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Tenho uma filha de 5 anos. A maternidade mudou a minha vida e a forma de viver. Foram mudanças significativas, foram boas mudanças, as quais tiveram alegrias, incertezas, dores, desafios, decepções e um novo olhar sobre muita coisa que antes eu nem poderia pensar.

A parte mais difícil desse processo até agora se deu quando eu achava que por ser mãe precisava dar conta de tudo, o que levou a me esquecer de mim. Felizmente muitas mulheres me ajudaram a rever esse mito de que mães são guerreiras e perfeitas. Somos gente. Pessoas não são perfeitas, por que as mães seriam? Isso não nos isenta, aliás não isenta ninguém, de querer e poder ser melhor dentro de nossas possibilidades.

Infelizmente há pessoas que insistem em defender que devemos “dar conta e, de preferência, caladas”. E, sinceramente, sinto uma falta de acolhimentos entre as próprias mulheres a respeito da maternidade desde a espera de um bebê pela gestação ou adoção.

Eu não posso esquecer de dizer que para parir e amamentar tive ajuda de outras mulheres, além de profissionais da saúde que me incentivaram. Todavia, estes foram sugeridos por aquelas. 

Nosso pediatra foi um acaso, as sugestões não tinham seu nome, mas ele estava disponível e isso foi um presente. Sua conversa, acolhimento, cuidado e, sobretudo, apoio na amamentação em livre demanda e orientação para o desmame foram essenciais. E algo que ele nos ofereceu: uma ideia de parentalidade. As consultas não eram apenas observar e anotar sobre nossa filha, eram também para acolher nossas dúvidas e apresentar opções.

Na introdução alimentar fomos orientados por uma nutricionista que nos deixou muito seguros, mas nossas escolhas foram também questionadas por outras mulheres não profissionais. O fato de não usarmos andador também foi questionado. Enfim, começamos a pensar sobre o que realmente importava: a saúde de nossa filha ou a opinião de outros?

Nos fortalecemos com informações sobre saúde, psicologia, infância, dentição e tantos outros. Conversávamos com mães e pais que nos acolhiam e passamos a fazer esse movimento com novos pais e mães. 

Percebíamos que o desenvolvimento de nossa filha estava nos incentivando a buscar cada vez mais informações em fontes confiáveis – artigos, profissionais competentes, não podíamos pagar por serviços particulares, então fazíamos pesquisas sobre temas que surgiam, por exemplo, sobre fala, uso de telas, e assim íamos conversando e avaliando o que acontecia em nossa rotina.

Fizemos opções difíceis como a de que eu voltaria ao trabalho e meu marido ficaria um tempo em casa com nossa filha. Opção que nos fez rever prioridades, mas que possibilitou a ele a percepção de que o trabalho doméstico e de cuidado de uma criança exige muito do cuidador; possibilitou a mim, pensar sobre o outro, ouvir mais seus sentimentos. E temos construído algumas considerações desde então, as quais são sempre atualizadas, pois não sabemos tudo e cada dia é um aprendizado.

Consegui acompanhamento psicológico na universidade onde estudo, o que ajudou demais a me conhecer, a me reconhecer, a ser uma mãe que busca observar a filha, uma companheira que senta e conversa com o companheiro, inclusive sobre a carga mental de ser mãe e ele fala sobre suas percepções e sentimentos de ser pai, também começamos a ler sobre assuntos que favorecem essas conversas.

Penso que a maternidade passa a ser menos exaustiva quando começamos a trabalhar em família numa perspectiva em que maternidade e paternidade sejam conversadas entre seus sujeitos em um lar, observando as emoções, as ações e as demandas de si e do outro, possibilitando que o bebê ou a criança possa crescer sem que a mulher se esgote tentando suprir as necessidades dessa criança e todas as funções domésticas porque acredita que isso seja função da mãe. 

Ter conhecimento sobre parentalidade positiva ajuda bastante. Falar sobre maternidade é necessário, mas o diálogo precisa ser amplo. Quando falamos umas para as outras temos um certo alívio, nos sentimos acolhidas, é realmente bom, porém quando voltamos a rotina temos novamente a sobrecarga e a exaustão. Daí a necessidade de falarmos sobre isso para nossos pares. Debatermos com a sociedade sobre, furarmos a bolha.

E o começo pode ser este: buscar informações. Há profissionais com bons conteúdos nas redes sociais. É possível substituir perfis que só mostram o quanto precisamos ser “perfeitas” – quando ninguém o é – ou ainda o quanto temos que mudar nossos corpos e rostos para atender a um padrão (por que será?) por perfis de psicólogas, nutricionistas, educadoras e outros profissionais que podem oferecer informações e reflexões para nossa maternidade. 

Ser mãe me ensinou algo primordial: se eu não estiver bem, como posso aproveitar essa escolha e cuidar da minha filha?  A maternidade é um complexo, aprendendo e compartilhando podemos ser acolhidas e aprender a acolher, assim nossa criança terá um bom exemplo do quanto podemos aprender humanamente com outras e outros.


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