Pausa: Tão profunda que parece ausente

juliana

Eu sonhei em ser mãe. Sonhei muito, acordada e dormindo. Desde pequena. Eu dizia que ia engravidar na lua de mel. As pessoas em volta diziam: “Que isso? Casal precisa aproveitar a vida antes de ter filhos!”. Casei e percebemos que era melhor esperar um pouco. Depois, passei quase dois anos tentando, até receber aquele positivo.

Nesse processo como tentante, as pessoas em volta, sem saber dos meus planos, cobravam pela gravidez: “Cadê? Não tem novidade?”; “Tá esperando o quê pra engravidar?”; “Depois dos 35, não dá mais!”. Eu, com 33, tentando, sonhando e engolindo em seco ou rindo, sem achar a menor graça dos comentários. Ninguém perguntava como eu estava, o que eu queria, o que estava acontecendo.

Aquele resultado positivo (aos 35 anos) era a realização de um sonho e a chave para a mudança mais profunda da minha vida. Tive uma gravidez maravilhosa e um parto humanizado, planejado, natural, lindo, incrível, dos sonhos. Meu amor chegou trazendo muito mais doçura para a nossa casa. E aí vêm o dia 1, o dia 2, o 30, o puerpério e as mudanças que ninguém contou.

Três anos se passaram, e meu segundo filho nasceu. Na pandemia, durante o doutorado. Mais uma vez, em um parto natural, lindo, maravilhoso e mais rápido do que o primeiro. Chegou chegando, enchendo a nossa casa de alegria e de adrenalina.

Mais três anos, e meu terceirinho veio ao mundo. Também de parto natural, humanizado e planejado. E, desta vez, um parto a jato. Este chegou quando eu estava em outra virada de chave, prestes a defender o doutorado e, quem sabe, conseguir ser professora, me realizar profissionalmente depois de alguns anos fora do mercado de trabalho, me dedicando à vida acadêmica e à maternidade. Mas ele chegou me virando do avesso e mostrando que as mudanças mais profundas vêm mesmo da maternidade.

Algumas mudanças ficam ali na superfície, mas na maternidade, elas têm outro sabor, outra textura, outra dimensão. São difíceis de descrever. São difíceis até mesmo de sentir… porque muitas vezes são dolorosas. Cansativas. Tiram a gente do eixo, falta o ar e a memória, o coração erra as batidas. De amor profundo e de cansaço também profundo. De solidão.

A maternidade é um presente que me convoca a estar mais no presente. Ao mesmo tempo, é ausência. A ausência da mulher. A minha ausência nos lugares. A minha ausência em mim mesma. Uma falta que me faz. Faltam os desejos, os sonhos, as coisas favoritas no mundo. Não os desejos e sonhos relacionados à família, aos filhos — a eles, tudo é pensado o tempo todo. Mas, para mim, para a mulher que “ainda está aqui”, para a “pele que habito”, falta pausa. Falta tempo para sentir, respirar e, então, entender o que preciso, o que quero, o que penso. Mas ainda existo.

Meu sonho se realizou e é muito mais do que eu poderia imaginar.  Eu posso escrever um livro inteiro sobre as maravilhas e delícias de ser mãe. Mas eu queria falar sobre as mudanças. Elas são tão profundas, mas tão profundas! Não são só as prioridades que mudam. Não é só o sono. Não são as despesas.

Existe uma profundidade difícil de alcançar, de medir. Só que vem vive sabe. Está na pele, no coração, na mente que não descansa. Está em cada detalhe da rotina, em cada piscar de olhos, na escolha da comida, na recusa de um passeio. No conversar com o marido por WhatsApp para não ser interrompida. No atraso das demandas profissionais. Aliás, na profissão.

Nas muitas pausas (como mulher) em uma vida sem pausa. Acho que é isso: uma das mudanças mais profundas é não ter mais pausa. É olhar para o mar e não sentir só paz. É não conseguir ficar só boiando em um mar calmo. É ter uma mente insistente, que procura ser abrigo o tempo todo, que procura proteger, dar colo, resolver. Que quer se antecipar a qualquer onda forte.

E a onda não pausa. O olhar não pausa. O “mãe, brinca comigo!”, “mãe, olha o que eu fiz!” só pausa ao dormir. Na cama compartilhada, de conchinha, ao som de uma historinha.

E a mulher, essa que se transforma todos os dias, ainda não consegue uma pausa para pensar na própria vida, para se enxergar, se olhar no espelho e se reconhecer. Eu sempre estive aqui, mas… quem eu sou agora? Quem eu vou ser quando tiver uma pausa?

Não sei, mas insisto em querer saber. Tenho a intuição de que, quando me (re)encontrar, “haverá sinais” — e eu vou gostar. Vou me enfeitar, sorrir, dançar e me espalhar.


Por Juliana Linhares – @julianalinhares.maedetres

Revisão: Bibianne Terra

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