meu pai, quem pôde tantas vezes me mostrar que, independentemente do que acontecesse, sempre estaria ali, presente, junto, onde aprendi a ser humana mesmo em meio a tempestades.

Passados dias, meses, a cena se repetia durante noites, até que a pequena foi se acostumando. Já não chamava mais o pai; chamava o avô, a figura masculina que a acolheu e se tornou referência para ela. Nenhuma noite dessas havia sido como aquela, que nos marcou intensamente.

As mães, em sua maioria, não querem que seus filhos passem por dores assim, muito menos quando pequenos, muito menos causadas por quem deveria protegê-los. Mas não há o que fazer, pelo menos era o que parecia. Tentava fazer a minha parte, maternar, amá-la. E foi ao mesmo tempo incrível e doloroso, porque nunca havia me deparado com tamanho amor, um amor que rasgava o peito, que exalava um aroma que me fazia recordar o amor de minha querida bisavó que há tanto tempo não abraçava. Minha filha nascera no dia de seu aniversário de 97 anos. Que presente! Pôde conhecer a tataraneta, pegou-a em seus braços e disse “que linda, olha esses dois olhinhos no meio da cara”. E era verdade, aqueles olhos verdes arredondados penetravam naqueles que a conheciam. Quanta luz irradiava de seu pequenino ser, enchia nossos corações de algo tão bom, de uma esperança. 

Aos seis anos de idade agora, diversas coisas mudaram; outras, porém, permanecem. Questionamentos vêm à mente infantil como que num raio, rápido e com potencial destruidor. Dentre eles, tornam-se cada vez mais nítidas as consequências do trauma do abandono, somado ao sentimento de rejeição. Após um mês da separação, ele havia se mudado para a casa de uma mulher em outra cidade, passou a viver com ela e a enteada. Questões judiciais foram definidas; ele podia vê-la diariamente se assim desejasse e, como trabalhava diariamente na cidade da filha, era possível passar para ver como ela estava ou até mesmo desfrutar um tempo pai-filha. Mas isso nunca aconteceu fora dos dias previamente ditados por ele em acordo judicial. Ela sentia falta dele. Atualmente, mais ainda e com o agravante pensamento sempre presente em sua cabeça: “por que meu pai passa mais tempo com ela do que comigo?”, pensamento esse que quis revelar aos prantos em um dos dias em que viu o pai após ele deixá-la no portão, indo embora com a enteada. A pergunta que fica é: afinal de contas, por que motivo um pai que pode passar mais tempo com sua filha opta sempre por não fazê-lo? Talvez, saber esta resposta não seja suficiente. É cada dia mais evidente a falta que um pai suficientemente bom faz na vida de um filho.

Penso em quantas mães vivenciam isso, em quantos filhos passam por essas situações. Olho ao redor e são tantas histórias de mães-solo, quantas mulheres estão ali. Inevitável não sentir um desejo profundo de mudar o mundo, de talvez ter me dado conta do quanto ainda temos para melhorar enquanto humanidade, para que quem sabe um dia as coisas sejam diferentes, que os pais se responsabilizem verdadeiramente pelos filhos, que dêem amor a eles, cuidados e presença, como tantas mães assim o fazem. Mas por enquanto a realidade é essa: que no mínimo os pais paguem a pensão de seus filhos.

Às mulheres por trás das mães solo, continuem fazendo o melhor pelos seus filhos, mesmo que eles não tenham o pai, a pensão, o amor paternal, porque sem dúvida um dia eles reconhecerão aquelas que, mesmo com o coração rasgado, sempre tentaram fazer o que podem para seus filhos. E isso, dinheiro nenhum no mundo paga. Como somos fortes!

Autora: Bethânia Martins

Revisora: Micaela Queiroz Redondo

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