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A partir do momento em que uma mulher dá à luz a um filho, ela não está mais só. Por mais óbvio ou banal que seja a afirmação, se trata de uma conclusão que vai estarrecer aos poucos a mulher que acabou de parir. 

E aqui a visão romântica de que a mãe nunca mais andará solitária vez que sempre terá a companhia de um filho não faz parte da ideia a ser explorada. Explico: a gestante tem o prazer de ainda habitar o maravilhoso e encantado mundo em que tem pouca ou nenhuma ideia do que a espera. 

Por mais que se informe sobre puerpério e todas as transformações que a aguardam, a mulher ainda pode imaginar e sonhar o bebê o quanto quiser porque ainda nada é concreto. 

Criar um ser humano do zero dentro de si mesma é uma experiência realmente única e as mulheres que estão nesse processo imenso e intenso de gerar devem mesmo ser deixadas em paz enquanto produzem pés, mãos e órgãos vitais. 

Não é preciso alertá-las quanto às dificuldades vindouras: logo ela descobrirá por si mesma. Ocorre que quando o recém-nascido finalmente chega essa mesma mulher que provavelmente idealizou um bebê tal ou qual, ou uma maternidade xyz, sofrerá um baque considerável: o cotidiano com um recém-nascido certamente é muito menos glamouroso ou cor de rosa do que foi sonhado.

Aquele bebê que ela acariciava na barriga agora chora sem parar se não for embalado e alimentado. De um minuto para outro, literalmente, a mulher passa a ser responsável por outro alguém e não anda mais só. 

O pós-parto é aquela mistura insana de hormônios, descoberta de novos e profundos sentimentos pelo recém-nascido e muito pouco descanso. Os dias passam lentamente agora em companhia de um bebê repleto de exigências sem fim. 

Nos primeiros meses (ou anos), o lugar preferido é entre os braços da mãe e a alimentação vem dos seios dela, de modo que não há muito tempo para refletir: é preciso ser aconchego. 

As refeições são rápidas, assim como os banhos, e o escasso tempo “livre” é dedicado exclusivamente ao descanso para que aquela mulher não entre em colapso. Muitas mulheres nem se dão conta do que se passa até não se reconhecerem mais no espelho. 

Costumam manter um sorriso guardado para os momentos sociais e pouquíssimo falam sobre as crises internas que a atormentam. A falta de sono, autonomia, liberdade. O excesso de afazeres, a dificuldade para retomar a vida após a maternidade, a falta de tempo para se olhar e cuidar.

De fora, pode parecer um exagero. É apenas um bebê, não é mesmo? Pois não é exagero dizer que se trata do trabalho mais árduo que existe. Nos primeiros meses, ser alimento e alento, atuando como principal cuidadora de um novo ser.

Nos anos que se seguem, a criança já engata noites inteiras de sono, mas o desafio só aumenta: o bebê passa a ser uma criancinha com vontades maciças e colocar o tênis para sair de casa passa a ser um desafio de dar calafrios.

A privação de sono muitas vezes é motivo de piadas sobre as mães novas, mas não dormir as horas apropriadas vai, pouco a pouco, causando danos silenciosos, porém desastrosos. 

Sem dormir, nosso cérebro não é capaz de renovar os próprios neurônios, de modo que uma boa noite de sono é não apenas reparadora para a cútis, mas para que um novo dia seja encarado com novos olhos.

“Durante o sono, nós criamos novas sinapses – a sinaptogênese é fortemente determinada pelo sono – por isso a pessoa que dorme mal começa a entrar em processos depressivos e ruminativos. Se a pessoa dorme bem e, assim, novas conexões e neurônios se formam, pode se voltar para o novo, para o futuro – caso contrário, vai ruminar o passado porque não conta com novos neurônios para olhar para frente.

Se novas sinapses não são criadas, a pessoa só conta com a memória das velhas e é como se não tivesse recursos para viver o hoje”. A informação é do neurocientista Sidarta Ribeiro, que pesquisa o assunto e defende as boas noites de sono como antídoto contra a depressão.

Dizem que quando nasce uma mãe, nasce uma culpa. Não sou do partido da culpa, portanto peço licença para modificar essa sabedoria popular de acordo com a minha própria experiência: nasce uma mãe, nasce uma sobrecarga. 

Porque uma mãe é, sobretudo, um ser sobrecarregado. Não me disseram isso quando engravidei. Me aconselharam largamente sobre o melhor carrinho do mercado, quantos bodies um recém-nascido necessita e outras informações que são relevantes do ponto de vista prático. 

