É como se todo dia fosse uma despedida. Observo ele entrar e sair de casa, sua interação com as pessoas, como elas o recebem, como falam com ele. Estou atenta aos detalhes. Deleito os sons que saem da sua boca em câmera lenta, seu afeto. Analiso a maneira como se move, como fala. Tudo me encanta. Até fecho os olhos. Dou atenção às suas preocupações e procuro acalmá-lo. Quero que ele se sinta confortado seja do que for. Quero que a minha presença e ouvidos sejam bálsamo nos dias turbulentos e alegria nos dias de sol. Isso me traz paz.
O vejo no trabalho, no dia a dia, com os amigos. Vindo me visitar e contando suas realizações e frustrações. O vejo com sua família e fico feliz em vê-lo assim. Vejo-o no Natal, a casa já cheia o esperando chegar com os seus. A mesa posta. O aniversário dele se aproxima e a turbulência cotidiana cega dos detalhes perdidos. O tempo passa e os segundos no ar cansam, caem, desaparecem. Tento apreciar mais e mais, agora com os olhos abertos, a presença dele, mas não consigo. O incômodo me transporta para tempos em que ele não estava. Não estará. O tempo está fora de qualquer controle. Que pena. Esse olhar saudoso dói. É normal? Estar feliz e doer? Há peso nesses sentimentos? Ele sabe? Sente? Um coração cicatrizado e feliz em demasia pode se encher de culpa. Prefiro apenas desconfiar.
Um dia qualquer como hoje não é um dia qualquer. É um dia comum em que o olhar dele procura respostas. Retribuo o olhar sem elas, não as tenho e só quero estar. As novidades não deveriam sucumbir ao cansaço, às preocupações. Graças a essas saudades tenho superado limites. Mas não basta. Estou atrás no tempo, atendendo demandas que me tiraram do eixo e me deixam perdida. Tem sido necessário encontrar outra eu. Talvez ele não se dê conta, mas isso, em parte, também acontece com ele. Ser outro a cada nova habilidade.
Ainda com os olhos abertos, contemplo ele se espreguiçando e sinto medo de esquecer a imagem, o cheiro, o jeito como ele está vinculado a mim agora. Sim, ele está seguro. Acordá-lo é fofo, desafiador e estranho. Ser acordada é desafiador, estranho e fofo. É desafiador dar tudo de mim a outrem. É estranho lembrar de forma tão forte daquela mulher tão cheia de si e triste dos últimos anos. É fofo ver o seu rosto e expressões a me encarar. Ele, o próprio Tempo.
Por isso o tempo assusta. Diversas vezes duvidei de que esses dias rotineiros chegariam e olhava pela janela da sala sem esperança. Mirava o céu na esperança de vê-los. Chorei diversas vezes de forma profunda a pensar nos tristemente amados. Foi ontem. E hoje, no caótico da presença do que chegou, sinto falta com antecedência. Como é possível sentir falta do que se vê? Suspeito do presente, na verdade. E repito para mim mesma: aconteceu. Pode ser uma memória ou uma antecedência. Ele é os três e me olha como se compreendesse. Olho o bebê, vejo o sonho e o homem.
Autora: Alexandra Santos – @prof.alexandraf
Revisora: Samantha Viriato





