Nos últimos cinco anos, Joana morava na casa dos seus sonhos. A construção ficava nos fundos do lote e não era grande como as de sua vizinhança. Mas o quintal voltado para a frente da casa era enorme. Tinha algumas árvores frutíferas, uma nativa, algumas plantas ornamentais e um gramado extenso. Os pássaros gostavam de visitar o lugar. Passavam o dia em meio ao verde, buscando sombra, alimento e interagindo entre si. Era uma área externa inspiradora e contemplativa para ela.
A fachada da frente da casa era cercada por muros de vidro e por um portão branco. Quando se mudou para lá, essa parte de vidro tinha algumas faixas pintadas de branco, que acompanhavam visualmente o padrão de faixas horizontais do portão. Esse aspecto do vidro não lhe agradava muito. Meses depois, quando descobriu como tirar a pintura, logo resolveu essa questão. Os muros de vidro, então, passaram a ter o aspecto usual de um vidro transparente.
Logo após essa mudança nos vidros, percebeu que alguns pássaros tinham morrido por ali. Foi aí que entendeu por que os vidros eram pintados com faixas brancas. Os pássaros que visitavam o lugar não conseguiam perceber o vidro durante seus voos e batiam direto nele. Uma batida fatal.
Enquanto os dias se passavam e ela tentava pensar em uma solução para aquilo, foi percebendo que, com o tempo, os pássaros passaram a reconhecer o vidro e não batiam mais direto nele. As mortes cessaram. E assim se seguiu por anos.
À medida que o tempo passava e ela se sentia mais em casa, mais parte daquele lugar, foi buscando, em sua rotina, espaços de silêncio e intimidade com ele. Aproveitava os passeios do marido com os filhos para ficar sozinha ali. A tranquilidade e a segurança daquele ambiente a convidavam a descansar e organizar seus pensamentos e sentimentos.
Passava por uma fase desafiadora na vida — de autodescoberta, de autorresgate e de ajuste de rotas. A terapia lhe conduzia nessa trajetória.
Existia um incômodo subjetivo e, por vezes, sutil, que lhe acompanhava desde o fim da adolescência: o de não se sentir pertencente ou parte daquilo que produzia. Com a terapia, foi descobrindo que seu padrão de escolhas, que orientou sua trajetória profissional, envolvia a afinidade pelas áreas de atuação dos pais e o quanto seria útil e contribuiria nos diversos contextos que se apresentavam.
Essa orientação de suas escolhas trouxe certo sentido ao trabalho, mas não trouxe a sensação de pertencimento.
À medida que dava mais espaço para si, tudo ia ficando mais claro e maior era a vontade de explorar novos caminhos. Conhecer-se melhor. No seu tempo, foi para o mundo experienciar, para poder sentir. Sabia que o pertencimento viria acompanhado de um sentimento e de uma sensação que já tinha observado em outras pessoas. E só vivendo e trilhando novos caminhos conseguiria se aproximar dessa sensação.
No último verão, no amanhecer de um daqueles dias em que ficava sozinha em casa, foi acordada com o barulho de um pombo que, durante o voo, atingiu alguma parte do telhado de sua casa e caiu sobre o teto da garagem, já agonizando. Minutos depois, ele morreu.
Ficou bastante assustada e sem entender como aquilo teria acontecido. Naquela mesma semana, outro pássaro tinha morrido ao atingir o muro de vidro e ela já estava meio intrigada, sem entender por que aquilo teria voltado a acontecer. Na semana seguinte, o fato se repetiu e mais um pássaro foi enterrado no jardim.
Ao mesmo tempo em que revivia a tensão das mortes dos pássaros, sentia uma energia diferente no ar. Era como se aquilo tudo fosse um sinal de que algo estava para acontecer.
Foi à internet pesquisar qual significado tradicionalmente se atribuía à morte de pássaros. Ficou impactada ao descobrir que ela se relacionava a transformações ou encerramento de ciclos. O significado em si fazia muito sentido. Poderia ser até intuitivo de se descobrir, considerando o simbolismo das palavras “morte” e “pássaro”. Mas o impacto veio pela coerência entre o momento em que os fatos ocorreram e as sensações que se apresentavam.
Sua razão, em outros tempos, a levaria a questionar esta sensação. Mas, dessa vez, ela não se manifestou. Algo dentro de si trazia a sensação real de que uma transformação estava próxima. E os fatos, ainda que fossem apenas fatos, ajudaram a materializar essa sensação.
Para ela, foi como uma confirmação de que o caminho estava certo e de que, apesar de a vida, naquele momento, não dar spoilers do que aconteceria, valeria muito a pena seguir em frente e descobrir.
Os episódios de morte dos pássaros cessaram novamente. E Joana seguiu experimentando e sentindo. Descobrindo mais sobre suas afinidades e seus limites. Aprendendo a lidar com as sensações e entendendo a potência que existia também nas sensações ruins. Foi perdendo o medo de sentir.
Começou a registrar seus pensamentos por meio da escrita livre, na tentativa de que o hábito lhe trouxesse o esvaziamento mental e mais bem-estar. Mas ele trouxe muito mais.
Aos poucos, foi percebendo seu lugar de pertencimento. Com a escrita, vieram o autoral, o autêntico, a identificação que faltava. Compartilhou seus registros e viu que os impactos iam além da sua vivência. Sentiu seu coração transbordar. Encontrou um novo ofício.
Escrito por: Hérika Nunes e Sousa – Instagram: @enquantomamam
Revisão: Bibianne Terra





