Menina preta, de cabelos trançados com banha de porco.
Seu maior sonho era aprender a ler e a escrever. Queria escrever livros, mas não podia. Seu pai não permitia, dizendo que isso não era necessário. Sua mãe nada fazia para ajudá-la, pois tinha muito medo da reação dele.
Ele era um oleiro famoso, conhecido por toda a redondeza como o melhor em seu ofício. Mas, como pai, era o pior.
Um dia, ela pediu que a deixasse estudar e frequentar a escola. A resposta foi um tapa no rosto, que a jogou no chão.
Escondida, procurou uma professora e lhe contou tudo o que acontecia em casa. Comovida, a professora lhe deu uma folha de caderno com as letras do alfabeto. A menina nem sabia o nome da professora, mas jamais esqueceria aquele gesto.
Ficou radiante de alegria, pois não tinha caderno nem lápis. Pegou o papel de um pacote de macarrão, cortou-o e fez um pequeno caderno. Depois, colou as folhas usando uma cola feita de farinha e pequenos gravetos como suporte.
A menina preta e seus irmãos trabalhavam como escravos. Não tinham roupas nem um par de chinelos. Ela sentia vergonha da pobreza em que viviam, mas sua maior tristeza era não saber ler nem escrever.
Quando completou quinze anos, seu pai ficou muito doente e não pôde mais trabalhar, tornando a situação da família ainda mais difícil.
A dona da olaria pediu ao pai da menina permissão para levá-la a São Paulo, onde trabalharia na casa de sua filha. Disse que lhe pagariam muito bem e que ela poderia enviar dinheiro para ajudar nas despesas da família.
O convite foi aceito de bom grado.
A senhora ainda prometeu:
— A menina poderá frequentar a escola e aprender a ler e a escrever.
Ao ouvir aquelas palavras, ela ficou imensamente feliz. Porém, a promessa nunca foi cumprida. Continuou presa dentro da casa, trabalhando como uma escrava, sem escola e sem qualquer oportunidade de estudar.
Depois de meses vivendo trancada, apenas trabalhando, começou a chorar. Queria voltar para casa.
A senhora perguntou:
— A menina pode frequentar a escola e aprender a ler e a escrever. Então, por que está chorando? Por acaso está passando fome?
Ela respondeu:
— Não. A senhora prometeu que eu iria estudar, mas, até agora, isso não aconteceu.
A senhora comprou um caderno e um lápis e a levou de carro até o Largo do Paissandu. Parou em frente a uma igreja e disse que, em breve, ela abriria as portas e que ali funcionava a escola.
Mas não havia escola. Não existia aula alguma. Para sua surpresa, a senhora foi embora e nunca voltou para buscá-la.
Sozinha, com medo e segurando o caderno nas mãos, permaneceu diante da igreja, chorando, sem saber o que fazer.
De repente, um casal de coreanos passou pelo local e perguntou:
— O que aconteceu? Por que você está chorando?
Com lágrimas nos olhos, a menina contou tudo o que havia acontecido.
Comovidos, eles decidiram levá-la para a casa deles, depois de fazerem algumas perguntas.
Eram donos de um restaurante. Ela passou a cuidar da casa e, durante a noite, tomava conta da neta do casal.
Mais uma vez, o sonho de estudar ficou para trás.
Certo dia, a senhora a chamou para irem ao Mercadão de São Paulo.
No caminho, encontraram um homem em situação de rua, com as roupas sujas, revirando o lixo.
A senhora disse:
— Está vendo aquele homem? Ele é médico, fala vários idiomas e vive nas ruas, sobrevivendo do que encontra no lixo.
A menina preta ficou profundamente impressionada com aquela revelação e não conseguia acreditar no que via.
Na semana seguinte, enquanto estendia roupas no varal da sacada do apartamento, viu aquele homem debaixo do viaduto.
Sem pensar duas vezes, desceu às pressas para encontrá-lo.
Ao se aproximar, perguntou:
— O senhor sabe ler e escrever?
Ele respondeu:
— Por quê? Para catar lixo, precisa saber ler e escrever?
Num impulso de coragem, ela disse:
— O senhor, por favor, poderia me ensinar a ler e a escrever?
Ele respondeu:
— Mas eu não sou professor!
Com seu jeito meigo, a menina explicou toda a sua história e, então, fez uma proposta.
Se ele lhe ensinasse a ler e a escrever, todos os dias ela lhe daria um prato de comida.
O homem se animou e aceitou o acordo.
A partir daquele dia, debaixo do viaduto, nasceu a sua escola.
Foi ali, entre o barulho dos carros, o frio do concreto e as dificuldades da vida, que a menina preta começou, enfim, a aprender a ler e a escrever.
Aquele senhor de barbas compridas e de roupas maltrapilhas foi seu melhor professor.
Com tábuas, papelão e giz iniciou-se a magia de ensinar.
Ela absorvia o aprendizado com voracidade, encantada com as letras, aprendendo tudo o que podia.
Com oito meses aprendeu a ler e escrever, principalmente o seu nome.
Tudo isso, sem que minha patroa soubesse.
Um dia, aquele senhor lhe disse:
— Sinto muito, mas infelizmente, eu não posso mais lhe dar aulas, porque preciso ir embora daqui.
Caminhou uns passos, enquanto ela olhava com muita tristeza e algumas lágrimas no olhar.
Ele vendo-a naquele estado, virou e tirou de seu bolso uma caixinha descascada e…
— Quando alguém lhe ajudar em seu livro, você entrega-lhe isso.
Você lançará um livro e quando acontecer, vou lhe encontrar.
Ela ficou muito triste e não continuou com o aprendizado.
O tempo passou, casou-se achando que poderia continuar seu estudo, mas foi em vão.
Seu marido não deixou, com seu machismo dizia:
— Mulher minha, não precisa saber ler e escrever, só trabalhar.
Decepcionada foi vivendo ao seu lado. Teve cinco filhos, quatro meninas e um menino.
O rapaz, já com trinta anos, presenteou-a com um Tablet, pois conhecia o seu sonho.
Acessou vários Sites de professores que ensinavam a língua portuguesa online.
Dessa forma, foi aprendendo cada vez mais.
Finalmente, conseguiu aos poucos escrever o seu livro.
Trabalhava de faxineira e nos momentos livres escrevia e escrevia, realizando o seu sonho de menina preta.
Um dia, chegou em casa e encontrou seu filho febril, passando muito mal e correram para o hospital, mas não houve jeito, veio a falecer.
Diante desse fato, o chão faltou a seus pés, chorava e gritava, clamando a Deus que a ajudasse a superar a sua dor.
Aos poucos, com coragem, abriu a gaveta, pegou o caderno e terminou o seu livro em julho de 2021.
O livro foi publicado pela Editora Novo Mundo, seu sonho se realizava com seu primeiro livro, titulado “Um Estranho Romance”.
Em 2026, participou do livro “Antologia dos Sonhos” e agora com o Conto “Meus Gravetos”.
Ela foi uma guerreira, com força de vontade de vencer e se sente muito grata por toda a ajuda que teve na realização de seu sonho. — “Ser Escritora” — sendo uma Mãe Preta.
Todo sonho é possível de realização, desde que não desista da batalha.
Fim
Autoria: Maria Eugênia Rodrigues – @maria5246eugenia





