Coluna – Mães são valentes, e também erram

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Que mulher nunca se pegou pensando “estou ficando igual à minha mãe”? Ou mesmo tenha ouvido isso de alguém: “você está ficando igual à sua mãe”. É um sentimento ambíguo. Afinal, geralmente não há nenhum problema nisso (às vezes há), ficar igual a sua mãe. Mas sempre há uma parte da gente que não quer. Quantas vezes, ao longo da vida, nos prometemos nunca fazer isso ou aquilo igual às nossas mães!? Principalmente aquilo que tanto nos incomodava, os erros que parecia que nunca conseguíamos fazê-las enxergar. Porque, sim, as mães também erram. E, se minha mãe errou… 

O desenho animado Valente conta a história de Merida e sua mãe. É, antes de tudo, uma história de conflito de gerações. A tradição, que parece ser o porto seguro da mãe, é o contrário do que a valente e destemida menina quer para sua vida. A princesa quer desbravar o mundo, e fazer seu próprio destino a partir do que ela escolhe para si e que, quase sempre, é justamente o oposto do que a mãe acredita ser o melhor para a filha. A arte imita a vida… e como!!

Como é de se esperar, a juventude e a inexperiência da princesa a levam a tomar decisões que não apenas são desaprovadas pela mãe, como representam risco à garota e ao seu reino. E, mais que isso, ela acaba ferindo a mãe de um modo permanente e, talvez, irreversível. 

As ações da garota, sua postura rebelde e atitudes inconsequentes culminam na condenação da mãe a um destino que também não foi escolha dela. É da filha o erro que resulta no conflito do enredo, na barreira a ser ultrapassada para se chegar ao final feliz. Por orgulho e teimosia, a menina opta pela solução mais “fácil” e quem paga por isso, num primeiro momento, é a mãe. Mas não é apenas dela essa culpa. 

Elinor é, certamente, uma mãe dedicada, amorosa e extremamente dedicada à família. Fica claro o quanto sua rotina se volta totalmente a cuidar do lar, dos filhos e, até mesmo, do marido e do reino. De fato, se percebe que ela é responsável por conduzir inclusive a “política de boa vizinhança” que, no caso dessa história, pode ser a diferença entre a paz e a guerra entre os clãs. É dela a responsabilidade pela manutenção da tradição que garante essa paz. E, como já era de se esperar, ela nem sempre é compreendida nessas atitudes, muito menos tem seu esforço reconhecido. Mas, ela também erra. 

Por mais que o objetivo da rainha seja, o tempo todo, garantir a segurança e bem-estar, em última análise isso significa, de certa forma, a felicidade da filha, ela se mostra cega ao fato de que Merida não pode ser feliz se restrita àquela tradição. A rainha, embora seja certamente a personagem mais sábia da história, está tão concentrada naquilo que ela acredita que seja o melhor a se fazer, que se mostra incapaz de ouvir e compreender a filha. 

Não é necessário nenhum feitiço para que estes ingredientes se tornem uma maldição. Mas, sim, temos magia. Afinal, é a Disney, é um conto de fadas. Orgulho, medo, expectativas frustradas, falta de empatia e, sim, amor, são ingredientes capazes de criar um feitiço desafiador. Assim é no conto, assim é na vida real. Depois de nos tornarmos mães, se de um lado buscamos não repetir aquilo que julgamos terem sido os erros de nossas mães, por outro lado compreendemos profundamente de onde eles vieram. Não é por menos do que por amor que sentimos tanto medo dos erros que nossos filhos hão de cometer. É por amor que tentamos trilhar o caminho por eles. Quem dera eles coubessem em nosso colo para sempre. É por amor que nos enganamos ao pensar que nossas escolhas são sempre melhores do que as deles. 

Sim, mães também erram. E, sim, nem sempre é por amor. Mães também tem orgulho, também são teimosas, também se frustram e se magoam e, por isso, erram ainda mais. Nos olhos de Elinor, quando percebe que feriu a filha, conseguimos ver todas as nossas falhas. Nesse momento do filme, a culpa sai do esconderijo e golpeia fortemente o coração de qualquer mãe. E, se soubermos ler as entrelinhas, nesse momento também compreendemos o quanto é importante nos perdoarmos desses erros. E saber que, certamente, erraremos novamente. 

Mas, se mãe e filha erram juntas, se justamente por serem tão parecidas, mesmo se achando tão diversas, elas acabam por causar tão grande problema, também juntas elas encontram a solução. Ao reconhecerem seus enganos, ao mudarem um pouco, cada uma delas, se aproximando da outra, mais do que se compreenderem, elas se encontram consigo mesmas. É necessário um caminho de transformação do pacato para o feroz e vice-versa, para que elas percebam que, ambas, são feitas de tudo isso e muito mais. Se ao final da história, as duas estão ainda mais unidas e conquistam uma relação de confiança e cumplicidade, não é outro o caminho desse encontro senão o de se afastarem de si em busca uma da outra. No fim das contas, parece que há muito de nossas mães que precisamos perdoar e descobrir em nós mesmas para poder nos aproximar mais e compreender mais nossos filhos.

Serviço:

Valente. 2012

Diretores: Brenda Chapman, Mark Andrews

Autora: Brenda Chapman

Duração: 1h 33m

Produtoras: Pixar, Walt Disney Studios, Walt Disney Pictures, Walt Disney Animation Studios

Disponível no streaming Disney Plus

Autor

  • Regina Miranda

    Regina Miranda é autora de três livros publicados com a editora Caravana, sendo um deles o infantil "O sabor das coisas", cuja história foi co-criada com a filha, de cinco anos na época. Também participa de coletâneas como com o Selo OfFlip, e publicações em revistas digitais, como a Revista Intransitiva. Apaixonada pelo universo da literatura, é formada em Letras pela UFPR com especialização em Educação a Distância pelo Senac. Já foi professora no ensino fundamental e, hoje, leciona aulas particulares de produção de texto, além de participar da organização do Clube de Leitura Feminista em Curitiba, onde mora atualmente. Divulga seus trabalhos literários e reflexões diversas pelo perfil de Instagram @reginaliber2020

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