Alguns dias terminam comigo carregando mais histórias do que consigo deixar no consultório. Porque não são somente histórias de pacientes. São enredos que reconheço em mim, na minha família, nas minhas amigas e na mãe que me tornei.
* * *
Naquela terça-feira, a primeira mãe chegou atrasada. Não pelo trânsito. Não porque esqueceu o horário. Atrasou porque precisou convencer o filho a entrar na escola. Depois respondeu a uma mensagem da coordenadora. Depois ouviu da própria mãe que “na minha época não existia depressão”.
Ela não estava cansada do filho.
Estava cansada de carregar o mundo inteiro sozinha.
Enquanto a escutava, pensei em quantas mulheres passam os dias coordenando terapias, reuniões escolares, consultas e crises emocionais sem que ninguém lhes pergunte quem cuida delas. A sobrecarga materna raramente chega anunciada. Ela se instala aos poucos, até que um dia o corpo já não consegue sustentar o peso.
* * *
A segunda paciente trouxe uma pasta recheada de documentos e pediu desculpas pela bagunça. Disse que talvez estivesse usando a terapia para se organizar, pois não teria mais tempo naquele dia.
Eram processos.
Protocolos.
Comprovantes.
Ela já não sabia mais quantas planilhas precisaria montar, quantos extratos precisaria imprimir ou quantas audiências teria de enfrentar para discutir aquilo que deveria ser simples: o direito do filho de receber pensão alimentícia.
Enquanto as decisões judiciais se arrastavam, a criança crescia.
— Eu não queria estar brigando — disse.
E eu acreditei.
Porque a maternidade, para muitas mulheres, não oferece escolha entre lutar e descansar.
* * *
A terceira mãe pediu desculpas tantas vezes durante a sessão que perdi a conta.
Pediu desculpas ao marido e aos filhos.
Pediu desculpas por querer algo diferente.
Só depois entendi.
Por décadas ela havia ocupado o lugar de mãe dentro do próprio casamento.
Agora, ao perceber isso, sentia culpa.
Culpa por desejar ser mulher além de mãe.
Culpa por reconhecer que também tinha necessidades, sonhos e frustrações.
O marido também sofria. Nunca aprendera que uma companheira não existe para salvá-lo, organizá-lo ou preenchê-lo. Ambos pareciam personagens de um roteiro antigo, escrito por uma sociedade que ensinou mulheres a cuidar de todos e homens a depender desse cuidado.
Escutei suas palavras e pensei em quantas vezes a sociedade ensina mulheres a pedir perdão por serem humanas.
Como se a maternidade exigisse uma força infinita.
Como se pedir ajuda fosse fraqueza.
Como se toda resposta devesse surgir sozinha, sem orientação e sem acolhimento.
Ela acreditava estar falhando.
Eu enxergava alguém sobrevivendo dentro de uma família adoecida.
* * *
À tarde, atendi uma mãe de uma criança com altas habilidades.
Ela não falou sobre as capacidades avançadas do filho.
Falou sobre o preconceito.
Falou sobre as noites em que chorava por não ter identificado antes os sinais que agora pareciam evidentes.
Falou da festa para a qual o filho deixou de ser convidado.
Da professora que insistia em chamá-lo de arrogante.
A psicofobia nem sempre aparece em palavras agressivas.
Às vezes veste a roupa da dúvida.
Da invisibilidade.
E cansa.
Cansa ter de explicar repetidamente que um estudante com altas habilidades não precisa tirar nota máxima em todas as disciplinas.
Cansa justificar comportamentos que poderiam ser compreendidos se houvesse mais informação e menos julgamento.
Ao final da sessão, ela me fez uma pergunta simples:
— Será que um dia as pessoas vão entender?
Eu não soube responder.
Porque naquele momento, eu também me perguntava.
* * *
A última mãe do dia chegou inquieta.
Não trazia processos nem relatórios escolares.
Trazia culpa.
No fim de semana, havia ido a uma festa. O filho ficou com o pai.
Nada extraordinário.
Pelo menos era o que ela pensava.
Mas, na manhã seguinte, ouviu da própria mãe que uma mulher de verdade não deixava filho para sair. Que criança precisava da mãe. Que certas escolhas tinham consequências.
Enquanto falava, percebi que ela não sofria pela crítica recebida.
Chorava pela história por trás dela.
Sua mãe nunca teve o direito de sair.
Nunca teve quem dividisse o cuidado.
Passou a vida acreditando que maternidade e sacrifício eram sinônimos.
Agora, sem perceber, entregava essa mesma herança à filha.
— Eu sei que meu filho estava seguro com o pai — ela disse. — Mas sinto um mal-estar.
Escutei suas palavras e pensei em quantas mulheres carregam culpas que não nasceram nelas.
Culpas herdadas.
Transmitidas entre gerações como receitas de família.
Como se o direito ao descanso, ao prazer e à própria existência precisasse ser negociado depois do casamento.
Entre uma sessão e outra, fui percebendo um fio invisível ligando todas aquelas mulheres.
Não importava a idade.
A profissão.
A renda.
Todas carregavam uma mochila que parecia pesada demais para um único corpo.
A sobrecarga.
A culpa.
A solidão.
A necessidade constante de provar alguma coisa.
Provar que são boas mães.
Provar que os filhos precisam de apoio.
Provar que merecem respeito.
* * *
Quando fechei a porta do consultório naquele dia, levei comigo a certeza de que nenhuma delas estava ali porque era fraca.
Pelo contrário.
Elas estavam ali porque seguiram em frente quando a rede de apoio desapareceu.
Quando a Justiça demorou.
Quando o preconceito feriu.
Quando o mundo insistiu em dizer que suas dores eram exagero.
Talvez seja essa a imagem mais verdadeira da maternidade que encontro todos os dias.
Não a mãe perfeita das propagandas.
Mas a mulher que continua caminhando.
Porque amanhã haverá escola, terapia, audiências, remédios, boletos, preconceitos e novas batalhas.
E ainda assim, de alguma forma, ela seguirá.
Entre uma sessão e outra.
* * *
Ao sair dali, atravessei a rua e fui para o consultório da minha própria psicoterapeuta.
Sentei-me na poltrona do outro lado.
Pela primeira vez naquele dia, não era eu quem escutava.
Enquanto falava, percebi que aquelas histórias ainda ecoavam dentro de mim.
Porque eu também sou mãe.
Porque eu também sou mulher.
Porque, no fundo, nenhuma de nós carrega apenas a própria história.
Carregamos também as histórias das mulheres que vieram antes.
As histórias das que caminham ao nosso lado.
E as histórias das que ainda virão.
Entre uma sessão e outra, carregamos um pouco das histórias umas das outras.
Autora: Paula Oliveira @paulaapprobato.psico
Revisão: Kátia Dias





