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Passado o triste aniversário de 1 ano em isolamento social em casa, como mãe, vendo e pesquisando sobre o cenário das mulheres exaustas, muitas sem seus empregos, me faço a pergunta que não quer calar: quem está cuidando de quem cuida?

Muitas dessas mulheres acumulam afazeres domésticos, com home office, apoio aos filhos nas escolas virtuais e a preparação do alimento diário da família, cuidados com roupa, enfim, e ainda se aventuram nos supermercados para trazer para casa mais alimento, muitas delas correndo os perigos que todos nós corremos quando tocamos em qualquer objeto na rua que possa conter o vírus invisível.

Em termos gerais o Brasil ‘anda péssimo na fita’ e cada estado a seu modo toma as medidas restritivas e mais duras para conter contágio e aumento da ocupação de leitos de UTI nos hospitais.

Pensando nessas mulheres, que além de profissionais, esposas e mães, também são filhas e estão sempre com o coração e a mente em seus pais, sogros, avós ou pessoas da família de mais idade, preocupadas se essas pessoas estão bem, providas de alguma forma, seja de alimento, de afeto, carinho, enfim, tantas coisas estão circulando e pairando nas nuvens dessas mulheres, e são tantas, acordando todos os dias com seus pijamas e provendo café, almoço, lanche e jantar de suas crias, vendo quem fez seu dever, quem escovou seus dentes, muitas vezes levando em médico quando não estão bem, enfim, CUIDANDO.

Mas quem está cuidando de quem cuida? Quem está a olhar por essas mulheres? Quem está com, a sensibilidade do amor, a olhar por elas?

Muitas vezes é o próprio filho ou filha que lhe enxuga a lágrima que escorre, muitas vezes é o esposo companheiro de jornada e de teto, que lhe acolhe, compartilha tudo com ela e lhe diz de forma silenciosa que estão todos juntos na mesma jornada do aprendizado ou aprendizados da vida… e dentro da vida esta pandemia.

Tem mulher grávida, tem mulher parindo, tem mulher fazendo parto, nesse ano pandêmico e neste exato momento. Há avós sem seus netos na barra de suas saias, porque os filhos optaram por lhes proteger de qualquer contágio, e esses corações sentem a falta de seus pequenos batmans e mulheres-maravilhas.

Mas muitas nem sequer tem filhos, ou companheiros, mas cuidam de seus pais, de seus avós, de seu lar, plantas, animais de estimação e muitas respondem pelo lar, sozinhas. Muitas saem cedo e voltam tarde. Muitas deixam seus filhos com outras pessoas para poder trazer o pão para casa. Muitas médicas, enfermeiras, muitas profissionais da saúde exaustas, outras aplicando vacinas e fazendo também a diferença nesse cenário caótico. Muitas se engajando em movimentos de apoio e ajuda mútuos. Muitas a orar e a pedir no plano espiritual pelo fim de tudo isso, a rezar e a pedir seja para Jesus, Maria, Buda ou Alá.

Mas o fato é que o coração dessas mulheres e a mente delas andam bem esgotados. Elas estão para além de seus limites. Estão suportando e sendo resilientes até onde elas nem imaginavam que conseguiriam chegar. Seus corações já passaram pelas fases do medo, tristeza, angústia, luto. Suas mentes já antecederam fatos, ansiosas, já se fizeram noites insones e elas em claro a pensar: ‘O que pode acontecer agora?’

Muitas já estão dilaceradas pela perda de um familiar querido, de um amigo, de um conhecido ou por saber que alguém próximo a ela sofre com tamanha perda para o vírus. Então, quem está a cuidar de quem cuida? Quem está a olhar por esta que tanto olha para todos?

A primeira resposta que vem à mente e ao coração é: DEUS. Deus em sua infinita misericórdia. ELE olha por elas. ELE tudo vê, tudo pode. ELE não abandona, não desampara. ELE…ELE…ELE…nosso bom e divino DEUS que tem tantos outros nomes como as peças de roupa num armário. Sim, Deus usa muitas vestes. BUDA, ALÁ, JEOVAH, TAO, KRISHNA, um sem fim de nomes e mesmo assim inomináveis.

