522 semanas e um dia

A positive pregnancy test with a red cap on a pink and white surface in a flat lay style.

 Uma gestação de humanos dura cerca de 40 semanas. Eu esperei meu filho por 522. Se você está fazendo as contas, são 11 anos. Cabe o mundo em 11 anos.

Para nós, foi de fertilização in vitro à ayurveda e medicina chinesa, passando pelas garrafadas da pastoral da família. Muitos médicos, muitos terapeutas e muitas, muitas opiniões: técnicas, espirituais, comportamentais e o poço sem fundo dos palpites. “Porque uma prima minha”. “Porque você viaja muito”. “Porque está muito estressada”. “Tem que mudar de trabalho”. “Tem que caminhar na praia”. “Tem que tirar mais férias”. Uma vida entre o “relaxa que vai” e o “só não consegue quem desiste”. Seria nobre dizer que passei ilesa por essa enxurrada, mas a verdade é que ouvi muito e segui quase tudo.

Mudei três vezes de médico, duas de emprego e uma de cidade. Vim morar perto da praia e, entre mergulhos e caminhadas, preenchi o meu tempo com três mestrados e um doutorado, para ver se conseguia abrir o tal espaço. Parecia que, em algum momento, uma chave iria virar ou eu encontraria o botão certo para apertar. Não deu.

De tudo, me lembro mais do cansaço: do corpo, do coração e da alma. Nas marés otimistas, havia um sentimento claro de que a maternidade um dia aconteceria, ainda que sem saber quando nem como. Mas esses momentos bons eram atravessados por muitos dias de mães de colo vazio, vendo amigas e familiares engravidando “sem querer” e recebendo olhares insistentes de piedade por onde quer que eu fosse. Uma hora o que me movia esgotou, gasto até a última gota. Me perdi de mim mesma e soube que era hora de parar de tentar.

Entendi que ser mãe não é a mesma coisa que engravidar e me dediquei a reunir os caquinhos e a me reconhecer, a me abrir para outras possibilidades. Nos aproximamos do processo de adoção, estudamos e nos identificamos com esta outra forma de parentalidade. Então, veio a pandemia e tudo pareceu ficar lento, difícil e absolutamente fora do controle outra vez (controle, bom, não houve nunca, mas parecia impossível até me agarrar a qualquer ilusão).

Uma semana antes de viajar para fazer uma parte do doutorado fora do Brasil, comecei a sentir uma irritação na pele do rosto, que cocei até se formarem calombos vermelhos de um lado e do outro da boca. Estava assistindo a uma série na TV e achei aquela reação alérgica esquisita, pois tinha acabado de comer a mesma pizza meio marguerita e meio calabresa de sempre.

Nos últimos anos, eu havia me letrado na mais ampla gama — nem sempre 100% científica — de maneiras de descobrir se há gravidez ou não, e todo ciclo recorria a alguns subterfúgios para cortar logo a expectativa que nunca vai embora. Ficava sempre cabreira, pois muitos sintomas da gravidez coincidem com os do período pré-menstrual. Passei a vida me iludindo à toa. Resolvi, então, conferir o colo do útero. Alto, úmido, macio. Isso era o quê mesmo? Assisti de novo ao vídeo no YouTube. Talvez gravidez. Mas não parecia estar um pouco aberto? Sem dúvida estava bem alto. Estranhei que o ciclo não tivesse sido curto dessa vez. Vi que a lua nova era dali a alguns dias e coloquei a culpa nela. Poderia ser que eu estivesse a caminho de uma sincronização. 

Diante da dúvida genuína, comprei dois testes de farmácia. Um para fazer naquele dia mesmo, uma segunda-feira, daqueles que dão o resultado com antecedência. Fiz o teste afobada e o resultado já me deu taquicardia: uma listrinha de positivo clarinha, lá no fundo. Achei inconclusivo, mas a certeza já estava no meu coração: nunca na vida tinha dado nada parecido, nem uma sombra, nem uma insinuação de mancha, nem um tracinho. Nada, nada. Se havia algo ali, era porque algo havia.

Na terça-feira eu acordei cedo e fui para o primeiro xixi do dia, o recomendado para fazer o teste. Um dia de atraso já dava para pegar. Mal o teste começou a reagir e uma cruz bem nítida apareceu no visor. Positivo, positivíssimo. Meu coração começou a bater acelerado, tentando achar uma explicação. Saí andando pela casa desorientada, fiz suco verde, acho que reguei umas plantas, não me lembro. Fiz o exame de sangue, mandei para a médica e ela disse: “Sim”. Contei para o meu marido de forma tão pasmada que ele, igualmente entorpecido, só conseguiu responder: “Parabéns”. Ainda saímos à noite para um dos bota-foras que eu tinha marcado para aquela semana. Eu dei uma desculpa para não beber e conseguimos fingir normalidade. Indo embora, meu marido me perguntou: “mas o que isso significa mesmo?” Significa que, neste exato momento, eu estou grávida.

Um ano mais tarde, estou aqui com um gorducho de quatro meses nos braços, às 2h da manhã, enquanto vigio seu sono e escrevo essas linhas. Um milagre, dizem-me todos os dias. Concordo. Não sei de Deus, já que não sou religiosa, mas sei da beleza infinita e da grandeza dos mistérios da vida.

Autora: Liliane Ramos – @lilianemr

Revisora: Samantha Viriato

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