Rasgou-me em tantos sentidos que me fez perder o sentido.
O sentido do que eu acreditava, do que eu idealizava, do que eu havia planejado para a minha vida. Ser mãe não estava nos meus planos. Não cabia outra pessoa nos desejos que me moviam, diante da liberdade e da ousadia que pulsavam em mim.
Esse rasgo começou no silêncio.
Sentada sozinha no chão do banheiro, olhei para o teste de farmácia que mostrava duas linhas. Conforme a segunda surgiu, as lágrimas também apareceram. Duvidei. Corri para comprar outros dois testes, agarrada à esperança de que um milagre acontecesse e aquela segunda linha desaparecesse.
Mas ela permaneceu! E eu sabia que tantas outras coisas dentro de mim não permaneceriam. Meu mundo desmoronou da mesma forma que desmoronei, sem forças para sustentar minhas próprias pernas. Naquele instante, a vida perdeu todos os sentidos.
Como seria a vida sendo mãe? Como seria dormir até a hora que eu quisesse? O que aconteceria com a viagem de trabalho para Portugal? Onde eu iria morar? Como daria conta financeiramente?
As perguntas se multiplicavam enquanto as respostas não chegavam; o que existia era um vazio. Um vazio que ecoou durante toda a gestação — e talvez, onze anos depois, eu ainda me encontre com ele em alguns dias.
Ao mesmo tempo em que minha barriga crescia e se preenchia de vida, eu me sentia atravessada por uma ausência difícil de nomear.
Depois de alguns anos, eu compreendi que esse vazio não era apenas meu. É o vazio que atravessa tantas mulheres que gestam em uma sociedade que romantiza a maternidade enquanto silencia suas angústias. Uma sociedade que trata perdas gestacionais com frases prontas, julga quem não deseja uma gravidez e transforma a maternidade em destino obrigatório e felicidade garantida.
Afinal, ser mãe é padecer no paraíso!
A verdade é que minha gestação foi dolorosa e solitária. Como tantas outras mulheres, vivi o peso das violências que o patriarcado reproduz. Vivi meses inundada pela sensação de não ser vista. Carregava a vergonha de engravidar antes do casamento, sem uma vida considerada estável, sem cumprir aquilo que me ensinaram ser o roteiro correto.
Eu me sentia diante do medo, diante da culpa, diante do silêncio de não me sentir feliz. Eu, que sempre tentei fazer tudo certo, mais uma vez ocupava o lugar da errada por não corresponder ao que era esperado de mim.
Quando tentava gritar a dor que me atravessava, era considerada revoltada por alguns e sensível demais por outros. Mas quanto mais perdida eu me sentia, mais algo dentro de mim insistia em dizer que eu e meu filho encontraríamos um caminho, mesmo me sentindo em uma encruzilhada sem saber por onde seguir.
Sustentei durante nove meses uma relação marcada por violências psicológicas. Ainda me agarrava à promessa da família perfeita, àquela propaganda de margarina que vende felicidade em volta da mesa. Precisava acreditar que algo daria certo em meio ao caos. Afinal, por que não continuar acreditando que o amor romântico salvaria uma mulher?
Mas foi gestando, parindo, amamentando e me reconhecendo como mãe solo que compreendi uma verdade difícil e libertadora: era eu quem me salvaria! E não falo de heroísmo; falo da potência da maternidade que se revelou quando me vi frente a frente com os meus maiores medos.
Naquela noite chuvosa de 2 de novembro de 2015, na casa de parto sem energia elétrica, conectei-me às minhas ancestrais, às mulheres que seguravam minhas mãos, à minha espiritualidade e à vida que insistia em nascer através de mim.
Após doze horas de trabalho de parto, atravessei com ele a fronteira entre dois mundos. Ali, uma segunda travessia se iniciava…
A travessia das noites em claro, das consultas médicas sem companhia, do primeiro quadro de bronquiolite, da primeira crise de asma, do dia em que vi meu filho desmaiar diante dos meus olhos e senti o mundo desaparecer por alguns segundos.
A travessia de escolher sozinha a escola, os caminhos e tomar as decisões. Das viagens em que eu carregava malas, carrinhos, mochilas e esperanças, torcendo para que alguma pessoa desconhecida me oferecesse ajuda. Da preocupação constante em pagar as contas. Da saudade de precisar trabalhar enquanto o coração permanecia com ele. Da responsabilidade de pensar na alimentação, nas vacinas, nos horários, nos cuidados, no futuro. Da experiência profunda e silenciosa de sustentar outra vida inteira enquanto tentava sustentar a minha própria.
Foi assim que conheci a dura realidade da maternidade solo.
A maternidade solo me rasgou — e ainda me rasga — porque me ensinou que viver não é apenas se sentar à beira de águas cristalinas; viver também é atravessar águas turvas.
Muitas vezes essa travessia é cansativa, densa e dolorosa. Há dias em que a sensação de afogamento chega, mas foi nos lugares em que não dava pé que aprendi a importância de vestir o colete salva-vidas e continuar.
E, às vezes, continuar significa apenas boiar:
boiar até encontrar novamente o chão;
boiar até alcançar mãos estendidas;
boiar até chegar às ilhas que somente a maternidade solo me permite conhecer.
Foi nesse rasgo — o mais profundo que poderia me acontecer — que encontrei a possibilidade de renascer.
Não porque a dor desapareceu. Não porque tudo se tornou mais fácil. Mas porque aprendi a reconhecer a mulher que emergiu dela: uma mulher cansada, e muitas vezes exausta, mas forte.
Uma mulher que aprendeu a voar alto como o gavião que enxerga longe, sem esquecer a importância de pousar quando necessário. Pousar em lugares que jamais imaginou habitar; encontrar sentido naquilo que jamais havia sentido; compreender que, às vezes, aquilo que me rasga também me recria enquanto eu crio.
Autora: Caroline Ienne Passos – @carol.ienne.psi
Revisora: Yhasmin Viriato





