Uns olhos bonitos que fitam dentro dos olhos meus. Como pode, um indivíduo tão recém chegado ao mundo, tal qual papel em branco que espera pelos pincéis de colorir arco-íris, olhar tão fundo pra dentro de mim?
A maternidade me convoca ao uso de figuras de linguagem, porque a língua portuguesa em seu sentido literal não alcança as nuances do duplo nascimento filho-mãe. Apenas o uso de hipérboles me permite elaborar a enormidade do meu fascínio por ele. Com um sorriso de orelha a orelha, vejo o menino mais formoso do mundo. Irrestritamente entregue, no espaço entre a sua mãozinha e meus longos dedos, não existe camuflagem. Só é possível ser de verdade. Antônio me convoca presença plena.
Em um tempo que dura, concomitantemente, apenas um segundo e toda uma eternidade, eu observo ele dormindo, uma respiração serena, com resmungos de gente miúda.
De repente, a prosopopéia. O tempo corre de mim, eu o persigo apenas para ver, logo ali no corredor, que meu bebê engatinha. Evocando uma anáfora, te observo tentando, te observo caindo, te observo crescendo. Cresço eu também, junto de você?
Rememoro o passado. Já tinham me contado que ele vinha, anos atrás, em um jogo de búzios. “Tem um menino aqui no seu futuro”.
Antes mesmo disso, uma amiga de infância casualmente apontou certo dia, nos idos dos anos 2000, “tu tem jeito de mãe de menino, já percebeu?”
Mãe de menina não queria ser, de menino tampouco, uma trabalheira danada isso de ser mãe de alguém. Muita responsabilidade, gastos altos, privação de sono, mudanças corporais, pausa na carreira. Não, meus passos tomavam outros rumos, longe de mamadeiras ou fraldas tamanho P.
Passei e passeei pela China, vivi mundos diversos e diferentes versões de mim mesma. E, com o perdão do pleonasmo, tal como a roda gira e tudo volta ao seu devido lugar, eu vim parar no Rio de Janeiro, cumprindo um destino já marcado. Cartas sobre a mesa, velas acesas e um pedido de amor, tudo me levou até você, meu filho.
“Au-au”, “mamá?”, “poita – toc-toc”, “muuuu”. Minha rotina diária para a escolinha é recheada de onomatopéias, enquanto ele divide comigo cada novo aprendizado, os sons, as cores, os cheiros dessa primeira infância mágica. Os passos vacilantes ficam mais seguros a cada amanhecer, e ele tenta correr, aos tropeços, pois há tanto para ver e provar. Ele tem fome de mundo, e eu, de redescoberta. Experimento as frutas que ofereço, porque o meu paladar dá o tom da música que direciona o seu tato. Quanta sinestesia! Sou o seu maior exemplo hoje, e passei a ver beleza nessa responsabilidade. Ser uma mãe recém-nascida me dá a oportunidade de abraçar as experiências da vida com mais otimismo pelo amanhã. Porque esperançar é mais que poesia, é decisão ético-política na criação de um filho.
Afinal, o futuro sempre chega. Hoje você já combina palavras, diz das suas vontades e se sente contrariado. Eu materno a língua ao passo que você enriquece o seu vocabulário do querer. As camadas de complexidade se sobrepõem no papel da sua identidade enquanto você descobre que somos dois, ainda que profundamente conectados. Eu te gerei no meu corpo, mãe-terra, para te ver a cada dia mais dono de si mesmo.
O maior paradoxo da maternidade é que, para ser uma boa mãe, preciso me lembrar de ser uma não-mãe. Uma mulher, uma filha, uma amiga, uma companheira, ou apenas eu mesma, olhando em um espelho, com o corpo um pouco flácido, um cabelo bagunçado e olheiras aparentes. Eu, na roupa larga e com caimento estranho após a perda de peso, e em um estilo ainda em reconstrução. Eu, sonolenta e desmemoriada, decidindo sobre as compras do mês, as tarefas domésticas, a demanda de trabalho e o filme que quero ver no cinema. Eu, desejante de novas vivências, marcando aulas experimentais de aikidô, cortando os cabelos, querendo conhecer a Bolívia ou aprendendo sobre maturação de queijos. Eu, vacilante, passional, amorosa e confusa. Eu. Por mim, e por você.
Meu filho merece me ver vivendo.
Autoria: Larissa Montel
Revisão: Bárbara Soares





