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Ao falarmos de distanciamento social, nos deparamos com algo tão novo que é esperado também que novas angustias surjam durante este processo. 

Distanciar-nos das nossas rotinas, das pessoas que nos cercam e principalmente a perda do contato com o outro nos obriga a entrar em reclusão dentro de nós mesmos.
E que espaço é esse, tão novo e tão inóspito que fomos obrigados a passar tanto tempo?

A angustia que o novo gera, tem exigido uma enorme disponibilidade psíquica para novas adaptações. Conviver com você mesmo será um convite para revisitar, com tempo, quem nós somos e como estamos (e se estamos) prestando atenção em como está ocorrendo nosso processo de maturação.

Partindo de todos esses últimos acontecimentos, podemos resgatar dentro da obra de D. W. Winnicott a importância da experiência cultural na modulação do novo ser, que de encontro com a qualidade da relação analítica, servirá para recompor danos que foram sofridos.

O ambiente na obra de Winnicott é determinante na construção de um eu “saudável” e significativo, de uma existência verdadeira e de um viver criativo. Ainda segundo o autor, a relação do sujeito com o mundo deve ser construída.

É como se estivéssemos olhando através de uma janela. Considerando que a imagem a ser recebida é para dentro de você.  Nosso olhar está condicionado a ver o que já foi referenciado, mas o que pode ser criado a partir dos desejos, que por falta de contato consigo mesmo não foi acessado? Onde estão empregados nossos reais desejos? Quais são nossas reais motivações em meio a tantas rotinas preenchidas de dias intermináveis e esgotamento psíquico?

Usamos todos os sentidos para ver. Nossos órgãos se colocam a disposição e juntos interagem se comunicando para que haja a realização do que se vê.

Podemos entender até aqui que é preciso existir através de si mesmo. Nunca enxergaremos nós mesmos fora de foco. Quando existe desequilíbrio emocional, desfocamos o comportamento das relações ao nosso redor, mas dificilmente seria o mundo a estar desfocado, mas sim a forma como vemos o mundo. Está aí a multiplicidade das coisas fora da janela.

O medo de ver de perto o que nos é apresentado pode ser uma forma de resistir a enxergar o que está do outro lado da janela (seu “eu” verdadeiro).  A janela nos faz enquadrar a imagem do que se é suportado. Do que é criado dentro de cada indivíduo. Se torna por tanto, um espaço demarcado e seguro. É como se pudesse ver até onde “dá” para mim. Fico contido até onde não me sentir ameaçado.

O incomodo gerado por tudo que nos permitirmos enxergar é o que nos faz pensar. É na dor que se tece a transformação.

As imagens entram ou elas saem dessa janela?

Assim, a capacidade de ficar só, representa a autonomia do indivíduo, que depende de um ambiente suficientemente forte para suportar o que realmente vem a significar estar sozinho. Pois “estar só” decorre de quem “eu sou”.  E nesse momento construir um espaço criativo e potencial será um fortalecimento necessário para sustentar o “eu” para os novos desafios que surgirão com tantas mudanças e uma nova possibilidade de compreensão de nós mesmos.

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