Tempo de leitura: 2 minuto(s)

Estou há dois dias sem minhas filhas. Assisti filmes e terminei de ler um livro. Fui à uma exposição. Jantei em restaurantes com comidas apimentadas e bem temperadas. Caminhei tranquilamente nas ruas olhando vitrines. Descansei. Conversei assuntos diversos com meu marido sem ser interrompida. Pensei no meu futuro. Estou plena, em grande estado de alegria, absolutamente completa. Sim, eu amo estar sem minhas filhas.

E nesse clima, resolvi assistir “A filha perdida”, um filme tenso baseado no livro de Elena Ferrante. Um tipo de suspense onde nada e tudo acontece. Uma mãe arrasada e culpada. Cansada e irritada. Saudosa e amorosa. Dissimulada. Cheia de sonhos, desejos e projetos grandiosos. Engolida pelos cuidados com as filhas. Fuga, abandono, prestígio, projetos realizados e amores vividos. Uma mãe egoísta, sensível, presa em memórias doces e amargas com as filhas. Uma maternidade complexa, paradoxal e tão verdadeira que me causou angústia e alívio. Assim, inexplicavelmente tudo junto.

Daqui duas horas buscarei as meninas na casa da minha mãe. Penso no abraço apertado, no cheirinho do pescoço e nos beijos descontrolados. No contar das histórias sem pé nem cabeça. Já começo a imaginar as brincadeiras que fizeram e os jogos que jogaram. E claro que nem tudo são flores! Tem as brigas, disputas e, mesmo assim, um sorriso maroto me atravessa o rosto. No fundo, eu sei que amo esse cotidiano maluco que vivemos.

É estar longe para eu só pensar nelas e prometer toda a minha vida a elas. Porque se perco parte de suas vidas, temo perder da minha. Mas se entrego toda a minha vida, temo me perder. Confuso né? Sim, pois a maternidade não se explica, não se esgota e não realiza sonhos. São perdas e ganhos e ganhos e perdas numa espiral infinita.


Autora: Jessica Marzo – Instagram: @jemarzo.


Texto revisado por Luiza Gandini.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui