Tempo de leitura: 9 minuto(s)

Desde que nascem, as meninas são criadas para procriar a espécie e ter filhos. Ainda criança, as mães compram bonecas e ensinam as filhas a embalar, ninar, dar papa e, algo bem curioso, ensinam que os bebês saem da barriga.

Depois, na escola fundamental, as aulas de ciências e biologia mostram que os filhos são concebidos com o óvulo da mulher que encontra com o espermatozoide do homem. E quando a menina, dos seus 12 aos 15 anos, menstrua pela primeira vez, a mãe logo vem pedindo cuidado com os meninos da escola, porque agora elas podem engravidar.

E então, as filhas crescem com esta verdade absoluta na cabeça. Começam os métodos contraceptivos, e acreditam com toda a certeza que engravidar será fácil, às vezes até inesperado e indesejado.

Mas a vida nem sempre é tão perfeitinha como os pais pintam para as crianças. Os anos passam bem rápido e com eles a biologia do corpo vai envelhecendo. A mulher já nasce com uma quantidade de óvulos e os vai perdendo a cada ciclo menstrual. Ao iniciar a menstruação, restam de 300 a 500 mil, entre milhões que se tinha de nascença.

De modo geral, a maioria das mulheres começa a perder sua vida fértil após os 35 anos. Os médicos ginecologistas, não especialistas em reprodução humana, geralmente não alertam as pacientes com esta informação. As mulheres do século 21 adiam cada vez mais a maternidade, seja por opção profissional ou por querer aproveitar mais a vida antes de ter filhos. O fato é que o relógio biológico não compartilha do mesmo pensamento. Ele continua a correr aceleradamente e, quando se esgota, não há como repor os óvulos que se foram ao longo dos anos.

Então, a mulher que esperou para pensar na maternidade após os 40 anos vai começar a travar uma corrida contra o tempo. Não há regra e também há exceções. Existem as mulheres que engravidam naturalmente com até 45 anos ou mais, mas é uma raridade que não presenteia a maioria do sexo feminino.

Congelamento de Óvulos

O que os profissionais da saúde deveriam indicar às suas pacientes que querem adiar a maternidade, ou que ainda não encontraram o parceiro ideal para construir família, é que pudessem congelar seus óvulos até os 35 anos. Com os óvulos ainda jovens congelados, a mulher saudável, que não tiver outros problemas para gerar, pode vir a ser mãe até os 50 anos, pela lei brasileira. 

Infelizmente, o que acontece no Brasil é que o preconceito velado é muito grande. Mesmo com mais de 40 anos passados do primeiro tratamento de fertilização in vitro, as pessoas desconhecem esta área da medicina e, geralmente, têm um receio de se quer falar no assunto. Isso porque aquela velha crença que a menina nasceu para procriar ainda resiste na mente feminina. Para as mulheres, basta parar de tomar anticoncepcional e em poucos meses ela terá engravidado, quando não antes.

Além da ignorância, para os casos de fertilização in vitro, o lado financeiro é o que mais pesa. Os tratamentos não são baratos e poucos casais ainda podem ter a oportunidade de tentar ter o seu filho em uma clínica especializada.

Tratamentos de fertilização

Quando se chega a uma clínica de reprodução humana, normalmente após 1 ano ou mais de tentativas naturais, é variado o leque de opções em tratamentos. Os casais podem começar pelo coito programado, quando são orientados a ter relações sexuais seguindo fielmente os dias férteis da mulher, com dia e hora marcada, preferencialmente. Podem também fazer a inseminação artificial, quando o espermatozoide é injetado na mulher (geralmente em casos que o homem não possui quantidade ou qualidade suficientes de espermatozoides), ou eles devem partir direto para a fertilização in vitro. 

