Menos culpa, mais presença: o desafio das telas na infância
Outro dia, uma mãe chegou ao consultório e já foi logo dizendo: “não me julgue, meu filho usa celular todos os dias e eu não controlo o tempo.” Não a julguei, nem me surpreendi porque o que ela disse retrata algo muito comum atualmente: Nunca tivemos tantas informações sobre os prejuízos do excesso de telas e, ao mesmo tempo, nunca foi tão difícil criar filhos sem recorrer a elas. Vivemos conectados e eles já nasceram assim. Trabalhamos, resolvemos problemas, pagamos contas pelo celular e, muitas vezes, somos obrigados a cuidar dos nossos filhos enquanto respondemos mensagens, participamos de reuniões ou tentamos dar conta da casa. Então, antes de qualquer orientação, quero dizer uma coisa importante: o que nos educa é a informação, não a culpa.
Existe uma grande diferença entre usar a tecnologia como apoio e transformá-la na principal companhia da criança. Os primeiros anos de vida são um período extraordinário. O cérebro infantil cresce em uma velocidade que nunca mais se repetirá. Milhões de conexões são formadas a partir das experiências vividas: uma conversa durante o banho, uma brincadeira de esconde-esconde, uma história contada antes de dormir. É brincando e vivenciando que a criança aprende a compreender o mundo e nenhuma tela consegue reproduzir isso com exatidão.
Por esse motivo, a Organização Mundial da Saúde recomenda que crianças menores de dois anos não sejam expostas às telas (com exceção das videochamadas com familiares, claro) e que, entre dois e cinco anos, o tempo seja limitado a, no máximo, uma hora por dia, sempre com conteúdo apropriado e acompanhado por um adulto. Essas recomendações não surgiram por acaso. Nos últimos anos, pesquisadores têm observado uma associação entre o uso excessivo de telas na primeira infância e maiores dificuldades relacionadas ao desenvolvimento da linguagem, da atenção, da qualidade do sono e das habilidades socioemocionais. Embora cada criança seja única e os estudos não permitam afirmar que a tela seja a única causa desses problemas, existe um consenso importante: quando ela substitui as interações humanas, o brincar livre e o movimento, o desenvolvimento pode ser prejudicado, mas existe um detalhe que merece nossa atenção: o que a criança deixa de viver enquanto está em frente à tela.
Uma hora assistindo a um desenho depois de uma tarde inteira brincando no quintal, ouvindo histórias e conversando com os pais é muito diferente de passar horas consecutivas diante de vídeos porque não existem outras possibilidades de interação. O cérebro infantil precisa de movimento, texturas, cair e levantar, montar torres e vê-las desmoronar, ouvir diferentes tons de voz, precisa do ‘olhar nos olhos’. É nessas experiências aparentemente simples que acontecem os maiores aprendizados.
Como neuropsicopedagoga, percebo que muitos pais carregam muita culpa. Eles sabem das recomendações, mas vivem uma realidade muito distante do cenário ideal: mães solo, pais que trabalham em casa, famílias sem rede de apoio, avós que cuidam dos netos, casais que chegam exaustos ao fim do dia. Nessas circunstâncias, às vezes o celular se torna um recurso, não uma escolha. Reconhecer isso não significa defender o uso indiscriminado das telas, mas compreender que orientar famílias exige empatia.
A ciência também nos mostra algo bastante interessante: a forma como os adultos participam do uso das telas faz diferença. Estudos sobre mediação parental indicam que conversar sobre o conteúdo, assistir junto, estabelecer limites e escolher materiais adequados reduz muitos dos riscos associados ao uso das mídias digitais. Em outras palavras, a presença do adulto continua sendo o fator mais importante.
Talvez, então, a pergunta não seja apenas: “Meu filho usa telas?, mas: “Como essas telas estão sendo usadas?” Elas aparecem durante todas as refeições? São utilizadas para fazer a criança comer? Substituem as brincadeiras? Ficam ligadas durante horas como plano de fundo da casa? Ou são um recurso pontual, dentro de uma rotina rica em conversas, movimento, livros, brincadeiras e convivência? As respostas a essas perguntas significam muito.
E quando realmente não há outra alternativa? Vale pensar em estratégias que diminuam a necessidade de recorrer ao celular todas as vezes. Uma caixa de brinquedos que só aparece nesses momentos costuma despertar bastante interesse. Não precisa ser nada caro demais, mas materiais acessíveis que todo mundo tem em casa: potes plásticos, pregadores de roupa, blocos de montar, massinha, adesivos, caixas de papelão, panelinhas, lápis de cor e livros podem ocupar uma criança por muito mais tempo do que imaginamos.
Outra possibilidade é incluir a criança na rotina da casa. Enquanto você dobra roupas, ela pode separar meias por cores; enquanto prepara o almoço, pode lavar legumes, mexer uma massa ou brincar com utensílios seguros. Muitas vezes, aquilo que para nós parece uma tarefa comum é, para ela, uma grande e divertida descoberta.
Também vale lembrar que o tédio não é um inimigo. Nós nos acostumamos a preencher cada minuto da infância com estímulos, mas é justamente quando a criança diz “não sei o que fazer” que a criatividade começa a trabalhar. Nem sempre precisamos resolver esse desconforto entregando um celular. Às vezes, basta esperar alguns minutos e ela provavelmente inventará uma brincadeira.
Gostaria de terminar esta primeira conversa deixando uma reflexão: nossas crianças certamente saberão usar tecnologias muito melhor do que nós. O que elas talvez não aprendam sozinhas é olhar nos olhos durante uma conversa, esperar a sua vez, lidar com dificuldades, criar histórias e construir vínculos. Isso continua dependendo dos adultos. Não precisamos criar uma infância sem tecnologia, apenas garantir que a tecnologia nunca ocupe o lugar daquilo que faz uma criança verdadeiramente crescer. O desenvolvimento infantil acontece nos pequenos detalhes cotidianos: um livro lido mil vezes, uma caminhada até a padaria, uma conversa durante o banho, um abraço quentinho durante o choro. Esses momentos constroem o cérebro, fortalecem os vínculos e permanecem na memória muito depois que a tela se apaga.
Referências
FLAIBAM GIOVANELLI, J. et al. Mediação parental no uso de telas por crianças e adolescentes: uma revisão sistemática da literatura. Ciências Psicológicas, v. 19, n. 1, e-4130, 2025. DOI: 10.22235/cp.v19i1.4130.
NOBRE, J. N. P. et al. Fatores determinantes no tempo de tela de crianças na primeira infância. Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 3, p. 1127-1136, mar. 2021. Disponível em: SciELO Brasil. Acesso em: 2 ago. 2026.
SOCIEDADE BRASILEIRA DE PEDIATRIA (SBP). Grupo de Trabalho Saúde na Era Digital (2022-2024). #Menos Telas #Mais Saúde: atualização 2024. [Rio de Janeiro]: SBP, 2024. Disponível em: https://www.sbp.com.br/fileadmin/user_upload/24604c-MO__MenosTelas__MaisSaude-Atualizacao.pdf. Acesso em: 7 maio 2026.
WORLD HEALTH ORGANIZATION (WHO). Guidelines on physical activity, sedentary behaviour and sleep for children under 5 years of age. Geneva: World Health Organization, 2019. Disponível em: https://iris.who.int/handle/10665/311664. Acesso em: maio, 2026.





