A porta de vidro da recepção mostrava duas figuras sentadas na calçada do estacionamento: eram mãe e filho. Esperar o carro de aplicativo dessa maneira era uma boa estratégia, pois Matheus ficava muito impaciente e imprevisível de pé e a rua movimentada era um risco certo.
Quando o carro parou, ela levantou daquele jeito afobado de sempre e começou seu ritual.
— Vamos, Matheus, o moço está esperando!
Quem passava pela rua podia ver uma mulher magra e miúda puxando um rapagão robusto, de ombros curvados e olhos fixos no celular. Depois de muita peleja, ela conseguia enfiá-lo no carro.
Nunca entendi o lance da toalha nas mãos. Até que, um dia, a ouvi contando para outra mãe que sempre forrava o banco de trás: era certo que o menino iria dobrar as pernas sobre o assento, e, mesmo que ela tirasse as sandálias dele e os pés estivessem limpos, os motoristas reclamavam e até baixavam sua avaliação no aplicativo. O mundo não quer os Matheus; eles são um problema das mães miúdas e afogadas que sempre dão um jeitinho para tudo, e não dos motoristas cansados que querem seus carros limpos para trabalhar. Matheus carregava seus três diagnósticos: Síndrome de Down, Microcefalia e Transtorno do Espectro Autista. Era como uma peça grande demais para o quebra-cabeça, mas Antônia o queria mil vezes mil. Seja em todas as cirurgias cardíacas ou em todas as crises, ela o quis e continuou querendo. Foi assim que lixou ângulos específicos e aparou arestas em si e na vida, para que o filho pudesse ouvir nela aquele clique de encaixe perfeito.
Ela chamava-o de “amor da minha vida” pelos corredores da clínica. Entre uma sessão e outra, lá estava ela preparando um lanche ou levando-o ao banheiro. A vi diversas vezes contando orgulhosa como, mesmo depois de dez anos, conseguiu desfraldá-lo em um ciclo sem fim de idas e vindas ao sanitário. Eu os observava como quem admira uma pintura renascentista; nessas horas, me ressentia por não ter o dom de imortalizá-los em uma tela: “A teimosia do querer”. Aquarela em papel.
Eu também já ouvi muitas e muitas vezes os adjetivos: guerreira, mãezona e excelente mãe. Todas nós já ganhamos um desses — ou até todos eles — em algum momento. Há quem goste, há quem seja indiferente e há quem se resinta por ser vista apenas dentro desse pequeno pote.
Antônia me revelou, certa vez, um sentimento:
— Posso até ser guerreira, mas não por opção.
Não pude deixar de concordar.
A roleta da minha filha girou apenas uma vez: paralisia cerebral tetraplégica. Os motoristas de aplicativo não queriam perder tempo comigo montando e desmontando sua cadeira de rodas. Minha nota também não era muito alta. Foi conversando com a Antônia que me toquei do porquê: os poucos motoristas que não cancelavam a corrida tiravam uma ou duas estrelas da avaliação, como um lembrete para o próximo motorista. Eu não precisava muito dos aplicativos, pois tinha um carro — que, apesar de velho, não me avaliava.
Certa vez, presa em meu próprio ritual de desmontar e guardar a cadeira de rodas no porta-malas, deparei-me com Antônia me observando do seu costumeiro ponto de espera no chão. Não com olhar de pena, mas de reconhecimento. Em meio a um suspiro, soltou:
— Não é fácil, né, mulher?
Eu apenas concordei com a cabeça. Em pensamento, concluí que era exatamente o que eu pensava sempre que os via sentados ali. E assim, seguimos teimando juntas.
Escrito por: Idelma Amaral – Instagram: @Idelmaamaral
Revisão: Maria Tereza Maia de Assis


