Coluna – Quantas mulheres cabem em uma mãe preta?

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Quantas mulheres cabem em uma só?

Às vezes mal cabe ela mesma.

Às vezes ela só queria não ser.

Não dar conta.

Não gerir.

Não suportar.

Não ser forte.

Às vezes ela nem queria ser.

Fazer a lista do mercado, a pesquisa da tarefa, participar da reunião de pais, verificar (e passar) uniformes, preparar refeições sadias e ser pontual nos compromissos — não importando o caos que a antecedeu.

Porque há dias em que ser tudo para todos pesa.

E ninguém pergunta quem sustenta ela — mas ela sabe, e Ele sempre sustenta.

Mas ela não queria que isso fosse preciso.

Ela quer viver — e não sobreviver.

Ela é amiga.

É presença.

É colo.

É escuta.

Até silêncio.

Em alguns dias é líder.

Em outros, só tenta atravessar o dia.

Até silêncio.

Às vezes, mesmo rodeada de amigas, ela ainda está só.

Elas compram as causas da influencer da vez, mas mal se dão conta da carga ferrenha que atravessa a vida da amiga.

Só não se sobreponham a elas a carga de sempre questionar suas escolhas.

Elas vão errar — mas vão acertar em cheio também.

Comemore com elas cada conquista.

Ofereçam e sejam o abrigo que elas precisam, porque na maioria das vezes é ela que oferece o amparo para todo mundo — e ai dela se não der conta, se se queixar, se pedir socorro… se explodir então — olha a desequilibrada!

Aconselhem-na sem tirar ou pôr responsabilidade demais.

Validem suas queixas.

Observem suas cicatrizes sem que elas se sintam expostas ou vitimizadas.

Embora a sociedade adore que ela seja a vítima, quando chega a hora de oferecer o respaldo respeitoso por sua trajetória, a vitimizam — no pior dos sentidos.

Quando uma mulher preta conquista alguma coisa, raramente é apenas uma vitória bonita de se ver.

Há suor.

Há esforço.

Há caminhos percorridos sob exigências que muitas outras pessoas nunca precisarão enfrentar.

Há também a superação de muitas invalidações silenciosas.

Nem sempre é tão bom ser mulher, mas é massa sê-la.

Contaminar-se com seu sorriso e sua forma de levar a vida é validar sua estadia por aqui.

Não a comparem.

Cada uma carrega em si a potência de resistir.

Fortes, guerreiras — não.

Frágeis, indefesas — não.

Firme, grosseira — não.

Elas vão errar — mas vão acertar em cheio também.

Gênio e personalidade se herdam — mas muitas das vezes são construídos a partir de vivências que nem sempre foram tão dignas como deveriam.

Ah, quantas mulheres cabem em uma mãe preta?

Tantas quantas ela quiser.


Os artigos publicados pelas colunistas são de responsabilidade exclusiva das autoras e não representam necessariamente as ideias ou opiniões do Mães que Escrevem

Autor

  • Natalia Maria Souza Veloso

    Oiê! Sou Natália Maria Souza Veloso, ou simplesmente Net Veloso.
    Professora há quase 20 anos. Magistério, Letras e Pedagogia. Pós-graduação, mestrado e doutorado em maternidade, rs. Contadora de histórias nas horas vagas! Casada, mãe de 3. Mãe preta de 3. Passei por 4 gestações. Sonhadora! Acredito no fantástico poder da escrita! Ela me libertou! Que minhas linhas atinjam corações; que sejam acalento e coragem; resistência e luz! E que tais linhas tornem- se laços de apoio e que a representatividade se faça viva! Instagram: @netveloso

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