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Certa vez, numa conversa muito franca com uma amiga, ela me fez a seguinte pergunta: quando você se descobriu como uma feminista?

Naquele momento, revi cenas da minha vida passando em minha cabeça.

De repente, eu estava de volta aos meus 5, 6 anos. A cena veio de forma muito clara. Meu pai chegando do trabalho, sentando em frente à TV, e eu indo buscar o chinelo dele para calçar em seus pés. Enquanto isso, minha mãe, que havia chegado junto com ele, preparava a refeição noturna da família, ajudava a mim e a minhas irmãs nas lições de casa, lavava a louça do café, dava banho em minha irmã mais nova e acabava cochilando no sofá antes mesmo de conseguir tomar um banho.

Jamais eu ou minhas irmãs buscamos o chinelo de minha mãe…

Um piscar de olhos e estou agora com 10 anos, parada na porta da academia onde eu fazia aulas de dança. Um tio chega para buscar a mim, minha irmã e minha prima. Elas correm para sentar no banco de trás e minha irmã diz em meu ouvido: “você senta na frente porque é a menor e ele não irá te fazer nada.” Eu sento tão grudada à porta, tão acuada, com tanto medo e vou o caminho todo lembrando de minha mãe dizendo que eu não fique tão perto da porta porque ela pode abrir e eu cair na rua.

Mesmo assim, a minha escolha é por ir grudada à porta.

Mais um piscar de olhos e estou agora dentro de um ônibus, voltando da escola, aos 14 anos. Sento ao lado de um senhor, aparentemente da idade do meu avô. Distraio-me olhando o movimento da rua e, quando me dou conta, esse mesmo senhor está praticamente nu da cintura para baixo. Talvez tenha sido um dos maiores sustos que levei na vida.

Dezesseis anos. Bloco de Carnaval. Um rapaz muito mais velho do que eu se aproxima e me beija à força. Eu tento de todas as formas fazer com que ele pare, mas ele é mais forte. Não contente, ele coloca uma das mãos por dentro da minha roupa. Eu continuo lutando, começo a chorar, mas ninguém me ajuda.

Dezenove anos. Estou grávida. É uma menina. Sou uma mãe solo. Tudo aquilo que vivi não poderia se perpetuar, eu não queria que a minha filha vivesse tudo o que vivi. Eu preciso fazer alguma coisa para que a vida dela seja diferente da minha.

De volta à conversa com a minha amiga, agora tenho a resposta.


Autora: Veruska Schmidt | Advogada e Mãe Solo.

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