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O interior da maioria das pessoas é formado pelo coração, pulmão e demais órgãos. Dentro de mim, além disso, sempre existiu também a necessidade de fazer muitas coisas ao mesmo tempo, algumas que nunca experimentei, todas com a mesma urgência.

Com o tempo, junto dessa necessidade, foi surgindo também um questionamento: por quê? Por que tantas vontades em direções variadas? Por que a busca incessante pelo desconhecido? Por que tamanha intensidade na forma de viver, respirar, e principalmente sonhar?

Uma das possíveis respostas para esse questionamento é que eu fazia tanta coisa procurando algo que eu não sabia o que era. O que quer que fosse, era tão essencial quanto o ar que eu respirava.

Com a diferença de que o ar nunca tinha me faltado, e essa coisa eu não conseguia nem ter a sensação de que estava cada vez mais próxima. Era como se eu tivesse um vazio, como se me faltasse um sexto sentido que me faria aproveitar a vida muito mais do que só com visão, olfato, audição, paladar e tato.

Se eu continuasse procurando, em algum momento eu faria alguma coisa que me traria satisfação, realização, plenitude e me aquietaria a alma.

Assim eu seguia em frente, iniciando mais um curso, experimentando uma nova atividade física, conhecendo uma expressão artística que me fosse inédita, aprendendo mais um idioma, aprimorando algum conhecimento que me parecesse interessante, viajando para lugares desconhecidos, buscando novos sabores, sensações e companhias. Só que nada bastava.

Até que um dia me tornei mãe. Continuo com essa mania de fazer muitas coisas diferentes, buscar o ineditismo, até porque, ninguém muda do dia para a noite. Mas aquela urgência de quem ainda não conseguiu o básico necessário para sobreviver, isso ficou para trás. A plenitude que até então só existia nos meus sonhos, finalmente apareceu. Além disso, até que chegasse a adolescência da minha filha, de bônus ainda ganhei uma companheira para todas as minhas aventuras.

Não deixei de ser a mulher que eu era antes da maternidade. As vontades, os desequilíbrios, a intensidade, tudo continua fervilhando dentro de mim. Os caminhos que escolho para trilhar seguem a mesma coerência ou incoerência de antes. O que ficou para trás foi aquela sensação de que nada bastava.

Pode ser que um dia ela volte, já que sentimentos não obedecem nenhuma lógica cartesiana. Mas por enquanto, a cada dia, confirmo que a maternidade me tornou uma mulher melhor, inclusive nos assuntos que não se relacionam com minhas filhas.

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Marcia do Valle
É mãe, carioca e engenheira. Começou a escrever para tentar harmonizar o que sentia com o mundo que a cercava. A partir daí, nunca mais parou, publicando o seu primeiro livro em 2005, o romance 180 Graus (Editora Marco Zero). Em fevereiro de 2020, foi lançado pela Editora Adelante seu segundo livro, uma antologia de textos sobre amor, saudade, e outros sentimentos que transbordam de suas palavras: Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?. Após escrever em blogs e diversas páginas da internet, atualmente divulga os seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

1 COMENTÁRIO

  1. Adorei suas reflexões, também sou mãe, só que, dois meninos. Me identifiquei muito quando disse que “(…) sentimentos não obedecem nenhuma lógica cartesiana.”

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