Neste caso, a mulher normalmente tem as trompas obstruídas e, principalmente, a idade mais avançada, acima dos 38 anos. A fertilização in vitro consiste em esta mulher tomar medicações para estimular sua produção ovariana. Com esta estimulação, ela aumenta o número de óvulos que, no ciclo natural, não passaria de 1. Então, o médico coleta esses óvulos em um procedimento invasivo, com anestesia geral, e, após recolher também o esperma do homem, o embriologista da clínica escolhe o melhor óvulo para ser fertilizado com o melhor espermatozoide. Esse cruzamento é feito em laboratório e, entre 3 a 5 dias, o embrião formado é colocado dentro do útero da mulher para a possível gestação.

Após 10 a 12 dias, a mulher faz o exame de sangue Beta HCG para saber se o procedimento deu certo e ela está ou não grávida.

Recepção de Óvulos

Mas, e quando a reserva de óvulos da mulher já não é mais suficiente para formar embriões? Além da quantidade, existe também o fator qualidade. Os óvulos da mulher têm a mesma idade que ela. Assim, uma mulher de 40 a 45 anos, terá seus óvulos envelhecidos e, a idade que para a vida moderna ainda é vista como a ‘idade da loba’, para a procriação da espécie já não serve mais.

Essa mulher, salvo as exceções, não conseguirá mais gerar filhos com seus próprios óvulos. Ela terá que recorrer ao tratamento de fertilização in vitro com óvulos doados por uma mulher mais jovem.

No Brasil, a lei autoriza a doação de óvulos de uma mulher à outra, desde que seja de forma anônima e sem fins lucrativos, como acontece nos Estados Unidos, por exemplo. As clínicas brasileiras trabalham, comumente, com a doação compartilhada de óvulos, ou seja, uma mulher jovem, de até 35 anos no máximo, saudável, e com uma boa reserva ovariana, que também deseja engravidar e, por outros motivos, tem dificuldades; ou ainda o parceiro é infértil, ela passa pelo processo da estimulação ovariana e ela divide a quantidade de óvulos bons que obteve com a receptora. Esta mulher que receberá estes óvulos pagará metade ou parte do valor do tratamento da mulher que os doou.

O restante do processo é feito da mesma forma que uma fertilização in vitro com óvulos próprios. Após formados os embriões, eles são colocados no útero desta mulher receptora e ela poderá gerar o seu filho.

Mas de quem será o bebê gerado por óvulos doados?

O bebê gerado pela mulher receptora será o seu filho. Não só pela lei que assim estabelece, mas também porque a mulher receptora será a responsável pela formação e gestação deste bebê, além de colocá-lo ao mundo através do parto.

Ela ficará 9 meses, ou por volta de 40 semanas, com este bebê em seu útero e trocará com ele todos os seus fluidos. O alimentará com seus nutrientes, proporcionará a ele o oxigênio necessário à sua formação, trocará seu sangue com ele através do cordão umbilical e, por último, finalmente, lhe dará à luz da vida em seu nascimento.

Os óvulos são células que a mulher receptora precisará receber para que os embriões gerados por ela sejam formados. Para que essas células doadas sejam compatíveis com a receptora, as clínicas de fertilização fazem um pareamento da tipagem de sangue entre doadora e receptora, além de características físicas que sejam semelhantes entre ambas, como a mesma cor de cabelo, o tipo, a cor dos olhos, altura, etnia entre outros aspectos.

Doadora e receptora nunca se conhecerão, a lei assim determina. Somente os responsáveis das clínicas por este procedimento e o médico responsável é quem saberá a origem e o destino do óvulo compartilhado.

O DNA do bebê não será o da mãe receptora. Ele terá o seu DNA composto por 50% de material genético do pai e 50% da doadora do óvulo, porém a epigenética (termo traduzido como além da genética), garantirá a esta mãe receptora que o seu filho tenha como herança suas características emocionais, comportamentais e, por que não, físicas? A grande caixinha de surpresas da Ovorecepção vai muito além do que embriologistas, médicos e cientistas podem afirmar. 

O milagre da vida continua sendo o mesmo. E o amor incondicional também. 


Autora: Patrícia Medina é jornalista, tem 45 anos, e é tentante há quase 4 anos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui