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Às vezes ela se pega refletindo sobre o ordinário. Outro dia ficou admirando e pensando que fruta maravilhosa é a banana — sente-se meio exagerada quando faz isso, mas talvez isso seja prática de mãe, extravasar exageros. Ficou pensando e enumerando as vantagens na mente: reproduz de maneira independente; dá em uma planta com uma estrutura flexível que cresce em qualquer lote vago; já vem embalada, bastando descascar para comer; é gostosa e sustenta.

A banana é uma fruta com jogo de cintura. Resiliente e acessível. Comum, mas que também tem seu valor — a banana nem sempre é tão barata quanto reza o ditado. Se a banana fosse um ser humano, certamente seria mãe. Uma mãe, como todas as demais, que de vez em quando escorrega na própria casca. E é um tal de clamar piedade para as consequências não serem duradouras, pro filho não reclamar trauma na fase adulta com nenhum psiquiatra. É por isso que mãe, querendo ou não querendo, consciente ou inconscientemente, se apega a fé. Porque na falta de entender esse negócio de rir e chorar ao mesmo tempo, de nascer como mãe e apagar como mulher, resta confiar que vai dar certo. Que o mamão vai fazer efeito, que o sono picado vai ser suficiente, que todo mundo vai ficar feliz e satisfeito.

Mas não venha dizer que alguma mãe seja banana! Não, senhor! Tal ofensa seria inadmissível. Quando o filho nasce devem implantar na mãe, na maternidade mesmo, um radar. A capacidade de percepção e ação aumenta muitas vezes.

Apesar da comparação poder ser infeliz dependendo da via em que é feita, mães e bananas são boas parceiras, em qualquer ângulo que se olhe. Ela não duvidaria se lhe falassem que bananas existem para trazer sossego para as mães, pra ser saída quando o menino rejeita o prato de caldo de abóbora com couve, pra resolver o lanche improvisado, pra forrar barriga antes de almoço atrasado. Na opinião dela, toda mãe devia levantar as mãos para o céu e agradecer pelas bananas. Caturra, prata, maçã, não importa. E isso não tem nada a ver com religião, tem a ver com fé, como já foi dito.

Enquanto pensava tudo isso, fatiava a banana sobre a tábua. O filho na beirada da mesa aguardando receber a fruta na tigela. Olhou para os olhos redondos dele encarando os pedaços e pegou um para entregar a ele diretamente na boca, um pequeno adiantamento do agrado. Na hora sua mente iluminou e lhe ocorreu que a rodela de banana parecia uma hóstia. Como boa mãe que era não perdeu tempo:

— Deus te abençoe, meu filho.

Publicado originalmente em no Medium.


Autora: Carla Oliveira. Escritora. Fundadora da @storiesgrapher e criadora do projeto Saboreando a Vida. Esposa, Mãe de 2, Bióloga.

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