COLUNA | TOD – O transtorno incompreendido que muda toda a sua visão – Lily Sagi.

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Agora que a parte mais importante já foi esclarecida no último texto – que você, mãe, não tem culpa – acho importante começar com o transtorno mais incompreendido que eu particularmente experiencio pessoalmente todos os dias da minha maternidade atípica. Estamos falando do TOD – Transtorno Opositivo Desafiador.


Você conhece alguma criança que frequentemente desobedece às autoridades, sejam elas os pais, avós, professores e outros? Conhece uma criança que, ao ouvir um NÃO imediatamente faz aquela “birra”, que xinga, que usa de palavrões, que bate, que tem um comportamento que as pessoas facilmente olham torto, desaprovam, fazem seus julgamentos? E mesmo que os pais coloquem limites e constantemente digam “não”, a criança parece que não muda? Isso pode não ser apenas uma birra. Isso pode ser o TOD agindo e você nem sabe.


Uma pessoa com TOD tem um comportamento difícil, desafiador. Não gosta de ser mandada, mas muitas vezes, quer mandar. Não gosta de cumprir ordens nem de obedecer regras. Tem uma grande dificuldade em lidar com autoridades que são frequentemente as vítimas do seu comportamento, como os pais e professores. Quanto mais próxima a autoridade, mais fácil ser a vítima.


É importante dizer que até uns 4 anos de idade a birra faz parte do comportamento infantil. Isso porque é o modo como a criança lida com suas frustrações e tentam à força conseguir o que querem. Depois disso, o comportamento tende a mudar e elas se tornam mais compreensivas, mesmo que cruzem seus braços e façam bico quando não conseguem o que querem. Não podemos julgar, afinal de contas quantas vezes não vemos adultos tendo o mesmo comportamento quando algo lhes é negado, mesmo que de uma forma mais “sutil”?


Acontece que quem tem o TOD continua com esse comportamento por muito mais tempo. São crianças maiores – tipo uns 8 anos ou mais – se jogando no chão, xingando, pendurando, batendo, berrando. Esses são comportamentos inerentes ao TOD que precisam de muito mais paciência para serem tratados e nem sempre isso acaba logo.


Obviamente, não é porque o seu filho ou alguma criança que você conheça age assim, que você vai diagnosticá-la com TOD. Este precisa da avaliação de um psiquiatra ou neurologista para fechar o laudo.

Aqui vamos falar sobre quem tem de fato o transtorno e como compreender a situação toda. Antes de enfrentar o TOD cara a cara eu já fui aquela mulher (sem filhos) que julgava as outras crianças. Que achava que os pais não davam limites e que “na minha mão não ia acontecer isso”.

O karma veio sob encomenda e cá estou falando para vocês dando risada de mim mesma e da minha falta de informação. O TOD é embaraçoso de lidar. É complicado lidar com os olhares, muitas vezes com pessoas apontando seus celulares na intenção de filmar e exibir na internet como um show de horrores ao melhor estilo Black Mirror, com pessoas até invadindo seu espaço para deixar ali seu julgamento e piorar assim a crise que poderia estar perto do fim.

O TOD parece com uma birra comum de uma criança menor, parece realmente a falta de limites e de “nãos” dos pais, parece realmente que a criança manda na mãe. Mas não é assim. Ninguém sabe o que realmente se passa ali.

Conhecido como “O reizinho da casa”, o transtorno é constantemente julgado como uma invenção para justificar a falta de educação, como uma indústria psiquiátrica tentando lucrar (lembrando que não existe remédio para o TOD, existem cuidados paliativos como: antidepressivos, ansiolíticos e terapias comportamentais), uma “desculpa” para livrar a “falta de capacidade” da mãe em controlar uma criança. Mas não é nada disso. O TOD é real e precisa de atenção.


Basicamente o transtorno onde a pessoa (criança, adolescente ou adulto); não tem o sistema inibitório funcionando na sua melhor forma – talvez em nenhuma forma dependendo o grau do mesmo. Sabe quando alguém nos desagrada e a gente sente aquela vontade enorme de dar com a mão na cara da pessoa, mas a gente não o faz porque é errado, proibido, etc? Pois é, o TOD não tem esse sistema.

Se a pessoa com o transtorno achar que deve dar com os 5 dedos na sua cara ela V-A-I te bater em um impulso imediato, mesmo que ela se arrependa em seguida. E acredite em mim: eles se arrependem de verdade.


“Ah, mas então eu tenho o TOD”, muitos dizem. Bom, se você realmente acha que o tem, procure um psiquiatra ou neurologista, faça uma pesquisa. Não é uma simples raiva que vai te diagnosticar e, quando mais velho, fica mais fácil de controlar os impulsos porque a noção de convivência social é muito maior e você consegue frear seus instintos.

Ele é mais evidente em crianças, mas não deixa de ser uma possibilidade ter em adultos, já que o assunto é mais “recente” para a grande massa do que para os médicos especializados. Quando uma criança com TOD se sente desafiada, ELA precisa desafiar. Não é uma vontade, é uma necessidade. É um impulso natural dela. É como quando você está apertada para fazer xixi e alguém tranca a porta do banheiro te impedindo de entrar. Você vai acabar fazendo na calça (ou no matinho). É algo deles e não tem como bater de frete, porque isso só piora a situação.


