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Eu não estava preparada para ficar invisível a partir do momento que Miguel nasceu, nenhuma mulher está. Mas isso acontece. Deixamos de ser a pessoa para ser a mãe em todos os aspectos e lugares por onde transitamos.

Não temos mais nome, direitos, nem vontades. Isso é tão forte e tão tabu que a gente passa tempos romantizando e achando que está certo e tem que ser assim, e sim, é nossa obrigação nos anularmos em prol da criação do nosso filho.

Quando vê, a nossa vida passou. Muitas adoecem de frustração, solidão e o que nos resta é apenas culpa. Uma das coisas que mais me incomodou na maternidade é que aos olhos do mundo a Elisa mulher deixou de existir. E por muito tempo eu acreditei e defendi isso com veemência. De que uma vez mãe, eu seria apenas mãe e nada mais. E isso, não só não é real como é motivo de muita ansiedade nas nossas vidas.

Todas, praticamente todas as mães que eu converso tem relatos parecidos com os meus. Eu era uma pessoa de festa, adorava me arrumar, ir para a noitada. Sair para dançar e beber para mim eram sinônimos de vida, de liberdade. Eu nunca fui uma pessoa vaidosa, mas gostava de me enfeitar e cuidar de mim.

Quando Miguel chegou, naturalmente eu deixei isso de lado, consciente que agora eu estava fazendo a coisa certa em me dedicar exclusivamente a ele. Isso foi planejado por mim. Mas na minha cabeça, passado os primeiros meses que eu achava que seriam os únicos mais trabalhosos, eu encontraria o equilíbrio entre ser mãe e ser a Elisa que eu sempre fui.

O que eu não sabia e se tivessem me contado eu provavelmente não acreditaria naquela época, é que isso não iria mais acontecer. Eu nunca mais fui a mesma. Claro. Porque antes eu era uma unidade. E hoje, mesmo Miguel já com 12 anos, eu ainda sou o nós. Na maioria das vezes eu sou só “o ele”. A mãe.

Hoje eu sou ainda a mãe do Miguel. Em tudo. Até mesmo naquilo que se diz respeito somente a Elisa pessoa, indivíduo, única. Uma mudança que teve muita representatividade para mim foi a forma como eu me vestia. Não que isso tenha uma regra pré-definida aqui, porque penso que a nossa roupa não pode ser motivo de definição de quem somos, mas apenas uma parte de nossa personalidade.

E como tal, sofre mutações no decorrer da vida e de nossas vivências. Na época, me vestia como uma adolescente sempre disposta a ir para a balada. Minhas blusas tinham muitos decotes e as calças eram sempre muito justas. Então, se não queria ficar pelada toda vez que eu saia com Miguel e ele enfiava a mão no mamá com facilidade e arreganhava os decotes, fui aos poucos trocando o figurino.

Sobre as calças, não preciso nem falar da mudança no quadril e o ganho de peso, né? Nada mais entrava, tudo ficava mais difícil ao abaixar para pegar todas as coisas que um bebê joga mil vezes ao chão. E, de repente, me vi em vestidos, coisa que eu não usava, batas e leggings.

O cabelo encurtou de vez, a maquiagem venceu, os saltos foram para o fundo do armário ou doados. Os brincos antes pendurados viraram bolinhas na orelha. De repente as bolsas coloridas e cheias de detalhes viraram mochilas, ou grandes bolsas a tiracolo. Até o ritual de hidratante depois do banho que eu tinha desde a adolescência, se perdeu em meio à correria de cuidar de um bebê.

Nas raras vezes que eu ainda saia com o pai e isso foi ficando cada dia mais distante, eu já não me sentia a vontade naquele corpo, naquelas roupas. Passava a noite achando que falava algo ou que não me cabia mais ali. Foi assim na minha diversão. Foi assim no trabalho. Foi assim nas amizades. Foi assim até na família. Eu já não cabia mais no espaço que eu ocupava antes. Porque eu já não era eu. Porque eu já havia ultrapassado a linha que divide a nossa vida entre antes e depois de ser mãe. Para sempre. Em definitivo. E eu não sabia que isso aconteceria comigo.

É tão natural para todos que você simplesmente deixa de existir como a fulana e passa a ser a mãe de fulano, que a gente aceita isso como normal. Mas aí que está o problema. Todo o mundo te vê dessa forma, te trata dessa forma. Mas a sociedade não está preparada para aceitar que como parte dessa mudança, sua atuação nos meios onde você transita, também se modifique e se adapte para tal. Não entendeu? Vou dar dois exemplos práticos que aconteceram comigo.

