Existe uma mudança na vida de muitas mulheres que quase nunca é percebida quando acontece. Ela não chega de repente. Não tem data, não faz barulho, não pede licença. Vai ocupando espaço aos poucos, até que um dia a mulher percebe que já não escolhe mais a vida que gostaria de viver. Escolhe a vida que consegue sustentar. A maternidade muda muita coisa. Muda o corpo, muda a rotina, muda a forma como o tempo passa. Mas talvez a mudança mais silenciosa seja outra. Ela muda a relação que uma mulher passa a ter com os próprios sonhos.
Antes de um filho nascer, uma decisão costuma depender da vontade. Depois, depende da escola, do horário, do dinheiro, da rede de apoio, da saúde da criança, do trabalho e de uma lista interminável de variáveis que transformam qualquer escolha em um cálculo. Os sonhos continuam existindo. Só deixam de ocupar o primeiro lugar. E talvez isso seja inevitável. Quando um filho nasce, é natural que ele se torne prioridade. É esperado que muitas escolhas sejam adiadas. Não há culpa nisso. Há amor, responsabilidade e cuidado. O problema é quando esse adiamento deixa de ser uma fase e passa a ser um modo de viver.
Primeiro é um curso que fica para depois. Depois uma vaga de emprego. Depois um concurso. Depois uma viagem. Depois um projeto. Depois o descanso. Sem perceber, a mulher aprende a esperar. E espera tanto que, um dia, já nem sabe mais responder à pergunta mais simples de todas: o que eu quero para mim? Essa pergunta costuma ser ainda mais difícil, sobretudo quando se é mãe solo e mulher negra neste país. Porque, além da maternidade, existe o peso de atravessar desigualdades que tornam quase tudo mais demorado. Trabalhar exige mais. Estudar exige mais. Empreender exige mais. Permanecer exige mais. E, quando a vida cobra tanto, olhar para si mesma parece um luxo que sempre pode ficar para amanhã. Mas amanhã também passa.
Ao longo dos últimos anos, convivendo com mães de histórias muito diferentes, percebi que quase todas carregam uma versão dessa mesma sensação. Elas não deixaram de sonhar. Apenas aprenderam a colocar os próprios sonhos sempre depois de tudo o mais. E talvez seja justamente aí que mora o maior risco. Os filhos crescem. A rotina muda. As necessidades mudam. A vida segue. Mas a mulher não pode permanecer parada no lugar onde precisou ficar para que todos os outros continuassem caminhando. Existe um momento em que aquela luz precisa voltar a acender. Não porque os filhos deixaram de ser importantes. Mas porque antes da mãe existe uma mulher.
Uma mulher que continua tendo direito de aprender, de mudar de profissão, de empreender, de estudar, de descansar, de descobrir novos desejos e até de sonhar sonhos diferentes daqueles que tinha antes. Voltar a olhar para si não diminui o amor pelos filhos. Talvez seja justamente o contrário. Filhos também aprendem olhando.
Aprendem quando veem uma mãe que cuida, mas que também se cuida. Que incentiva, mas que também recomeça. Que apoia, mas que também ocupa o próprio lugar no mundo. Talvez a maior escolha que uma mulher faça depois da maternidade não seja decidir entre trabalho, casa ou carreira. Talvez seja outra. A de não se abandonar enquanto cuida de todos os outros. Porque há um momento em que deixar a própria vida sempre para depois deixa de ser generosidade. Passa a ser esquecimento. E nenhuma mulher deveria precisar esquecer de si para provar que é uma boa mãe.
Texto de: Líbia Ferreiras – @somosdemaeprafilho @libiaferreiras
Revisão: Angélica Filha





