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Dizem que que a dor mais profunda é a perda de um filho. Talvez por isso seja tão difícil lidar com um filho com ideação suicida, que pode ser difícil enxergar essa realidade. Porque imaginar o suicídio de um filho dói tanto que chega a paralisar, mas ser vencida pela paralisia aumenta as chances dessa tragédia acontecer.

Por esse motivo, a mãe nessa situação precisa dar um jeito de encontrar forças e buscar ajuda para superar seus piores medos. Somente assim será possível tentar ajudar o filho que passa por uma situação tão difícil.

De forma geral, existe uma romantização da superação. Dizem que a vida não nos dá fardos mais pesados do que somos capazes de suportar. Que uma pessoa não conhece sua força até precisar usá-la. Além do velho ditado: o que não mata, fortalece. Pode ser que todas essas afirmações sejam verdade, uma mãe se torne mais forte ao precisar lidar com a realidade de ver um filho planejando sua própria morte diariamente. Apesar de não ter certeza se a força da mãe aumenta ao passar por uma situação como essa, é fato que vivenciar o medo do suicídio de um filho torna a mãe mais sofrida.

A impotência diante desse risco deixa cicatrizes eternas na alma de uma mãe. Pudessem, todas as mães escolheriam continuar menos fortes, ou menos cientes de suas forças, para não passarem por isso. Pudessem, todas as mães optariam por nunca precisar temer pelo suicídio de um filho. Pudessem, as mães criariam um mundo onde não existissem suicídios de filhos nem mesmo na ficção.

Ver o sofrimento de um filho é doloroso desde a maternidade, desde a primeira vacina, desde o teste do pezinho. Na maioria das vezes, a mãe gostaria de poder sofrer no lugar do filho, para que este pudesse ter uma vida sem dores, problemas ou decepções. O tempo se encarrega de mostrar que não existe o mundo perfeito em que as mães gostariam que seus filhos vivessem.

Os filhos crescem sentindo dor, se machucando e vivendo a mesma realidade que as mães já conhecem. Só que nada nem ninguém prepara uma mãe para uma realidade em que o sofrimento percebido pelo filho é tão insuportável, que ele não consiga enxergar nenhuma alternativa melhor do que sua própria morte.

A juventude é uma época em que muitas pessoas se enxergam como invencíveis, invulneráveis e imunes a qualquer problema sério. Inconscientemente, as mães que passaram pela adolescência desta forma, imaginam que o mesmo se repetirá com seus filhos. As preocupações que costumam povoar os pensamentos de uma mãe não contemplam ideação suicida. Principalmente, porque esse é um problema que pode se instalar silenciosamente, sem que nenhum familiar perceba até ser tarde demais.

Por isso é tão importante a campanha do setembro amarelo. Para trazer a reflexão sobre o assunto a cada família. Para alertar sobre os eventuais sinais que precisam ser observados com atenção e cuidado. Para orientar sobre formas de pedir ajuda. Para que não seja tarde demais. E principalmente, para trazer esperança a mães e filhos que passam por essa dificuldade, através da valorização da vida e do estímulo à manutenção da saúde mental.

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Marcia do Valle
É mãe, carioca e engenheira. Começou a escrever para tentar harmonizar o que sentia com o mundo que a cercava. A partir daí, nunca mais parou, publicando o seu primeiro livro em 2005, o romance 180 Graus (Editora Marco Zero). Em fevereiro de 2020, foi lançado pela Editora Adelante seu segundo livro, uma antologia de textos sobre amor, saudade, e outros sentimentos que transbordam de suas palavras: Onde guardo as bobagens que eu contava só para você?. Após escrever em blogs e diversas páginas da internet, atualmente divulga os seus textos no instagram @marciadovalleescritora.

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