Como a mulher maravilha desaparece

Young mother takes a selfie while holding her sleeping baby in a cozy bedroom setting.

Eu fui criada para ser uma super-heroína. Não dessas que voam e lançam raios com as mãos, mas daquele tipo que anda pela rua disfarçada de gente normal. Quem não conhece a fundo, só de olhar de relance pensa, num primeiro momento, que se trata de uma pessoa de carne e osso.

Minha mãe sempre foi guerreira, atenta às necessidades da família e infinitamente disponível. Como toda boa aprendiz, enveredei pelo mesmo caminho da minha mestra.

Confesso que dar conta de casa, casamento, trabalho, estudo e de mim mesma nunca foi fácil. Sempre ficava uma ponta solta, um detalhe inacabado que me fazia questionar todos os outros aspectos que aparentemente estavam funcionando. Mas, depois que virei mãe, esse status de mulher invencível se tornou insustentável.

Eu atribuo tal dificuldade à privação de sono, porque leva o nosso corpo à exaustão. Depois, à culpa — minha velha companheira —, que, na função materna, adquire um peso muito maior, pois somos responsáveis por muitas coisas que impactam a vida de outra pessoa. Em seguida, ao apagamento de quem eu fui. É um xixi que fica para depois, um programa preferido de TV que vira musical infantil, um banho ou um café quente que podem esperar.

Assim, a mulher maravilha vai sumindo um pouco a cada dia e cedendo espaço para a mãe maravilha — e essa, minhas caras, é a versão evoluída da primeira, com mais poderes e responsabilidades; quase um Pokémon que muda de fase para combater um inimigo maior.

Eu observo como abro mão de mim mesma, quase de forma instantânea, enquanto meu marido briga com o meu filho mais velho pelo controle remoto. São atitudes sutis, quase invisíveis, como comer depois da criança, vestir os filhos antes de nós mesmas ou deixar que durmam esparramados na cama, nos espremendo no espaço que restou. Nada de grandioso, só pequenas decisões diárias que, ao longo do tempo, vão se somando. E, de repente, você se dá conta de que se perdeu de quem já foi um dia.

Hoje mesmo meu marido estava aqui no quarto conversando alto com o bebê dormindo. Eu JAMAIS faço isso, é quase um ato reflexo. Pedi para ele falar baixo algumas vezes, até que ele se irritou e saiu. Senti o ímpeto de ir atrás e continuar a conversa. Imaginei como ele estaria se sentindo ao tentar contar algo ao mesmo tempo em que eu tentava moderar-lhe o tom de voz. Quando ajo por impulso, grita uma voz aqui dentro me lembrando de que a mãe não pode engolir a mulher e que o casamento vem antes dos filhos.

Aí eu me lembrei de todas as vezes em que ele dormiu, sem a menor cerimônia, enquanto eu contava algo importante. Ou da vez em que ele e meu filho mais velho acordaram o mais novo com o jogo de futebol no último volume e resolveram, alguns minutos depois, que estavam com sono o suficiente para irem dormir — e eu fiquei até às três da manhã acordada com o bebê que perdeu o sono.

Nas madrugadas solitárias e em outros momentos em que uma revolta ecoa por dentro, eu me apego a qualquer coisa boa que meu marido tenha feito recentemente e fixo minha atenção nisso, para fazer de conta que há algum equilíbrio nessa distribuição de afazeres. Ajuda a me sentir menos idiota e a diminuir a angústia.

Eu amamento, com sorte, três vezes por noite. Pelo menos! Dessas três, ele acorda uma para trocar a fralda. E, apesar dessa desigualdade evidente, eu sempre ouço meu marido reclamar do cansaço para se esquivar de alguma tarefa.

Outro dia eu estava terminando a lição com o mais velho quando ele apagou no sofá. Assim, sem pedir licença. Deitou, fechou os olhos e dormiu, como quem apenas cede ao cansaço do corpo. Coisa de quem não é super-herói, só gente normal mesmo.

Eu olhei aquilo e senti raiva. Parecia justo que, se o bebê dormiu, eu descansasse em vez dele, porque sou eu que acordo mais vezes à noite.

Muitos dirão que a cama estava livre, bastando-me a coragem de deitar e fechar os olhos. Mas e a culpa de deixar o mais velho sozinho, de não estar presente para ele — o que eu faço com ela? E com a raiva que sinto toda vez que me vejo sozinha com atividades que deveriam ser compartilhadas?

Lá vou eu, novamente, tentar lembrar de alguma coisa boa para diminuir a amargura. Quando a lembrança não funciona, eu como um doce. Isso torna os dias mais açucarados e os sentimentos mais fáceis de engolir.

Eu sempre me defini como alguém exigente e perfeccionista. Por vezes me senti mal por ser rigorosa demais com meus filhos, principalmente com o mais velho. Para mim, eu era aquele tipo de mãe que nunca está satisfeita. Recentemente fui chamada à escola porque ele tem se comportado mal. Insinuaram, com muita elegância, que ele precisa de mais limites. E eu, que me sentia uma bosta por ser muito rigorosa, agora me sinto uma bosta por me achar muito permissiva.

Conversamos com ele. Ele respondeu que sente a minha falta, que eu vivo cansada e que gostava de ser filho único. Expliquei que o bebê demanda muito tempo e que tudo isso vai passar. Ele me perguntou — juro! — por que eu não trabalho e faço coisas como tomar banho e escrever (o que eu amo) enquanto todos estão dormindo. Assim, quando ele acordar, eu estarei livre só para eles.

O fato de ele ter sete anos torna essa pergunta bem menos absurda, embora eu acredite que meu marido, no auge dos seus trinta e tantos, não pense muito diferente.

Bom, eu não os culpo. Eu tenho uma mãe maravilha dentro de casa e reconheço que muitas vezes é difícil enxergar a mulher por trás da armadura.

Mas aqui, entre amigas, confesso que gostaria de ser vista e entendida como um ser humano normal — desses que precisam comer, ir ao banheiro, beber água e descansar às vezes para continuarem vivos.

Autora: Letícia Marçal – @leticiabrunamarcal

Revisora: Samantha Viriato

Deixe um comentário

Rolar para cima
0

Subtotal