Entretanto, não me alertaram sobre como a mulher, quando se torna mãe, acumula tarefas das mais diversas e raramente terá uma noite de paz e tranquilidade novamente porque ou será acordada pelo bebê, ou estará fazendo uma lista mental, madrugada adentro, sobre os mantimentos da cozinha, quantidade de fralda, ou ficará preocupada com aquele insistente nariz escorrendo da cria.

O termo mais utilizado – e, na minha opinião, o mais acertado – para sintetizar tudo isso a que me refiro se chama “carga mental”. A carga mental é tudo aquilo que a mulher-mãe carrega que não é visível aos olhos, mas que faz toda diferença no cotidiano. 

O marido ou companheiro pode até dividir as tarefas do lar, mas conheço pouquíssimos casos em que essa divisão ocorre de maneira absolutamente equânime, exatamente na mesma proporção para cada um. 

O que é mais comum num casal dito moderno que tenta espantar o fantasma machista imposto é o homem estar disposto a colaborar, porém espera que a mulher lhe diga as coordenadas para que o trabalho seja realizado. Ora, se a mulher precisa indicar o que fazer, o trabalho certamente não está dividido de maneira que cada um fique com a metade da carga, de modo que desconheço um pai que esteja igualmente preocupado com as calças que ficaram curtas para o próximo inverno como uma mãe está.

A conta nunca fecha também em relação ao mercado de trabalho – o mundo espera que as mães trabalhem como se não tivessem filhos e criem filhos como se não trabalhassem. Se em casa não encontram a parceria ideal para que conservem um pouco de sanidade, na medida em que precisam não apenas executar as tarefas que lhes cabem, mas também coordenar e fiscalizar as do parceiro, fora do ambiente familiar também encontram hostilidade. 

Muitas horas fora de casa, zero compreensão quando precisam se ausentar caso tenham um filho doente, salários desiguais e inúmeros outros obstáculos. Sem falar na pífia licença paternidade concedida no Brasil.

Diante dessa lista numerosa, não é de se admirar que muitas mulheres-mães estejam com a saúde mental muito comprometida. Muitas vezes são apenas um resquício do que outrora foram, no que concerne a liberdade, autonomia, tomada de decisões. 

As mulheres-mães estão, essencialmente, sobrecarregadas e precisam olhar para isso com atenção para que sua saúde não seja largamente afetada.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), “saúde é um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a mera ausência de doença ou enfermidade”. 

A saúde mental é mais do que a ausência de transtornos mentais ou deficiências, mas a possibilidade de viver em estado de bem-estar, sendo um indivíduo consciente de suas próprias habilidades e capacidades, sendo capaz de lidar com o estresse normal que a vida impõe, contribuir pela comunidade e trabalhar de maneira produtiva. 

Conheço poucas mães de filhos pequenos que preencham essa fantástica lista de requisitos e tenham uma saúde mental intacta. Uma vez que a saúde mental materna é amplamente desconsiderada, visto que a sociedade patriarcal exige que a mulher esteja plena e realizada depois do nascimento dos filhos, não é raro que muitas mulheres sofram de: depressão pós-parto (DPP), transtorno de pânico pós-parto (TEPT) ou mesmo desenvolvam uma ansiedade exacerbada depois do nascimento dos filhos.

Ser mãe não é “padecer no paraíso” – ou, ao menos, não deveria ser. Romantizar o sofrimento de uma mãe é anulá-la como ser pensante e atuante, que não precisa de apoio e auxílio para criar uma criança. 

Enquanto não olharmos para as mães e sua sobrecarga, jamais poderemos enxergar além daquele sorrisinho amarelo. Ser mãe é exercer um papel fundamental de cuidadora, mentora, mas não de sofredora. 

E mães estão sofrendo por não terem o devido suporte que necessitam. É preciso que haja amparo da sociedade e amparo institucional para exercer uma maternagem com respeito e dignidade.


Autora: Meu nome é Marcela Pimentel, sou formada em jornalismo, atuei como redatora, mas hoje trabalho como advogada especializada em Direito de Família – para mim, a área mais humana do direito, porque gosto de pessoas e histórias. Tenho um filho de três anos chamado Raul e, desde que me tornei mãe, passei a me interessar pelos meus processos mais profundos e íntimos, dando um salto para dentro de mim mesma. Escrever, para mim, é uma forma de me decifrar e também curar. Meus textos estão em: @contosderaul no instragram. 

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