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Uma vez li que, quando nasce uma criança, nasce também uma mãe e sua respectiva culpa. Essa constatação é facilmente confirmada pela frequência em que esse assunto é tratado em textos, vídeos, lives ou qualquer outro material produzido para o publico-alvo de mães. Tal culpa parece estar relacionada ao não-atingimento de um ideal de perfeição.

Ocorre que a busca, ou pressão, por ser uma mãe perfeita convive perfeitamente com a constatação de que não existem filhas perfeitas, nem irmãs perfeitas, muito menos esposas perfeitas. Analogamente, a imperfeição também é aceita para filhos, irmãos e esposos.

Saindo da esfera familiar, também não encontro amplo material sobre a culpa por nao ser um profissional perfeito. Por que, então, numa sociedade em que a perfeição já é entendida como utopia, somente as mães caminham na direção contrária do senso comum e se culpam por não atingirem o impossível?

As explicações possíveis sao muitas e a maioria delas passa pelo nosso modelo patriarcal, tão consolidado nas mulheres e, consequentemente, nas mães. Apesar de todos os avanços feministas, a maternidade parece continuar sendo percebida como o principal sentido da vida das mulheres, fazendo com que qualquer mínimo distanciamento da perfeição nesse aspecto seja sinônimo de uma vida fracassada.

Esse peso ainda parece ser maior devido à grande quantidade de regras que são impostas sobre parto, amamentação, chupeta e todos as posteriores decisões necessárias para a criação de um(a) filho(a).

Por isso, em vez de demonstrar identificação e solidariedade cada vez que me falam sobre a culpa materna, minha vontade é responder que precisamos nos tornar fortes o suficiente para dar um basta nisso. Ou pelo menos, para minimizar a percepção de que é normal e aceitável que as mães carreguem sempre uma culpa.

Esse sentimento deveria existir somente nas situações em que a mãe não dá o melhor de si (respeitando suas limitações), e não a cada pequeno distanciamento de um ideal de perfeição. Cada mãe merece substituir sua infundável culpa por sua (des)culpa. Só assim, leves e desculpadas, conseguiremos ser mães ainda melhores.

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Marcia do Valle
É mãe, carioca e engenheira. Começou a escrever para tentar harmonizar o que sentia com o mundo que a cercava. A partir daí, nunca mais parou, publicando o seu primeiro livro em 2005, o romance 180 Graus (Editora Marco Zero). Em fevereiro de 2020, foi lançado pela Editora Adelante seu segundo livro, uma antologia de textos sobre amor, saudade, e outros sentimentos que transbordam de suas palavras: Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?. Após escrever em blogs e diversas páginas da internet, atualmente divulga os seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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