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Meu filho, perder alguém amolece o nosso coração, ele fica como que desmanchado dentro da gente, sabe?

Não sei se tu lembras tão bem quanto eu e teu pai, mas no sábado perdemos a Pepa, nossa cachorrinha. Foi abrupto e cruel, fechou nosso estômago. Nos fez esquecer que às sete horas é banho, que lá pelas oito horas é pra jantar, que lá pelas dez já passa da hora de você estar na cama… Mas nos lembramos do quanto nos faz bem estarmos juntos uns dos outros e dos nossos gatos (que nos rondavam como se soubessem).

Meu pequeno, a fome não veio, a míngua fica na gente, o corpo entende… Já são tempos tão difíceis de estarmos longe de quem amamos, do que gostamos de fazer. Mas vida é dessas, é sopro, é direta e reta, consegues compreender?

Não dominamos quase nada.
Naquele dia em que fomos à praia o céu estava nublado, sem vento, estava bonita pra gente curtir. O mar, muito mexido, salgado como se soubesse que precisávamos renovar (e preparar) nossa alma, parecia uma lagoa quando pulávamos a primeira rebentação, você dava muita risada. Veio o susto, e na sequência, o pôr do sol. Daqueles lindos, meio rosados, e alaranjados, lamento informar que não existe cor exata em paleta alguma no mundo que se diga qual a cor que ele tinha. Mas ele estava ali, meu filho, nos encantando no plano de fundo de tudo aquilo.

Eu e seu pai esquecemos de olhar relógios, horários, corpos. Sentimos uma dor desconhecida (como se ensina a esperar por uma dor dessas?). Mal teve lanche, mal teve janta. O corpo queria se preencher de outras formas, com afago e carinho, nutrindo sentimentos.

Já era tarde da noite, nossa cabeça pesava e o estômago roncava, reações normais pra quem não comia há um tempo, nós estávamos amontoados na cama. Não era o momento para arroz soltinho, massa com galinha, pastel sequinho. O corpo e a alma queriam afago, caloria, facilidade de digerir.

Mingau. Aquele que adoramos, sabe? De fubá. Angu doce. Mingau afetivo, comida que abraça, temperatura do nosso corpo que, ora que ficou tão frio, só adormece quando reaquecido. Quando o alimento não é só para o corpo se manter em pé, é pra alma que quer sossegar. Um dos favoritos aqui de casa, mas que nem sempre se faz presente como uma refeição principal. Mas foi necessário. Sentamos à mesa todos juntos para soprar o mingau ainda quente, cada um com o seu, já controlando o descompasso da respiração.

Doce, leve, acolhedor. Conseguimos dormir, e a turbulência se estabilizou. Você, na cama com a gente, porque perder alguém deixa nosso coração todo molezinho, como mingau de fubá quando recém sai da panela, sabe?

Receita Mingau de Fubá (Angu Doce)

3 colheres (sopa) de fubá (fino ou médio)

2 xícaras de leite (qualquer tipo)

4 colheres rasas (sopa) de açúcar 

1 colher de margarina ou manteiga

Tudo na panela, um reboliço, mexendo até dissolver e seguir mexendo para não grudar, pra nenhuma parte se perder pelo fundo onde ficam os gruminhos, esperando borbulhar pra aromatizar, pra afagar, pra alma entender. Nas cumbucas, polvilhar canela se quiser. No dia, não quisemos. Foi purinho, morninho, direto pro coração.


Autora: Helena Weber, cozinheira e pesquisadora no Ponto de Cultura O araçá na Praia da Cidreira, mãe do Francisco (5 anos), escreve e devaneia por necessidade. Instagram: @oaracacidreira

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