A segunda resposta que me vem são que estas mulheres se cuidam delas mesmas ou são por hora cuidadas por quem as ama. Só queria compreender a síntese do aprendizado para elas, que cuidam de tanto, de tantos, qual seria a síntese?

Espremendo o limão, do que extraímos como aprendizado? Vai da limonada à caipirinha, não é mesmo? Mas percebo todas essas mulheres em mim mesma e me compadeço, solidarizo-me com suas dores, as dores de quem gera, de quem alimenta, de quem afaga, abraça e beija. As dores de quem sente por demais porque Deus, quando fez o coração das mulheres, o fez com abundância de amor, de entrega e de doação.

Muitas destas mulheres já conseguiram trilhar uma jornada interna de autocuidado e de auto-cura. Muitas delas conseguem, mesmo com tantos afazeres, parar aquele tempo mesmo que pouco, para um diálogo interno, para uma oração, para uma caminhada, para uma massagem nos próprios pés, para pentear seus cabelos com calma, para um banho sem interrupções, para um chá sentada em um cantinho, para um auto-afago, um amor-próprio, como que num suspiro para, pegando o fôlego, continuar a jornada do dia, do mês, do ano, da vida…com ou sem a pandemia ali presente.

Outras conseguem mais um pouco. Conseguem fazer alguma yoga, tai chi, cantam mantras, ou músicas belas outras, muitas conseguem perceber mais e mais o sutil, e que quando se cuidam um pouco mais, conseguem cuidar um pouco melhor de tudo e todos ao seu redor. A jornada é de cada uma, os caminhos são diversos. Os pés que caminham o caminho são únicos. Assim como as mãos que cuidam, o coração que ama e a vontade que ampara, a vontade de seguir.

Lindas as mulheres psicólogas a cuidar em sessões de terapia online nessa pandemia de outras mulheres e homens também, e das crianças. O ouvido da escuta, do profissionalismo e do amor.

Grupos que se ajudam mutuamente como o Segura a Curva das Mães que encontrei pesquisando esse assunto. Porque tem mulheres com fome, sem teto, precisando de qualquer ajuda sincera e amorosa. E triste e cortante saber que têm mulheres sofrendo violências as mais diversas não apenas nesta pandemia, mas imensamente agravado por ela. O feminicídio nos destrói, corpo alma e corações. E saber que existem lugares como a Casa Lilás, em Vitória-ES (@casalilasfeminilidades), é saber que a LUZ existe e ela irradia FORTE!

Hoje acordei querendo saber dessas mulheres, incríveis, que estão exaustas, mas que continuam a jornada do cuidar, em meio a tudo isso. Fui fuçando e fuçando e vendo que são muitas Marias, Elisas, Fabianas, Adrianas, tantos nomes, tantas histórias de vida, tantas jornadas. Donas de casa, professoras, médicas, enfermeiras, psicólogas, domésticas, moto girls de delivery. Hoje acordei sentindo essas mulheres dentro da mulher que habita em mim.

Vez ou outra me emociono…sempre…me emociono. São muito belos os pés dessas mensageiras. Que anunciam um pouco de paz, luz e equilíbrio em seus lares. Sempre me emociono ao pensar em tantas mulheres neste mundo agora, já, neste instante. E a diferença que elas estão fazendo não apenas numa pandemia, mas nos corações, nas almas, de tantos. Me emociono porque essas mulheres, assim como eu mulher, têm um coração espaçoso por demais. Cabe nele, o TAO infinito.

PS.: Este texto não se propõe a ser meramente excluidor do gênero masculino, até porque todos aqueles que cuidam do seu lado yin são sensíveis e cuidadosos, amorosos e cuidam.

Cuidemo-nos mutuamente todos nós!

Texto publicado originalmente aqui.


Autora: Sandra M X Tavares

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