Paternar como escolha de homens corajosos

A beleza da neuroplasticidade provocada pelas experiências de cuidado é impressionante. O chamado cérebro parental se transforma quando somos envolvidos pelo ato de cuidar. Hipotálamo, hipófase, amígdala e córtex pré-frontal são algumas estruturas cerebrais que se transformam com a experiência do cuidado. É preciso muita coragem para se deixar envolver por essa vivência.

Pesquisas científicas mostram que cuidar não é algo inato. Generificado culturalmente, é uma experiência construída nas relações, provocada pela vivência e por percepções do que é ser família (Cláudia Fonseca, 2001; Ana Paula Martins, 2004; Maria Cláudia Dal’Igna, 2011). Podemos escolher ou não fazer parte desse processo de transformação e aprendizagem.

Ser genitor e ser quem paterna, assim como ser genitora e alguém que materna, possui diferenças profundas. São escolhas atravessadas por histórias de vida e por modos de ser que ocupamos no mundo: ser homem, ser mulher, ser LGBTQIAPN+, pertencer a determinada raça, religião, classe social, cultura.

Sabendo das inferências desses atravessamentos, me apresento como uma mulher, mãe, cis, heterossexual, branca, casada, professora. Neste ano finalizo o mestrado em Educação, que trata em grande parte sobre a maternidade.

Ao pesquisar sobre sentidos relativos à relação família-escola no período das enchentes de maio de 2024 no Rio Grande do Sul, veiculados e produzidos no jornal GZH, identifico muitas representações do que é ser mulher-mãe e sua constante relação com o processo de cuidar. Ao não encontrar em linguagem explícita identificações sobre o que é ser homem-pai, o jornal me mostra o endereçamento em relação ao cuidado no período destacado.

No jornal, o dia das mães é permeado por homenagens e exaltações à mulher que cuida, materna e é narrada como super-heroína. No dia dos pais, o paternar é invisibilizado. Isso se destaca no ano das enchentes e um ano após elas também. Como este foi um dos resultados da minha pesquisa, tento produzir outros sentidos nessa escrita. A forma como começo o texto que ora apresento a vocês traz alguns indicativos.

A escolha de cuidar modifica os corpos de quem cuida, inclusive deles, dos pais que paternam. A coragem dos homens que bancam que o amor e a sensibilidade valem a pena precisa ser também publicizada. Naturalizar o que culturalmente foi negado e estranhado também é um processo de cuidado com os homens, com as mulheres, com as crianças, com as pessoas de modo geral.

Olhar para esse tema de outros modos pode provocar diversas inquietações, e uma delas é pensar que o homem que escolhe cuidar e exercer a paternagem enfrenta uma rede de discursos e produtos culturais que o provocam constantemente à inércia com relação ao cuidado. Podem o deixar em uma zona de conforto e ao mesmo tempo podem produzir descuidos, a exemplo de cursos e discursos que por vezes colocam pessoas umas contra as outras ao sugerir que existe forma certa de ser homem e de ser mulher, assim também apagando outras formas de existência.

Propagações com esse viés podem estimular o descuido com os próprios homens, na medida em que centralizam e tentam tornar inata à mulher as experiências de cuidar e afetar-se pelo cuidado. Homens que paternam, vocês são imprescindíveis nesse mundo que insiste em naturalizar formas pouco cuidadosas de ser homem!

Há uma grande responsabilidade assumida por essas pessoas corajosas, que são postas a encarar masculinidades desatualizadas, que estão dispostas a serem provocadas pela neuroplasticidade e escolheram exercer a paternagem. Responsabilidade essa carregada de admiração e afetos dos seus frutos… seus filhos e filhas!

Mães que escrevem suas maternidades reconhecem o valor e a necessidade de todas as pessoas que exercem a parentalidade! Com o desejo de colocar luz aos homens que carregam seus filhos no colo e na alma, partilho essa singela escrita, a qual deixou de ser publicada no jornal, primeiro veículo de endereçamento dessa mensagem. Talvez “Mães que Escrevem” seja um dos palcos necessários para ampliar outra forma de ver, identificar e construir diferentes redes de representação sobre o cuidado e sobre quem cuida.

Autoria: Francine Pavan – @francinepavan

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