A teimosia de uma mãe em luto

Primeiro fui tentante, mas não tentante convencional. Fui tentante sangrando…

Era isso que a endometriose fazia, enquanto eu passava a a lutar incansavelmente pela maternidade.
Coito programado. Tabelinha. Cirurgias…1, 2, 3, 4… Foram 5 cirurgias.

Daí veio a fertilização in vitro e a entrada em um mundo ao qual eu não sentia que pertencia: uma clínica de fertilização. Eu só via,  em novelas, o tal do bebê de proveta. Assim chamavam antigamente. 

Estar em uma clínica assim e não ser o “padrão” era algo estranho. Me olhavam estranho, eu me sentia estranha, como se aquele lugar não fosse para mim, uma jovem “cor de cuia”, de cabelo crespo alisado. 

Mas segui. Como um peixe fora d’água, como uma exceção à regra.

Lutei para ser mãe. Escutei que tinha sorte por ter um companheiro compreensivo, que eu deveria erguer as mãos aos céus e agradecer por ele, nunca o contrário. Afinal, eu era cheia de problemas.
Primeira fertilização. Positivo! Milagre.
A gestação seguiu o fluxo de uma gravidez normal, e eu estava me achando! Radiante. Intocável.

Até que, em um dia qualquer, prestes a completar 24 semanas de gestação, senti uma dor de barriga, daquelas típicas de crise de intolerância à lactose. 

Eu, como uma intolerante que consumia leite sem limites, já conhecia aquela dor. Ou achava que conhecia.
Achei prudente ir à emergência. Afinal, eu estava grávida.
Cheguei ao hospital. Pandemia no auge. Dezembro de 2021.
Entrei sem ter direito a acompanhante e expliquei o que senti. Uma obstetra me examinou e perguntou:
— Como tu não percebeu isso?
Eu, atônita, falei:

— Isso o quê?

Ela seguiu:
— Teu bebê está no canal vaginal, nasce hoje e, com 23 semanas, não sobrevive.
Assim, nu e cru.
Entrei em transe e ouso dizer que fiquei burra na hora. Aceitei o que me era imposto. Fui para a sala de parto, muito linda, com tema de girassol, minha flor predileta.
Por lá foram 24 horas em trabalho de parto.
Eu e meu companheiro em transe.
Ele, engenheiro, buscando estatísticas de bebês que sobreviveram com aquela idade gestacional. Eu já estava consciente de que  iria parir uma ausência.
Fecharam-se 24 horas. Vieram e furaram a bolsa com o dedo. Ela já estava na vagina. 

Minha filha nasceu! Não a vi. Não a peguei. Não houve oi. Não houve tchau.
O silêncio da sala ocupou tudo!
Meu marido saiu correndo atrás de quem a pegou. Perguntou se iriam investir nela. Escutou que a prioridade era a mãe. E eu era a mãe.
Obviamente, eu não queria ser essa prioridade. Ninguém me perguntou nada.
Fui para o bloco cirúrgico, curetagem.
Minha filha morreu.
Fiquei internada alguns dias, sem direito a ir no sepultamento.
Cheguei em casa sem barriga. E sem bebê.
O luto é um limbo entre o tudo e o nada, e eu estava nesse limbo, sozinha e com os seios escorrendo leite. Foi traumático. Foi coisa de gente grande.
E logo eu, que sempre me achei pequena…Pequena segui.
Com um sonho que chega a ser teimosia. Parti para a segunda fertilização.
Positivo. Aborto.
Havia comprado uma roupa de bebê com tema de arco-íris, com frases lindas sobre recomeço.
Quando voltei do hospital com um laudo de abortamento incompleto, joguei fogo na roupinha.
Revoltada e com dor. Mas teimosa.
3º fertilização. Positivo. Gêmeos!
Com 6 semanas, um sangramento. Um bebê parou. O outro seguia bem. O outro grudou…
Mas foi preciso uma guerra, e eu, em luto, entrei para sair da guerra viva ou morta.
Foram exatamente 37 semanas de repouso absoluto. Uma cirurgia de cerclagem com 26 semanas. Pré-eclâmpsia para fechar o combo.
E eu quase enlouqueci. Pouco compreendida em um hospital elitista, me senti um peixe morrendo afogado. Fui internada muitas vezes. 

Minha filha nasceu viva e bem.
O nome? Mariana.
A irmã era Maria. Maria mora dentro do nome Mariana.
A história teve um desfecho inimaginável.
Sigo em luto pelas perdas, pela minha primogênita. Sigo na luta pelo direito ao luto sem prazo de validade.
Enterrar um filho é enterrar um pouco de si.
Mas hoje sou mãe de uma bebê que ficou.
Sou a resistência. Sou a teimosia da vontade de maternar com o colo cheio.
Sou tudo e sou nada,
Mas, como mãe, sou a melhor que minhas meninas poderiam ter.

Texto de: Maria Karoline @maedecolovazio

Revisão: Bibianne Terra

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