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O quarto… desde que saí do comercial de margarina, para a vida

Vão focar na família comercial de margarina. Um close bonito, mais que esperado. Famílias comercial de margarina são fáceis de entender. É o pai, a mãe, o filho, a filha. É um script pronto e básico que as pessoas acreditam para não precisar pensar muito no que é uma família. Papai e mamãe casaram na Igreja, no Civil, existem as fotos dela vestida de noiva.

Não vão mostrar a menina sem mãe nesse dia. Não vão mostrar a mãe sem filho nesse dia.

Não vão mostrar a mãe que corre com o filho sozinha em várias terapias com seu filho autista. Da mãe com filha dentro do TEA que luta pelo diagnóstico por anos, já que o TEA é diferente em meninas do que em meninos. Que corre sozinha, pois as mães de crianças com deficiência tem uma probabilidade muito maior de serem solos.

Não vão mostrar a mãe que espera a filha voltar da escola, mas não vai chegar mais por conta da violência urbana. Por que uma meia dúzia de menores regados em machismo social, pegaram essa menina, estupraram de forma coletiva e a mataram. Ou jogaram na internet as imagens e ela terminou se matando.Não vão mostrar a dor da mãe cujo filho fez essas atrocidades mesmo com a educação que ela lhe deu.

Onde estão as mães de crianças com microcefalia por conta da zika?

Não vão falar das mães homossexuais. Das famílias que só possuem mães também. E elas existem.

Não vão mostrar as mães solos brigando com a sociedade por seus filhos. Para ter um emprego para sustentá-los, já que as vagas preferem mulheres sem filhos. Tampouco tendo que explicar a anuência social dos 5.5 milhões de pais que simplesmente não quiseram se dar ao trabalho de registrar seus filhos.

 
Retirado do facebook de Vic Tavares

Não vão falar da mãe que aprende libras para falar com seus filhos. Afinal, crianças com deficiência auditiva de nascença não existem. Nem crianças com deficiência visual.

Mães de crianças com deficiência não fazem parte do comercial de margarina.

E o outro lado da moeda também existe: mães com deficiência não existem. A mãe de Graham Bell era deficiente auditiva. Jamais poderia usar a invenção do filho. Não existem mães com autismo. Afinal, diagnóstico em meninas é dificil, em mulheres adultas mais ainda. Quando elas conseguem o diagnóstico, a sociedade lhes ignora. Precisam exercer o papel de mãe cuidadora romantizado socialmente. Um papel que nem as mães sem deficiência conseguem exercer direito. Por que ele é imaginado e impossível.

Essas pessoas todas não cabem no comercial

E complicam a trama por demais para o telespectador leigo.

Então tornam essas pessoas invisíveis.

Se não vejo, não existe. Se não existe, não preciso me preocupar.

É a edição de fatos da vida. Tu elimina o que complica a trama, o entendimento para poder atender a um público geral e sem face. Faz desaparecer com toda a pluralidade da existência humana em prol do fácil entendimento e de uma ideia de narrativa linear da vida.

Que não existe.

Passam uma tinta que some com suas feições. E então as pessoas realmente acreditam que existe somente a família comercial de margarina. E criam desculpas estapafúrdias para a existência de famílias diferentes. A mais comum sendo punição divina. Ou a necessidade de crescimento espiritual. Ou algo assim.

Ignoram que quando o DNA de duas pessoas se junta existe uma rolada de dados genéticos que funciona da mesma forma que uma parada de dados. Nunca se sabe o resultado que vai sair. Foi apenas o acaso. E se a parada não for favorável, o pai das crianças some e a mãe tem que arcar com isso sozinha.

Então por favor, não fale da vontade de Deus na frente dessas mães. Isso é egoísta. É maldoso. E realmente não ajuda em nada.

O que ajuda na verdade é:

Brigue para que na escola de suas crianças não tenha dia das mães em foco. Existem crianças sem mães. Dia das mães quem tem mãe que comemore no domingo com a sua. E quem for mãe que comemore com seus filhos vivos e perto. Não importa quem eles sejam, como eles são.

Visite ou doe para AMAR , APAE ou Casa do Menor de sua cidade. As vezes o nosso pouco ajuda muito.

Tente se lembrar sempre: cada um é um. A existência é plural. Nem todo mundo é como você e ajuda muito mais ouvir do que julgar.

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