Dormi e acordei mãe, sem manual, sem provas teóricas ou práticas. Alguém simplesmente colocou uma coisinha rosa e chorona no meu colo.
— É sua.
Eu, que sempre tive respostas para tudo, língua afiada e rápida, não respondi. Não consegui pensar em nada. Absolutamente nada.
Naquele momento, senti a pele fina e quente. Parecia um cristal delicado, fácil de quebrar. Ela se movimentava como uma brisa, a mesmíssima sensação: tempo suave, parado. Olhos grandes e cinzentos tentando seguir a minha voz.
É isso? Sou mãe?
Já no seu primeiro dia, o meu cristal se mostrou uma pequena fera. Rugiu a noite toda. Em algum momento, senti como se tivessem sinos tocando na minha cabeça.
Eu, preocupada, chamei a pediatra.
— Tem algo errado com ela?
Ela sorriu.
— Não. Ela é perfeitamente saudável. É só o temperamento. É bravinha.
Quatro anos depois eu descobriria que algumas forças da natureza são o que são.
Quando criança, eu sempre ia à roça dos meus tios e comia amora direto do pé. Me esbaldava, como se o mundo fosse acabar em amora. Mil anos depois, estava na feira, onde vou semanalmente. Vi uma etiqueta: muda de amoreira. Era o destino.
Passei semanas aprendendo como cuidar da minha amoreira: o estudo do solo, da planta, do sol, o ciclo. Por fim, me senti quase uma agricultora de amoras. Cuidei, dei nome. Jacira cresceu saudável. (Jacira porque amo idosos, acho que é por não terem filtro e cheirarem a pão de queijo.) Até meus esforços diários para fazê-la acompanhar o sol foram recompensados. Jacira me deu amoras deliciosas.
Gostinho de infância e muito trabalho duro.
Barnabé mastigando uma folha da Jacira. Me enfureci. Não era uma folha, havia um rastro, mais e mais folhas, meu coração acelerado, suor frio. Corri até a Jacira.
— HELEEENAAAAAAA, eu não acredito que você fez isso!
Com o tom de voz lá nas alturas, falei de forma totalmente desequilibrada:
— Você sabe que é errado, por que fez isso? Feio, muito feio o que você fez.
Com os olhos marejados, fui mais longe ainda.
Ela riu, achou que era brincadeira.
Me descontrolei, dei um tapinha na mão dela.
Ela me olhou como quem sofrera uma traição. Não era acostumada com falas gritadas e nunca havia apanhado. Foi a primeira e última vez que desferi um castigo físico.
Ela chorou e chorou. Claramente magoada.
Meu arrependimento foi imediato. A raiva logo se transformou em tristeza.
Chorei junto com ela. Me desculpei.
Ela não quis saber, ficou de mal de mim. Por longas três horas.
Liguei para minha mãe, uma pessoa dotada de uma sinceridade tão aguçada quanto uma navalha recém-afiada em pedra.
— Mãe, aconteceu isso, isso e isso. Eu não sei o que faço com a Helena, ela me desafia o tempo todo, fica testando os meus limites, obedece cada vez menos.
— Ela é uma criança, criança age como criança.
— Ela é brava, desobediente e só faz o que quer?
Eu, sem entender essa lista em forma de pergunta, só respondi: sim.
— Você era igualzinha!
Desliguei o telefone, um silêncio perene. Fui olhar a Helena de perto. O bico enorme e o olhar furioso me fitando.
Minha Nossa Senhora, a respiração até travou. Estou olhando para um espelho pequeno e não domesticado de mim mesma?
Olhei para mim, olhei para ela. Em um segundo revisitei zilhões das minhas experiências de vida.
Eu não quero domesticar essa fera.
Então é isso?
Isso é ser mãe! Não era mais interrogação.
Passei os últimos quatro anos tentando ensinar a Helena a viver no mundo, e o mundo me devolvendo quem eu fui.
Autora: Ana Silva
Revisora: Micaela Queiroz Redondo





