Ela, substantivo próprio

Inbound6631760401122874927 Janaina Couto 755x1024

Imersa na ilusão de uma maternidade idealizada, intoxicada por padrões de consumo e expectativas romantizadas, ela planejou sua primeira cria. O ano era 2013, quando chegou à maternidade repleta de sonhos e certezas — e voltou de lá com olheiras e angústias.

Segurando a cria no colo, viu-se diante de sensações e sentimentos antagônicos às suas expectativas. Tomada por medos, inseguranças e exaustão, desconstruiu todo o ideal de maternidade incorporado na gestação. A aparente irreversibilidade da situação a assustava. Ela se culpou por sofrer — sofrendo em dobro. Ao se tornar mãe, atravessou seu próprio luto.

Ao aceitar a imprevisibilidade da maternidade, foi, aos poucos, se adaptando. Incorporou habilidades jamais imaginadas e, com o passar dos dias e noites intensas, o vínculo com sua cria enfim se fazia presente. Precisou desconstruir a mulher que fora antes de se tornar mãe, renascendo como uma pessoa protagonizada pela maternidade. Ela era, antes de tudo, mãe — com suas dores e delícias.

Ainda sentia medos e inseguranças, mas aprendeu a conviver com essas angústias. A exaustão tornou-se uma condição crônica, mas passível de convivência. Os encantos da maternidade levaram a um insano equilíbrio entre o caos e a plenitude.

Quando tudo parecia fluir numa nova rotina que lhe dava certo controle da situação, chegou o temido retorno ao trabalho. A profissional que se afastou já não existia mais. No trabalho, conheceu a culpa materna. E, dia após dia, ao chegar em casa, passou a se deparar com a culpa do dever não cumprido.

A adaptação foi lenta e sofrida — contudo, exitosa. Ela se contentava com poucas horas de sono, com o café não tão quente e com banhos rápidos. Então, incorporou a gratidão aos ensinamentos e sentimentos proporcionados pela maternidade.

A experiência tornou o processo de maternagem mais leve e racionalizado, motivando o planejamento da segunda cria, que veio ao mundo num contexto de mais leveza e adaptação. Ela lidava melhor com os sentimentos do puerpério, com o cansaço e com a imprevisibilidade. Adaptação e realização passaram a caminhar lado a lado, num aparente equilíbrio — até que um sabor amargo constante na boca avisou que uma terceira cria estava por vir.

Ela se tornou mãe de três. Fazendo jus à imprevisibilidade que sustenta a maternidade, a experiência materna foi insuficiente na chegada da terceira cria. O ano era 2020. A travessia foi debaixo de tempestade. Ela atravessou com suas crias. Ela, mãe de três.

Entre tropeços e acertos, caminha com sua prole lado a lado à exaustão — sua indesejável companhia invisível. Enxerga na maternidade a materialização da palavra resiliência. Aprendeu a tentar suavizar o caos que perpassa seu cotidiano. É grata por suas crias. Seu luto e renascimento proporcionaram uma melhor versão.

Ela, mãe de três, é também professora e pesquisadora — e convive com a baixa produtividade acadêmica, julgada pelos seus pares. Percebeu que suas titulações são uma gota d’água de conhecimento frente ao oceano de aprendizado que perpassa a maternidade. Com orgulho, insere o nome de suas três crias em seu currículo. Aprendeu com elas a buscar voz e espaço para a maternidade.

Ela, mãe de três, também é a esposa que cochila no começo do filme, exausta do dia. É a dona de casa que congela comida e finge que não nota as crias desenhando na parede em troca de uns minutos de calmaria. Surta de vez em quando — na mesma proporção que se emociona. Tem consciência de que não dá conta de tudo.

Ela se entregou à imprevisibilidade. Aprendeu com a maternidade que nem sempre vale a pena racionalizar. Ela é substantivo próprio, contrariando regras.

Ela, mãe de três, sou eu. Uma mãe que escreve.

Janaína de Albuquerque Couto – @janainaac

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