A criança com TOD não deixa de fazer o que você quer ou o que ela precisa. Ela só precisa ser convencida a fazer aquilo como sendo algo que não vai contra suas ideias. Um exemplo muito claro é de quando precisamos acordar 5:40 da manhã para começar a arrumação para a escola. É ruim, eu mesma luto contra o despertador e eu já estou acostumada a levar um chute e um tapa antes de conseguir fazer minha cria sair das cobertas quentinhas para a mesa do café da manhã. Mas isso eu aprendi a relevar.


Quando ela não quer acordar, eu coloco uma música para tocar. Alguma que ela goste. Começo a cantar junto como se fosse uma festa, como se aquilo fosse divertido. Coloco os brinquedos dela na mesa dizendo que eles estão todos esperando e digo que coloquei sua fruta favorita ou seu lanche preferido na mesa. Quando não dá, faço brincadeiras que a façam rir e em uns 15 minutos estamos todos tomando café.


À medida que o tempo vai passando, faço brincadeiras e piadas que distraiam aquele momento chato de colocar as roupas, canto durante a escovação. Quem me vê de manhã acha que eu tenho o melhor humor do mundo (e no fim acabei me tornando mesmo a mais bem humorada pessoa matinal que eu conheço). É sempre uma festa até o portão da escola e na volta também, por mais que eu sinta um alívio enorme quando vejo meu sofá.


Antes de entender que tinha que ser assim, eu brigava para pentear o cabelo, levantar, colocar a roupa, fazer tomar o remédio. Era uma luta que eu nem sei como aguentei por tanto tempo aquilo. Mas depois de compreender melhor, fui me adaptando e hoje consigo fazer combinados e lidar com eventuais crises em público (porque sim elas acontecem).


O mais interessante é que depois de aprender a lidar com isso eu me tornei estranhamente uma pessoa que outros gostam de manter por perto. Dizem que eu sou “compreensiva” com as pessoas. Dificilmente hoje eu bato de frente com alguém, mas consigo compreendê-las e orientar as atitudes necessárias de forma que a pessoa se sinta bem em fazer o que precisa.


Se você vir um dia uma criança tendo uma crise de birra em público, ofereça ajuda à mãe de forma que não ofenda. Segure a bolsa dela que pode estar caída, se aproxime com gentileza, pergunte se pode cantar ou conversar delicadamente com a criança. Às vezes, santo de casa não faz milagre e uma real ajuda externa é algo que cai do céu.


Se você vir e desaprova tudo o que está acontecendo, então passa batido. Sai de perto. Não queira cuidar da vida alheia que você nem conhece se for pra julgar, condenar ou piorar as coisas. Já perdi as contas de quantas vezes sentei no chão do shopping porque começou uma crise e eu tive que segurar a cabeça dela para não bater no chão (porque as crises podem ser autoagressivas) e quando estava começando a apaziguar vinha uma língua afiada e falava um “QUE FEEEEEEEEEEEEEEEEEIO” e começava tudo de novo, chegando a durar uns 40 minutos a coisa toda. Sim, QUARENTA.


Em postagens sobre o TOD não é incomum ver pessoas falando sobre dar cintadas com a fivela, sobre tirar tudo o que dá prazer para a criança, sobre trancar numa jaula, pessoas julgando e condenando os pais (psicólogos formados inclusive falando essas atrocidades) e é justamente do contrário que essas crianças precisam. Elas precisam de uma visão muito mais aberta, um carinho extremo como suas crises, um jogo de cintura impecável mesmo com a mãe exausta fazendo de tudo para que o filho não se machuque e para que ele tenha sua integridade e dignidade intactas.


Se quer ter uma ideia de como é ter o TOD, pare e pense neste momento em alguma vez que você sentiu uma raiva tão grande que chegou a passar mal, a tremer. Lembra dessa sensação? Agora imagina ter essa sensação o TEMPO TODO. Sentir isso ao menor gatilho. Sentiu? Agora imagine você assim, precisando só de um abraço, uma palavra amiga e vindo pessoas te atirarem pedras, falando que você precisa ser espancada. Sentiu isso? É assim que é uma vida com o TOD (ou mais ou menos isso, estou falando segundo meus estudos).


Crianças com TOD não precisam de julgamento, precisam de tratamento e compreensão. Pais de crianças com TOD não são negligentes, eles precisam de informação e apoio.

Eu tive a sorte de ter a informação e as pessoas que vão ler isso têm a sorte de ler também. E aqueles que não têm acesso a esse tipo de informação? Nós vamos julgar ou condenar sendo que elas precisam de ajuda?
Não é obrigação de todo mundo saber tudo, mas o conhecimento é essencial para o combate à ignorância.


Se você tem alguém assim na família ou algum aluno ou mesmo paciente, procure se informar mais. Converse com os pais – mas com cautela pois pode ser um choque. Deixe claro que seu intuito é ajudar e trazer uma possibilidade de vida melhor para aquela criança.


Para quem quiser saber mais, indico a página da NeuroSaber, do Dr Clay Brites e da Luciana Brites que foi onde eu tomei conhecimento desse universo todo novo e que passou a fazer parte da minha vida.

Até a próxima.


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