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“Criar bebês é muito árduo porque, assim como a criança, para ser, entra em fusão emocional com a mãe, esta, por sua vez, entra em fusão emocional com o filho para ser. A mãe passa por um processo análogo de união emocional. Ou seja, durante os dois primeiros anos, é fundamental uma”mãe-bebê”. As mulheres puérperas tem a sensação de enlouquecer, de perder todos os espaços de identificação ou de referência conhecidos; os ruídos são imensos, a vontade de chorar é constante, tudo é incômodo,acreditam ter perdido a capacidade intelectual, racional. Não estão em condições de tomar decisões a respeito da vida doméstica. Vivem como se
estivessem fora do mundo; vivem, exatamente, dentro do “mundo-bebê. E é indispensável que seja assim. A fusão emocional da mãe com o filho é o que garante que a mulher estará em condições emocionais de se desdobrar para que a cria sobreviva”. – A maternidade e o encontro com a própria sombra. Laura Gutman.

Quando Maria nasceu, Nadia morreu. Mas não pode tratar de seu funeral, pois haviam lhe dado uma missão: tornar o mundo o lugar mais hospitaleiro, eficiente e confortável para acolher corretamente sua arte manifesta, sua Maria. Sua obra tava lá, concreta, de olhinhos brilhantes e coração pulsante. Estava explícita, viva, viva. Meu Deus, há um bebê dormindo lá no quarto.

Uma alma, parte minha e totalmente externa a mim. Minhas entranhas estão balbuciando no moisés. Alguém aí por favor me explica como isso aconteceu. Mas espera, preciso estar viva agora, sua vida depende disso. Mas Nadia estava morta, e em êxtase. Não sei quem é você, belo bebê, e já não sei quem sou. Teremos que caminhar juntas, minha obra prima. Seja o que Deus
quiser. Ressuscito-me na marra. O amor é visível, é possível tocá-lo. Tê-la em meus braços é morrer mais uma vez. Alguém por gentileza chame o SAMU; não peço mais nada, estou tentando dar conta de tudo sozinha. Daí vieram os olhares, os dizeres, as ordens e o carrasco interior. É preciso que se faça assim, que esteja tudo dessa forma, cubra já essas tetas, tira o carrinho do caminho. Se ela é minha? Porque duvidas senhora, por ela ser branquinha e eu moreninha? Não amada, achei numa caçamba e catei pra mim de souvenir. Meu bem, perdoa mas não esconderei as tetas.

Não querida, será feito dessa forma. Já estava tudo meio turvo, agora não enxergo mais nada. Será que será? E agora? Joga aí no Babycenter, cadê o livro do doutor Rinaldo… meu Deus, olha o que fiz com o umbigo de minha filha! A cabecinha dela tá ficando amassada. Não estou à altura de tamanha responsabilidade, desabo e morro mais uma vez. Ela está chorando, deixa eu respirar. Voltemos ao começo. Não entendi, pode explicar de novo? Espera ela arrotar.

Daí vieram os nãos, o medo, a falta de ar, a febre altíssima, as médicas grosseiras, o pavor novamente, as comparações. Ar, preciso de ar. Mãe, olha ela rapidinho, darei um pulo na terapia, é caso de vida ou morte. Não te peço mais nada. E foi assim que a força veio como uma represa arrebentada. Com a força, finalmente a voz. Ela veio! ah obrigada minha Deusa, ela chegou e era bonita: era minha! Uma bela mezzo soprano abafada por regras, slings, conselhinhos, normas, supermothersoftheworld. Excluo-me de todos os grupos e retorno plena ao regaço aconchegante da Grande Mãe.

Renasço e por fim sou mãe. Um ano de trabalho de parto e enfim lá estava ela, a mãe da Maria! Toda torta, porém honesta, já que agora havia um norte e uma certeza interior. Estavam juntas, por fim! E juntas, Maria e Nadia são invencíveis. O amor me fortalece e volta a ti triplicado, minha masterpiece. A vida agora tem gosto de chocolate e um grandíssimo sentido. Vambora juntas, amor maior de minha vida. Viver é uma aventura deliciosa, dá aqui sua mão… Obrigada minha filha, obrigada.

 

Por: Elaina Nunes

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