A solidão de uma madrugada acompanhada

Eu tinha acabado de me servir um prato de batata assada com costelinha quando ela acordou pela primeira vez naquela noite. Costelinha é um dos meus pratos preferidos e eu estava com muita fome. 

Mas coloquei o prato no micro-ondas e fui lá acolher o choro abafado que vinha do quarto. 

Colinho, tetê, denguinho. Chora, resmunga, pega o tetê, larga o tetê. Vira para um lado, vira para o outro. Me procura de novo. Mais um resmungo. Mais uma dose de tetê. Virou para o lado, dormiu. Ufa!

Saio da cama num movimento cheio de cuidado e muita pressa. Pego o prato no micro-ondas. Enfim, vou comer minha costelinha! 

A essa altura, o estômago já reclamava. Duas garfadas e ouço o choro dela de novo. Espera! Vai que ela volta a dormir!? 

Às vezes acontece. Mais duas garfadas e o choro continuava. Prato no micro-ondas. Vamos lá, de novo. Colinho, tetê, denguinho. 

Dessa vez, o choro estava mais intenso. O tetê não bastou para acalmá-la. Ali eu entendi: a noite seria longa. Ela precisava da minha presença. Mas, quando entendi, desabei.

As lágrimas escorriam enquanto eu tentava acalentá-la e fazer com que ela dormisse. Eu me vi de novo em uma daquelas noites intermináveis em que ela só dormia no colo, enquanto o sono, o cansaço, a ansiedade, a dor no corpo e a tristeza me consumiam.

Depois de alguns longos minutos, ela dormiu. Coloquei-a na cama. Chorou. 

Meu estômago continuava reclamando. Corri para pegar o prato enquanto ela chorava cada vez mais alto. Coloquei o prato ao meu lado na cama e ela no colo. 

Ela se aninhou, resmungou mais um pouco enquanto eu comia a comida fria, em outro movimento de pressa e cuidado para não fazer barulho e despertá-la.

Ela dormiu. Senti que estava quente. Ah, meu Deus! Será febre? De novo? Procura o termômetro. Cadê? Não sei! Não lembro! Onde coloquei? Que inferno! 

A criança começa a chorar alto. Eu, chorando por dentro. Fui até a sala gritar de desespero com a almofada no rosto. 

CA-DÊ O TER-MÔ-ME-TRO? Não acho! Respira! 

Acho que não é febre, não. Vou esperar. Se ficar mais quente,  dou um remédio.

Volto para a cama. Ela volta para o colo. Desculpa, filha. Está tudo bem. Vamos descansar.

Tetê. Dormiu. Tentei colocar na cama, chorou. Colo. 

Ajeitei os travesseiros e encostei. Dor na lombar. Chorei de novo.

Dormiu encaixada entre meu colo e o travesseiro. Passou o restante da noite entre os pequenos despertares e a incansável procura pelo aconchego do tetê. Consegui contar doze  despertares  naquela noite.

Às 5h30, abriu os olhinhos, sorriu, me deu um beijo na bochecha e disse “diaaa”, com toda a felicidade que ela exala em todas as manhãs. 

Eu sorri, devolvi o bom-dia e o beijo na bochecha, como se tivesse dormido a melhor noite de sono da minha vida.

Eu poderia estar falando só de uma noite específica, mas a verdade é que estou falando de várias das infinitas noites sozinhas, desde quando ele foi embora.

Texto de: Dangê ua Lunda – @dange.ua.lunda

Revisão: Bibianne Terra

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