Eu tinha muitas amigas solteiras e sem filhos. Todas curtiram muito a minha gravidez, a chegada do Miguel. Mas então eu não podia mais estar disponível para os mesmos programas de antes. Então elas foram se afastando, até simplesmente sumir. Outro exemplo, o trabalho. Eu já não era a mesma de antes, o rendimento caiu devido às questões físicas e emocionais que envolvem todo esse momento, esse período de adaptação.

A sobrecarga da mulher que precisa se ausentar de suas funções e depois voltar, completamente exausta fisicamente da licença maternidade curta, ainda tem as questões emocionais do distanciamento do bebê e voltar ao rendimento de antes como se nada houvesse acontecido? É de um stress tóxico tão grande que por vezes muitas adoecem. Porque se dividem por dentro sem ao menos poder demonstrar. Comigo foi assim.

Eu não só fiquei deprimida como fiquei extremamente agressiva e mal-humorada, completamente desmotivada com tudo. Resultado? Fui demitida. Fiquei feliz? Aliviada, por poder me dedicar exclusivamente ao meu bebê. Mas era o que eu desejava? Não. Até hoje não consegui absorver e relativizar a decepção da rejeição e da desistência dos sonhos profissionais, fora a parte financeira que foi um caos.

Como consolo, eu ouvia: 

“Agora é o momento de você se dedicar ao seu filho.”

“Agora não é mais sobre você, é a vida dele.”

“Agora é primeiro ele, depois você.”

E eu aceitava isso, concordava com isso. Mas por dentro eu sufocava sem perceber uma enorme frustração que virou uma tremenda ansiedade e uma cobrança enorme de ser uma mãe perfeita em tudo, já que agora era só isso que eu podia ser. E quando a gente vê, a gente está se afogando nisso e levando nossa cria junto.

Eu só me dei conta disso quando alguns anos atrás o meu corpo deu seus sinais. E uma mulher que antes quase nunca adoecia se viu cheia de patologias somatizadas que gritavam de dor. Uma dor que refletia física mas vinha de outro lugar.

Então, eu olhei para mim e já não sabia mais quem eu era. Ali só existia a mãe do Miguel e nada mais. Um dia, mexendo em uns arquivos velhos no computador, eu achei um monte de músicas da minha adolescência. Me dei conta do quanto eu adorava ouvir música e dançar. Que vivia com o rádio ligado antes e que já fazia alguns anos que eu não fazia mais isso. Mas sabia de cor todas as músicas de todos os DVDs da Xuxa, Galinha Pintadinha, Patati Patatá, Backyardigans e Cocoricó.

Eu já não assistia mais filmes que gostava, já não gostava de mais nada, não conhecia cantores e séries, atores novos. Era como se a vida tivesse parado no tempo para mim e eu continuasse vivendo apenas em paralelo a vida do Miguel.

Eu dissertava muito bem e com total conhecimento de causa sobre Star Wars, Vingadores, jogos de videogame, jogadores de futebol e todos os personagens do Cartoon e Discovery Kids, mas não sabia que música estava tocando na rádio e se ouvisse não saberia quem era o cantor. Eu não sabia que novela estava passando. Eu não sabia mais que tipo de roupa estava na moda, além de jeans, camiseta e tênis.

Eu falava com conhecimento de causa sobre alimentação infantil, comportamento e educação, mas não sabia quem era o novo galã do momento, que livros estavam sendo vendidos nos dez mais e eu sempre amei ler. Eu não acompanhava mais política que eu adoro e não mais sabia falar sobre outra coisa que sobre o Mundo Maravilhoso de Miguel. E aos poucos as pessoas passaram a não me enxergar mais também. Afinal, eu não mais existia.

Eu era só a mãe do Miguel durante todo o tempo. No dia em que me dei conta disso, eu quis sumir. E fugir. Sem olhar pra trás. E chorei escondida dias seguidos, por me dar conta do quanto me anulei. Mas, ainda assim, existia um enorme sentimento de culpa por sentir isso. Por sentir que eu ainda era alguém, além de mãe, como se isso fosse errado. Como se valorizar a mim era desvalorizar Miguel. E não é!

E foi preciso muito choro para que eu pudesse então me recompor e entender que eu precisava me reencontrar e compreender, que eu podia sim ser a mãe maravilhosa que o Miguel merece, e também a Elisa que eu sou e que mereço. Ou que me tornei. Eu só precisava me (re)encontrar.


Autora: Sou Elisa Fleming , tenho 47 anos, sou mãe do Miguel, escritora e estudante de Ciências Humanas. Escrevo desde os 9 anos, mas só agora criei coragem de realizar o sonho de menina de me lançar profissionalmente. Acabei de publicar um livro em uma editora de auto publicação por demanda, veio na necessidade de falar sobre minha experiência e as descobertas com a maternidade real, de uma forma como não é mostrada na sociedade, chama-se “Coisas que Não me Contaram antes de Ser Mãe”. Espero que curtam minha escrita.

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