“Eu tinha apenas 15 anos”.
Enquanto minhas amigas chamavam a mãe para contar sobre seus problemas, para pedir um colo, um conselho, uma comida de conforto, para chorar por um amor que não deu certo ou simplesmente para ouvir alguém dizer que tudo ficaria bem, eu era a mãe. Enquanto elas ainda descobriam quem eram, eu aprendia a cuidar de alguém. Enquanto elas tinham para quem correr quando o mundo parecia grande demais, eu precisava aprender a ser o lugar seguro de alguém. Eu era a mãe que diziam que “não sabia de nada”, a menina que, aos olhos de muitos, era jovem demais para entender a vida, mas que, na prática, precisava aprender tudo muito rápido. Eu era a mãe que criava o filho sozinha enquanto ainda estava no ensino médio. E talvez ninguém tenha percebido o tamanho daquilo que eu carregava, porque eu mesma ainda estava tentando entender o que significava carregar uma responsabilidade tão grande sendo tão pequena.
A vida não esperou que eu estivesse pronta. Ela simplesmente colocou um filho nos meus braços e me ensinou, na marra, que algumas pessoas precisam amadurecer antes da hora. Eu tive medo, errei, chorei escondida, senti raiva, solidão, cansaço e, muitas vezes, não sabia qual seria o próximo passo. Mas continuei. Porque eu tinha um filho para criar e, antes mesmo de aprender a cuidar de mim, precisei aprender a cuidar dele.
Eu tinha 20 anos quando era mãe de uma criança de 5 anos. Enquanto ensinava a ele as letras do alfabeto, aprendia a minha profissão: Serviço Social. Eu estudava, trabalhava, cuidava da casa, organizava a rotina, preparava a comida, dava banho, cuidava da roupa, acompanhava as tarefas da escola e tentava fazer caber tudo dentro das 24 horas de um dia. Enquanto aprendia na faculdade sobre direitos, vulnerabilidades, políticas públicas e proteção social, aprendia também, na vida real, sobre resistência, responsabilidade e sobrevivência. Eu renunciava a uma parte da minha juventude para ter tempo de qualidade com meu filho. Não tive tantas festas, grandes aventuras, viagens improvisadas ou histórias bafônicas para contar. Minha juventude foi muito mais silenciosa. Foi feita de banho, roupinha limpa, casa organizada, comida no horário, tarefas da escola, faculdade, trabalho e noites em que o corpo pedia descanso, mas a vida pedia que eu continuasse.
Não havia uma rede de apoio para dividir comigo o peso. Não havia alguém para dizer: “Deixa que eu cuido dele hoje, vai viver um pouco”. E, se houve choro, era o choro dele; eu não tinha tempo para chorar, mesmo em uma relação abusiva. Não porque eu fosse forte o tempo todo, mas porque aprendi que precisava ser, ao menos diante dele. Eu podia desabar depois que ele dormisse. Mas, no dia seguinte, eu levantava e fazia tudo novamente.
Eu tinha 25 anos quando era mãe de uma criança de 10 anos. E foi nessa fase que comecei a compreender que ser mãe não era apenas alimentar, proteger, educar, acompanhar a escola ou garantir que nada faltasse. Ser mãe também era olhar para dentro de mim e questionar aquilo que eu havia aprendido. Comecei a reconhecer os padrões tóxicos da minha família e a perceber quantas coisas poderiam ser repetidas sem que eu sequer percebesse. Eu me perguntava se estava reproduzindo aquilo que um dia havia me machucado. Tentei quebrar ciclos. Tentei aprender uma nova forma de educar, de conversar, de estabelecer limites e de amar. Nem sempre consegui, mas tentei.
Ao mesmo tempo, eu precisava compreender aquela criança que já começava a deixar de ser criança e eu deixava de ser adolescente. Uma nova personalidade aparecia, novas vontades, novos questionamentos, formas de enxergar o mundo. Eu precisava aprender a respeitar quem ele estava se tornando sem tentar transformá-lo naquilo que eu imaginava que ele deveria ser. E enquanto tudo isso acontecia em casa, eu lutava para conseguir meu primeiro emprego na minha área. Eu queria crescer profissionalmente, queria conquistar minha independência, queria oferecer ao meu filho uma vida melhor e queria provar, principalmente para mim mesma, que todos aqueles anos de estudo, esforço e renúncia não tinham sido em vão.
