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Hoje é um dia daqueles que tenho pouco a dizer, mas muito a pensar. Minhas memórias paternas são  longínquas. Meu pai foi embora quando eu tinha 9 anos e nao sei precisar quantas vezes o vi ao longo destes anos. Sei dizer das brigas na justiça por causa de pensão, afinal quando se começa nova família qualquer dinheiro faz diferença.

 Já pensei sobre os efeitos do desamparo paterno. Já até agradeci não tê-lo na minha vida: as adversidades me fizeram resiliente. Mas vejo que foi a forma como ele foi pai que deixou em mim cicatrizes de filha, de mulher, e que moldou, de alguma forma, minha relação com o masculino. Já li homens dizendo que uma mulher vira lésbica por falta de sexo. Mas jamais se questionam o que acontece a uma filha/o diante da desproteção parental.

 Essa desproteção me fez insegura e vacilante. De certa forma, aceitei menos do que merecia nas relações afetivas, ofertei  demais, porque fui criada na dureza de ser mulher. Levei anos para construir a mulher que sou hoje.

 Entendam bem: esse é apenas um tangenciamento dos efeitos da negligência e do abandono parental. Alguns virão aqui dizer que há mulheres que abandonam: sim há, o número é infinitamente menor, e talvez o seja, porque disseram que devemos aguentar tudo, pelos filhos, inclusive, pais negligentes.

Há diferentes modelos de família, de ser mãe, de ser pai, até mesmo, de querer apenas ser tia ou tio. O que deveria ser constrangedor é o pai de final de semana, é a transferência da paternidade para a mulher, o pai que lida com filhos apenas “sem febre” (dizendo que eles preferem as mães), pais abusadores, pais tóxicos. Isso deveria ser objeto de constrangimento. 
Perdoem as minhas palavras os pais que buscam todos os dias se ressignificarem, pais que assumem seus papéis dividindo tudo em uma guarda compartilhada. Pais que entendem seu papel social. A vocês minha homenagem.

Pais que abusam, pais que agem com violência física contra seus filhos, pais apenas de fotos do Facebook, pais de lanches de 30 minutos, a vocês meu constrangimento e silêncio. 

Neste dia dos pais, seguimos luta e resistência.

 
Carla Pepe

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