A diversão de uma mãe sempre inclui os filhos.
Na primeira oportunidade de lazer que tem, ela já pensa: “Ah, como eles iam amar isso!”
Os afazeres domésticos, o trabalho na empresa e os compromissos extras acabam tomando tanto tempo que ela nem se lembra da última vez em que destinou um tempinho só para ela. As folgas, ultimamente, têm se limitado a fazer as unhas de vez em quando – porque até o cabelo tem retocado em casa.
Pausa.
Seu corpo há tempos pede uma pausa. Eis que então resolveu ouvi-lo.
Largou pra trás tudo e foi pro mar.
Ah, ela nem se lembrava mais de como isso era bom.
A brisa, a maresia, o calor.
Pé na areia, livre!
Mas não pensem que foi simples essa decisão de partir sem os filhos.
Ela se culpou. Será que era justo com os pequenos deixá-los?
Ela hesitou por muitas vezes. Imagina o que vão dizer? Que mãe é essa que vai se divertir e deixar os filhos?
E é isso que fazem conosco. Nos fazem sucumbir no maternar, quando, na verdade, todo mundo ganha quando a mãe está bem, se sentindo viva, completa, amando a si mesma.
A mãe se esquece de que, antes de tudo, é mulher e pode e merece transitar por todos os lugares que sua personalidade caminhar. Porque ela pode alçar grandes voos ou apenas sentir com seus pés descalços a terra e sujar seus pés como quando criança, agora com suas crianças.
Nada disso a fará menos mãe. Pelo contrário. Seus filhos verão o quão humana sua mãe ainda é, mesmo vivendo num mundo que quer nos engolir a todo instante.
E, mesmo estando longe deles, o pensamento não deixou de acompanhá-la. Todo lugar pelo qual ela passava, em sua mente vinha o mesmo pensamento: “Nossa, como eles iam gostar disso!”
Mas, dessa vez, esse pensamento não precisava significar renúncia. Ela podia pensar nos filhos e, ainda assim, aproveitar aquele momento que era só seu.
As vivências consigo mesma deveriam fazer parte da cartilha de toda mãe. Estar de bem consigo, por dentro e por fora, faz com que a vida (ou as vidas) de quem está ao seu redor seja mais leve – mesmo com os perrengues do dia a dia.
O mar a fortaleceu.
E, naquele momento, percebeu o quão injusto é o mundo que esfrega na nossa cara que não devemos parar.
“Trabalhe enquanto eles dormem…”
A mãe preta quer é descansar!
Por que é que eles podem dormir e nós temos que trabalhar?
Queremos gozar e desfrutar das delícias da vida também.
Queremos ser reconhecidas e valorizadas pelo trabalho que fazemos, seja ele qual for.
Só nós sabemos o quanto é preciso ralar para sermos notadas. Não pela fama, mas pela competência que sabemos bem que temos. Porque, se tem uma coisa que fazemos, é trabalhar.
Seja deixando a casa limpa, organizada e pronta para o dia seguinte; seja nas oito horas (ou mais) de trabalho cumpridas; seja na junção de tudo isso, onde o tempo parece escorrer pelas mãos.
Aí sempre vem alguém dizendo que todo mundo tem as mesmas 24 horas… Que balela!
Mãe não tem um minuto de paz e, quando busca por ela, vêm a cobrança, a culpa e o arrependimento: “Devia tê-los trazido comigo!”
Mas, quando ela tem companhia segura pelo caminho, ela entende que sim: “Eu mereço ser feliz!”
E estar por um pequeno momento sem seus filhos não a faz uma péssima mãe. Pelo contrário. Significa que ela também precisa estar bem, para o bem maior, que são seus filhos.
E talvez seja justamente isso que ela precise aprender: que cuidar de si também é uma forma de cuidar dos seus.
Que ser mãe não precisa significar desaparecer.
Que amar seus filhos não deveria exigir que deixasse de amar a si mesma.
E, enfim, o sonho de menina se realizou – porque não importa por quantas primaveras ela já tenha passado, sonhos de meninas precisam ser realizados!
Sal.
Mar.
Maré.
Amar.
Salgar a alma.
Armar a alma.
E assim, a mãe preta foi sarada (ou sargada).





