Faz mais de um ano que Ana perdeu a avó. Perda que, em teoria, ocorreu há mais tempo, já que a doença devorava aos poucos o que ainda restava de Laura. Como uma hóspede indesejada e inalcançável, carregava, mês a mês, partes de quem ela foi um dia.
Aos seus 70 anos, não fosse pela degradação provocada pela enfermidade, Laura reservava ainda um olhar amoroso e acolhedor, com palavras fraternas e conselhos certeiros. Ela guardava em si um céu particular, que insistia em manter-se iluminado por um painel de estrelas, mesmo diante da noite mais sombria. Dizem que se você apontar para um estrela nasce uma verruga na ponta do seu dedo, Aninha! A neta não conseguiu testemunhar a dor da avó. Aparentava ser fria, às vezes. As palavras iam diminuindo do seu vocabulário, não sabia o que dizer à Laura, o que deveria perguntar. Seus pensamentos estavam longe. Ana parecia viver um estado de letargia. Não tenho tempo agora, vó! Ando ocupada com a faculdade. Você pode pelo menos ligar mais vezes…
Ana realmente estava ocupada. Ocupava-se integralmente em ser uma jovem menos perdida, que tentava decidir o que faria do futuro. Não tenho tempo agora, vó! Não tenho tempo para acompanhar a via sacra em que se transformou sua vida e no fundo sei que você também está cansada de seguir nela, pensava.
Essa é a grande verdade.
A única.
Depois de um ano do falecimento de Laura, Ana estava com dificuldade em lembrar de como tudo ocorreu. Os detalhes agora são borrões. Esqueceu-se de como foi o velório, os familiares que compareceram, quem comentou o que, quem chorou, do cheiro do café feito pela equipe da funerária e das flores que circundavam o caixão.
A única certeza vivida era o fato. A morte era real, inquestionável. A sua avó não está mais aqui.
Era uma manhã de sexta-feira, perto do horário de almoço, quando Ana decidiu visitar o avô viúvo. Suas casas eram próximas, mas o encontro entre os dois era raro. Para ela, o tempo parece funcionar como que em lapsos de memória que ora revisita cenas do passado, ora dá um salto e, quase sem perceber, vive outra vida, em um futuro inventado, porém crível. Uma temporalidade que não obedece à lógica cotidiana, mas cria um caos que tem mais sentido do que a vida que Ana viveu até ali. Era como se precisassem acordá-la, resgatá-la do torpor de uma droga ainda não descoberta.
Vô? Já tô entrando, tá? O portão tá destrancado.
Ana atravessa o corredor estreito que liga o portão principal à porta lateral da casa dos avós. Um caminho de canteiros repletos de flores, arbustos e outras plantas que a avó costumava colher por aí e plantar em casa.
Na infância, Laura levava Ana para coletar bromélias nas praias da região. Não era necessário força para arrancar as mudas, elas já estavam na superfície de uma pedra ou apoiadas delicadamente em um arbusto na faixa de areia. Como essas plantas cresceriam e a quais espécies pertenciam era o mistério que os netos e netas tentavam desvendar nos almoços de domingo, à medida que elas cresciam vigorosas.
Tenho mão boa para plantar. Aqui em casa tudo pega!
Agora, caminhando rente aos canteiros, Ana percebe um misto de familiaridade com os organismos vegetais que tanto assistiu sua avó plantar e regar, e o distanciamento das marcas deixadas pelo tempo naquele espaço de terra, já sem metade do jardim que ela cultivava. Nesse mesmo trajeto, depois de um ano, o cheiro de alho refogado não escapa mais à porta e não se ouvia mais o locutor da rádio local comentando as notícias e, logo em seguida, colocando os maiores sucessos de Roberto Carlos para tocar.
A jovem é recepcionada por uma tia, que morava na Irlanda e estava de visita naquele mês. O avô, saindo do banheiro, atravessa a sala de jantar e a cumprimenta amorosamente. A mesa antiga de madeira pesada e cor escura, naquele momento não apoia pratos ou alimentos, apenas um grande vaso de porcelana, pintado meticulosamente a mão com flores azul turquesa. Não há flores no vaso.
Quando a tia finalmente sai de seu campo de visão, depois de ter encerrado todos os cumprimentos convencionais, Ana percebe que há outra pessoa sentada à esquerda da mesa.
Ela aproxima-se para olhar. Sua mente gira, as pernas perdem todo o sangue que ali circulava e ela parece ter desaprendido a respirar.
Vó? É você?
Ana parecia assistir a uma cena de teatro da plateia. A sensação era de ser dividida ao meio, onde uma parte estava paralisada entre a porta da casa dos avós e a cadeira que, depois de meses, voltava a estar ocupada, e a outra parte assistia a tudo de longe, sem se comprometer, mas ao mesmo tempo perplexa.
A cadeira foi abandonada. Acomodava uma falta, que ao mesmo tempo gritava estar presente. Os familiares mais próximos, especialmente os filhos e filhas, não conseguiam ficar muito tempo naquele lugar. Que de um organismo pulsante, alegre, acolhedor e amoroso, tornou-se apertado, sufocante, de tão vazio.
A ausência da minha avó me sufoca a ponto de barrar a respiração. Será possível conseguir um pouco de paz se eu arrancar meu coração ainda batendo com minhas próprias mãos? Entregaria-o a você agora, vó! Se pudesse…
Tão real quanto a morte de Laura e todo o sofrimento que passou por causa da doença em seus últimos anos de vida, era aquela pessoa sentada na sala de jantar. Laura estava ali, mais rejuvenescida, pelo menos como esperava-se que estivesse pela idade, e sem as interferências de sua mazela. Ela parecia quase a mesma. Quase por causa de um detalhe: o sorriso triste e o olhar perdido.
Com o peito descompassado, Ana correu ao seu encontro. Que saudades, vó! Não acredito que você está aqui.
Laura a acolheu delicadamente nos braços, ainda sorrindo. Ainda com o olhar perdido.
O clima na casa não poderia ser mais estranho. Todos que ali estavam agiam normalmente como se tivessem esquecido da morte de Laura. Seria um sonho? Ou uma amnésia coletiva? Estariam todos em uma dimensão alternativa em que ela nunca havia partido?
Depois de sentir o calor do abraço da avó, um misto de surpresa com revolta tomou Ana em cheio. Tia, o que está acontecendo? Isso não pode ser real.
A família dissimulada, disfarçava, parecia nem ouvir o que a garota dizia. Para eles, tudo parecia normal: apenas um encontro em família.
Ela logo vai voltar.
Voltar para onde? Ela já voltou, ninguém está vendo? Voltou pra gente.
Não, Ana. Ela vai voltar.
Ana entendeu. Não era ela a visitante naquele dia. Laura estava de passagem. A garota, com o peito apertado, lágrimas nos olhos e um olhar consternado, segurou a dor dentro da alma. A aprisionou como se pudesse prender com as próprias mãos. Deitou no colo de Laura, que apoiou as mãos sobre seu peito.
Foi então que Ana lembrou de uma única imagem do funeral ao olhar para as mãos da avó, algo que nem a mais hábil funerária ou os esmaltes mais densos conseguiriam esconder: as unhas amareladas depois que o sangue escapa do corpo.
Escrito por: Pietra Garcia – Instagram: @atelieproducao
Revisão: Angélica Filha





