Tem dias em que os dias se embolam e me sinto em um limbo em que todos os dias são iguais (apesar de serem absolutamente diferentes). Acordar, cuidar de você, dormir, acordar, cuidar de você. Não sei se hoje é final de semana, ou terça, ou sexta-feira, e nem importa. É nesses momentos que penso: “Onde foi parar a minha vida”? Aquela em que eu surfava no sábado, ia para a roda de capoeira toda terça-feira e treinava todas as manhãs. Parece uma memória distante, e me aperta o coração não conseguir ver uma intersecção entre as duas realidades. Eu sei que as coisas se aliviam em algum momento e que não vai ser um furacão para sempre, mas será que em algum momento essa minha vida de agora encontra a minha vida anterior e elas minimamente conversam entre si? Algo de quem eu era antes de você consegue sobreviver e integrar a sua vi(n)da?
Sinto falta de mim, e em seguida me sinto mal por sentir falta de mim, porque, se eu for honesta, o que eu realmente sinto falta é de uma vida sem você, e eu não quero nunca mais uma vida sem você, mas isso não muda o fato de sentir falta de mim.
Todo mundo vem cozinhar e limpar a casa para me liberar para cuidar de você. “Que benção, né? Você pode focar só no bebê”. Sim, realmente é muito bom não precisar cozinhar, a casa a gente vai levando, mas é sobre cuidar do bebê e de mim, certo? Posso cuidar de mim também? Às vezes parece que estou pedindo o mundo por querer 30 minutos para fazer um treino, poder lavar o cabelo ou comer em paz. Devo ter no máximo 2h-3h só para mim, em um dia de 24h. Eu me revolto, eu me ressinto. Vejo seu pai saindo e fico triste e feliz, feliz por ele respirar e triste por eu seguir em apneia debaixo d’água, ansiando pelas suas sonecas para que eu possa colocar a cabeça para fora um pouco e encher os pulmões de ar.
Achei que eu era altruísta o suficiente para ser mãe. Me pego revoltada, sentindo que tudo me é negado. Só tenho direito a dar mamá e cuidar do bebê. Me sinto uma criança mimada que não pode mais brincar na rua. Sofro tal qual. Vejo a camisola de pós-parto, tanta coisa em um pedaço de pano. A abertura nos seios. Comprei porque disseram que facilitaria a amamentação, só não avisaram que seria mais útil para não grudar nos mamilos que estão se desfazendo em fissuras que não toleram nada sobre eles além de oxigênio.
Como explicar a angústia do anoitecer, a ansiedade em tomar banho, jantar, escovar os dentes e estar pronta? Meu Deus do céu, tenho que estar pronta logo para o noturno, que um dia foi sinônimo de sets da madrugada em uma rave em um interior qualquer e hoje era a madrugada com o bebê, que eu nunca sabia se ia dormir às nove ou à meia-noite (ainda não sei), se ia acordar duas, três ou quatro vezes até finalmente amanhecer. Estar pronta, porque qualquer coisa menos do que pronta era uma coisa a mais para ser feita quando você dormisse e, meu bem, quando você dormisse, eu só queria desmaiar também.
É muito brusco. Ninguém fala do quão repentina e, de novo, brusca é essa mudança de realidade. Acostumada com liberdade e independência, e de repente você não pode dormir se estiver cansada, não consegue comer mesmo com fome, não consegue ficar quieta no seu canto com seu corpo porque outro ser precisa dele. De peito, de colo, de corpo.
Três semanas de Antônio, até que passaram rápido, mas também passaram devagar. Não vejo a hora do seu primeiro mês, consulta de pós-parto, pedir liberações. Por favor, liberações. Me deixa sair para correr, me deixa transar, me deixa pegar um peso, me deixa deixar você dormir todas as horas que quiser. Quando será que eu consigo sair de casa e voltar? Será que cabe na vida de uma mãe, sair de casa, deixar você só um bocadinho e voltar?
Autora: Leticia Gerola – @gerolaleticia
Revisora: Samantha Viriato





