Tinha quase um ano que estava sem a minha mãe. Me ocupei de tantas coisas nesse período que nem sei como passei por ele direito. Sei que foi acelerado, eu tinha pressa de ver as coisas dando certo, de terminar a faculdade pra conseguir ser enfermeira, almejava um emprego melhor e quem sabe até mudar de país.
As prioridades mudaram muito naquele momento, eu perdi minha mãe e assumi a guarda da minha irmã. Nessa época eu estava solteira, mas essa era a configuração que eu estava habituada a ver, afinal minha mãe cuidou de nós sozinha, então estava tudo certo, na minha cabeça eu também daria conta. Eu só não esperava que a vida tinha outra trajetória pra mim.
O ano era 2015, eu viajei para um congresso da faculdade, o destino era Fortaleza, uma escala longa no aeroporto de São Paulo. Para aproveitar esse tempo livre, eu agendei uma reunião com um rapaz que conheci na internet (a louca). A pauta era um convite pra ele vir à minha cidade participar de um encontro do grupo “empoderação das pretas”. Ele, um poeta preto com poesia de temas raciais potentes. Fiquei encantada com a poesia dele quando li, mas também com o sorriso da foto que ilustrava a poesia. Um homem negro de turbante, com tanta sensibilidade pra falar de um assunto pesado com poesia.
Eu precisava conhecer ele e, claro, apresentá-lo para mais pessoas. Começamos a conversar online e combinamos esse encontro/reunião. Pela disponibilidade de datas, ficou confirmado para a minha volta da viagem. Nos encontramos então no aeroporto de Guarulhos em 28 de julho de 2015, assim que ele chegou, nos apresentamos, tivemos um abraço longo e um beijo na boca (que encaixou certinho), ousado ele. Dali pra frente a reunião mudou de pauta, foram 6 horas de conexão, muita conversa e chamego. O nome desse cidadão paulistano é Wellington. Enquanto conversávamos, encontramos muitas semelhanças na história de vida, configuração familiar, os desejos de fazer e ser alguém melhor.
O ponto alto da nossa conversa foi a partir de uma cena que vimos acontecer na nossa frente – um pai que brincava com a sua filha. Parecia algo comum entre eles, a criança ria espontaneamente e o pai estava nesse papel de cuidador. Isso nos fez parar de falar, olhar pra cena, nos olhamos em silêncio com o mesmo pensamento: eu não vivi isso. Foi uma pausa breve, porém profunda, que deu outro tom à conversa. A ausência paterna nos atravessou.
Eu queria muito formar a minha família, mas gostaria que fosse diferente e percebi que ele também. Que loucura – nesse momento eu senti meu útero revirar dentro de mim – a maternidade gritou alto. Hoje tenho certeza que esse foi o passaporte para o que construímos logo depois.
Ao final da escala, ele prometeu que estaria na minha cidade em duas semanas para conversar com as pessoas que eu tinha como responsáveis por mim e confirmar o interesse dele em algo sério comigo. Confesso que entrei no avião já desconfiada se aquilo não era “conversa fiada” desses homens de cidade grande para cima de mulheres do interior.
Pois ele veio. Chegou inclusive no momento em que eu estava quase me afundando na tristeza de 1 ano de falecimento da minha mãe. A chegada dele mudou a proposta desse dia. Para recebê-lo, minha família fez um almoço, bem recepção do mineiro mesmo, sabe, oferecer comida é gentileza. Foram dias incríveis com ele aqui comigo, conhecendo meu povo e minha história e querendo fazer parte dela.
Queria tanto que me pediu em casamento. É isso mesmo – suas contas estão certas – tínhamos apenas algumas semanas de um namoro a distância e ele já queria casar. Eu estava tomada por uma sensação de dualidade, o que estava acontecendo era tão incomum que ousei desconfiar se era verdade. Uma hora eu vivia uma paixão avassaladora, outras eu colocava os pés no chão, esperava que algo ruim fosse acontecer e tudo ia acabar. Porque eu não tinha referência de relacionamento dando certo.
Mas o destino foi só confirmando pra mim – em dezembro do mesmo ano ele oficializou o pedido de casamento, no palco de teatro na peça que ele estava apresentando ao se formar como ator. De joelhos com aliança na mão e uma galera de testemunha. Aqui eu botei fé, me empolguei. Começamos a organizar o casamento em janeiro de 2016 para o ano seguinte, porém, em fevereiro, eu descobri que estava grávida da nossa primeira filha.
Quando peguei o positivo, nem ousei desconfiar que poderia ser falso, tivemos uma relação sexual em que a camisinha rompeu, eu tomei pílula do dia seguinte e agora tinha o positivo em mãos. Fui tomada por uma felicidade imensa, dancei com a mão na barriga, pulei de alegria sozinha em casa e, depois de algumas horas, percebi que precisava comunicar mais alguém que fazia parte dessa história. E foi aqui que eu me vi pronta para repetir um padrão de mulheres pretas sendo mãe solo, era inclusive a vivência da minha mãe: abandonada em todas as gestações e criando seus 3 filhos sozinha.
Ao ligar para o Wellington, eu estava na defensiva, mas era o que eu tinha de repertório. Falei de forma abrupta que estava grávida, que estava feliz e que tudo bem ele seguir a vida dele lá, que eu seguiria a minha aqui com essa gestação. Eu já estava pronta pra ele não assumir. A resposta dele, senhoras e senhores: não existe nenhuma possibilidade de não viver essa gestação ao seu lado. Eu vou ser pai.
Em março ele se mudou para minha cidade, em maio nos casamos, em agosto me formei e em outubro pari nossa primeira filha. Ou seja, em menos de 1 ano (2015-2016) eu vivi coisas que a minha mãe não conseguiu viver em seus 42 anos, sendo esses abandonos o motivo dela ter desistido de viver. Hoje, somos pais de 3 meninas, casados há 10 anos e escapando das estatísticas ruins que atravessam nossa raça. Haja terapia.
Autoria: Vanessa Sabino
Revisão: Bárbara Soares





