No primeiro dia, eu me saí bem. Ou pelo menos foi o que pensei ao sair para caminhar, empurrando o carrinho devagar para tentar fazê-lo dormir. Lembro que respirava o ar da rua e observava os carros passando por mim como quem tenta, com algum cuidado e uma certa delicadeza improvisada, se reencontrar dentro de si mesma. As pessoas que vinham no sentido oposto estavam apressadas e seguiam destinos diferentes do meu. Era uma cidade pequena, dessas em que o anonimato quase não existe e as conversas atravessam esquinas com naturalidade. Voltei para casa tentando manter uma sensação de normalidade que já não cabia mais ali, como uma roupa antiga que a gente insiste em vestir mesmo sabendo que ela já não acompanha o corpo que agora a habita. Eu repetia esse ritual de levar ele para passear no carrinho todas as manhãs, depois do café, desde que ele tinha dois meses de vida. Já se passaram cinco meses desde o começo e tudo era igual todos os dias.
Até aquela manhã. Era pouco antes das sete quando Xande saiu do banho e caminhou pelo corredor com a naturalidade de quem ainda pertence ao mundo de fora, estendendo a toalha na varanda, pegando a roupa no escritório e carregando consigo o cheiro do sabonete. No rosto haviam marcas de cansaço, mas ele ainda era organizado, a barba estava feita, a roupa estava alinhada e os sapatos estavam limpos. Ele se aproximou, disse que me amava e me deu um beijo rápido, daqueles que cabem na rotina. E eu fiquei. Fiquei de pijama, com as olheiras marcadas por uma madrugada de um sono interrompido muitas vezes, com o cheiro azedo do leite seco na pele que eu já nem percebia mais. Estava segurando uma vassoura enquanto varria os pelos da Lulu misturados com farelos de pão, repetindo um movimento quase automático que parecia embalar um cansaço sem início nem fim. O Beni dormia no berço depois de uma noite difícil, e a louça do café se acumulava sobre a do jantar, como se o tempo tivesse desistido de seguir qualquer ordem compreensível.
Quando ele saiu e a porta se fechou, houve um silêncio gritante em mim. E foi nele que eu senti o meu corpo ceder devagar. Me encostei na parede e escorreguei até o chão, como se não houvesse mais nada em mim capaz de sustentar o resto daquele dia que ainda nem tinha começado. Foi nesse instante, simples e devastador, que eu não me reconheci. E chorei. Não era apenas o cansaço, nem a bagunça, nem a rotina desorganizada. Era algo mais fundo, um estranhamento de mim mesma. Eu já não conseguia acessar a mulher que eu tinha sido até tão pouco tempo antes. Aquela que se arrumava sem pressa, que transformava o banho em ritual, que escolhia a roupa no dia anterior como uma espécie de autocuidado silencioso e passava perfume como quem afirma, ainda que discretamente, a própria presença no mundo.
Eu ainda estava ali, sentada no chão da sala. Mas ela, não. O que mais doeu não foi perceber que eu tinha mudado, mas entender que essa transformação acontecia sem anúncio, sem nome, sem espaço para ser dita em voz alta. “Não era isso que eu imaginava”, pensei, e imediatamente senti vergonha por ter pensado, como se até mesmo essa honestidade me fosse proibida. O resmungo do Beni me trouxe de volta. Levantei, larguei a vassoura, fui buscá-lo, troquei a fralda, dei o peito e permaneci ali, olhando demoradamente para ele, para os cílios longos, para a pele clara, para a mão minúscula segurando meu dedo com uma confiança absoluta que não me perguntava nada, mas, ainda assim, parecia responder tudo aquilo que eu não conseguia formular.
Tirei o pijama, vesti qualquer roupa e saí para caminhar como vinha fazendo nos outros dias dos últimos meses. Mas, naquela manhã, a rua não era apenas um lugar de passagem ou de tentativa de reencontro. Ela se tornou um caminho. Era como se eu caminhasse ao lado de uma versão minha que ainda queria existir, mas que já não conseguia me acompanhar no ritmo da vida nova. E foi nesse deslocamento silencioso, entre o cansaço e a repetição das coisas simples, que comecei a compreender, ainda sem muita clareza, que talvez não se tratasse de voltar a ser quem eu era, porque esse retorno já não era possível. Talvez fosse o início de uma despedida lenta da mulher que eu deixei na porta naquela manhã. Para que outra pudesse entrar. Ainda sem nome, ainda sem contorno definido, ainda em formação. Mas viva. E, pela primeira vez, isso não me pareceu perda. Pareceu caminho.
Autora: Alessandra Toniazzo – @aletoniazzo
Revisora: Samantha Viriato





