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Quase quatro anos de maternidade integral, com criança em casa e a maior parte do tempo sendo mãe solo. O que tenho a dizer? Dentro de mim grito: não aguento mais! Precisei chegar até esse ponto para descobrir o que vivo faz tempo: o inferno e o paraíso da maternidade.

Vivem no paraíso as mães que romantizam a maternidade, mas, de fato, há algo de extraordinário no fato de ser mãe. A maternidade desperta em nós um amor incondicional, é o amor divino. A criança na nossa frente toca na nossa criança interior e nos faz lembrar que também somos um pouco divinos.

A criança alegre, inocente, assombrada pelo óbvio, feliz por correr, brincar com amigos e criar universos nas bolhas de sabão; a criança com sua pureza, leveza, espontaneidade, doçura e bondade espontânea nos faz lembrar que também já fomos isso e que, no fundo, ainda somos, o que aconteceu é algumas camadas foram sendo colocadas sobre nós de modo que a criança que somos ficou soterrada, escondida.

Há uma alegria, leveza e vivacidade na criança que nos faz perceber que a vida é bela. Quer coisa mais gostosa e contagiante do que o riso de uma criança? A sensação de completude ao ser envolvida por bracinhos curtos que dão abraços, e, quando ouvimos as declarações espontâneas e sinceras de amor nos sentimos aceitos, amados e importantes.

Contudo, também, vive-se no inferno porque desde o início da maternidade se manifestam nossas sombras. Não só manifestamos o que estava inconsciente, mas nos deparamos com nosso analfabetismo emocional. Precisamos desenvolver a inteligência emocional para poder educar com respeito e favorecer o desenvolvimento da inteligência emocional da criança.

Até sabemos que não há mãe perfeita, mas acontece que há sempre um esforço que fizemos para sermos melhores, nos cobramos para ser cada vez melhores, nos culpamos quando não conseguimos ser um exemplo positivo, afinal, a criança aprende pelo exemplo e seu comportamento reflete o que vive em casa.

Em momentos de desesperos, quando chegamos no ponto em que não sabemos mais o que fazer, quando as estratégias de uma educação respeitosa e amorosa não funcionam, vamos buscar ajuda. Procuramos por alguém que nos entenda e, nessa busca, podemos ir para Montessori, para a educação positiva ou, ainda, para a educação viva e consciente e, adivinha, todas dizem que o problema não está na criança, mas no adulto tal como ele é, tal como ele age com a criança.

O problema da criança é o adulto e, saber disso irrita, afinal de contas já viemos nos esforçando e fazendo tanto e ainda assim há sempre muito trabalho para se fazer a respeito de nós mesmas, mães e educadoras. Ficamos incomodadas e irritadas mas, no fundo, sabemos que é verdade, que o problemas está no adulto e não na criança.

E, por saber e reconhecer isso, seguimos com um trabalho sobre nós, nos esforçamos para nos tornar uma versão melhor, para educar com respeito e sem violência, de modo bem diferente de como fomos educadas. 

Por isso, a maternidade real pode ser vivida como um caminho de autoconhecimento. Nela há um conhecimento de si mesmo que acontece tanto quando vivemos no paraíso quanto quando vivemos no inferno e nos encontramos com nossa criança ferida, que precisa ser curada. Inferno e paraíso andam juntos não como opostos, mas são complementos. Onde há um, o outro se esconde, para em outro momento se mostrar. 

O que aprendi é que a sabedoria consiste em encontrar o equilíbrio, isso é, viver bem apesar de às vezes estar no inferno e outra vezes visitar o paraíso.

E você que é mãe, vive o inferno e o paraíso?


Autora: Tatiana Betanin, educadora e mãe. Praticante de yôga e meditação. Formada em filosofia. Educadora montessori. Compartilho um pouco do trabalho. Instagram: @maternidadeeautoconhecimento

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