Eu tinha 30 anos quando era mãe de um adolescente de 15 anos. E foi quando percebi que algumas fases da maternidade doem de um jeito que ninguém explica. A infância havia passado. Aquele menino que eu havia carregado no colo agora queria distância, autonomia, liberdade e respostas que nem sempre eu tinha. A adolescência chegou trazendo questionamentos, conflitos, mudanças e uma ruptura que me decepcionou comigo mesma. Eu me perguntava onde havia errado, o que poderia ter feito diferente, em que momento havia deixado de ser suficiente. Eu queria proteger meu filho de tudo, mas descobri que não podia. E talvez essa tenha sido uma das maiores dores da minha maternidade: perceber que amar alguém profundamente não significa ter o poder de impedir que essa pessoa sofra.
Foi também quando senti uma angústia que puerpério nenhum conseguiria explicar. Eu precisava de uma mãe. Precisava de colo, de alguém que dissesse que eu estava fazendo o meu melhor, que eu não havia fracassado, que aquela fase também passaria. Precisava ser filha por alguns minutos. Mas a mãe era eu. Mais uma vez, a mãe era eu. Então respirei fundo e continuei, mesmo sem ter certeza de que estava fazendo tudo certo.
Eu tinha 35 anos quando era mãe de um jovem de 20 anos. E, de alguma maneira, comecei a reencontrar o menino que conheci desde o ventre. Ele já era um homem, com suas próprias escolhas, responsabilidades e caminhos. A maternidade começou a mudar de lugar dentro de mim. Eu já não precisava resolver tudo. Já não precisava estar presente em cada detalhe. E, pela primeira vez, comecei a entender que eu também poderia existir para além da maternidade.
Comecei a me reconhecer como pessoa, como mulher, como profissional. Comecei a cuidar de mim, porque agora já não era egoísmo. Eu havia feito o meu trabalho até ali. Com os recursos que tinha, com a maturidade que possuía em cada fase, com todos os erros e acertos possíveis. Eu havia chegado até onde conseguia chegar.
Eu completei 40 anos. Hoje, mãe de um jovem de 25 anos, olho para trás com orgulho. Orgulho da menina de 15 anos que não sabia quase nada, mas aprendeu e jamais esquecerá cada aprendizado. Orgulho da jovem de 20 que dividia a vida entre filho, faculdade, trabalho e responsabilidades. Orgulho da mulher de 25 que decidiu romper ciclos. Orgulho da mãe de 30 que chorou porque não sabia mais como alcançar o filho, mas continuou tentando. Orgulho da mulher de 35 que finalmente percebeu que também merecía espaço na própria vida.
Eu perdi algumas coisas, sim. Perdi parte da juventude, algumas experiências, alguns momentos em que também gostaria de ter sido cuidada. Mas construí muito mais do que consigo explicar. Construí uma história, uma profissão, uma casa, uma família, um vínculo e, principalmente, construí a mim mesma.
Durante muito tempo, achei que minha história começava quando me tornei mãe. Hoje sei que não. Eu era uma menina antes de ser mãe. Fui uma mulher enquanto aprendia a ser mãe. E agora, aos 40, começo a descobrir quem sou quando não estou cuidando de ninguém. Meu filho cresceu e eu não preciso mais crescer apenas por ele. Agora posso crescer por mim. Posso viver coisas que ficaram para depois, fazer planos, conhecer lugares, descansar sem culpa, rir alto, sonhar e escolher.
Hoje entendo que aquela menina de 15 anos também merecia colo. E, mesmo não tendo recebido todo o colo que precisava, ela conseguiu sobreviver. Mais do que isso: ela conseguiu amar, estudar, trabalhar, criar, romper ciclos e chegar aos 40 anos, VIVA!
Когда olho para o homem que um dia foi o menino que eu carregava no colo, percebo que nós dois crescemos juntos. Ele se tornou quem é, e eu me tornei quem sou. Não foi uma trajetória perfeita. Foi uma trajetória possível. Foi feita de renúncias, medos, escolhas difíceis, lágrimas, abraços, cansaço, conquistas e incontáveis recomeços. Mas foi nossa. E se hoje eu pudesse voltar no tempo e encontrar aquela menina de 15 anos, eu não diria que tudo seria fácil. Eu apenas a abraçaria e diria: “Você não precisava saber tudo. Você só precisava continuar. Um dia, você vai olhar para trás e entender que aquela menina que todos achavam que não sabia de nada sabia, na verdade, de uma coisa muito importante: ela sabia amar. E foi esse amor que trouxe nós duas até aqui.”
Por Maíra Matos Franzmann, Mãe do Guilherme Matos





