Puerpério: lágrimas que o amor não vê, dores que o amor não sente 

A mother gently cradles her newborn, symbolizing love and care.

“Oi, minha vida, meu filho, meu menino lindo! Mamãe te ama!”

Essa foi uma das frases que eu pronunciei para o meu filho em meio às lágrimas, que não sei de onde vinham e simplesmente jorravam! Mas, em vez de me afogar nelas, nadei com toda a força que eu tinha e busquei ganhar impulso nas ondas de dores que me sufocavam.

Tudo doía naqueles dias “infinitos”. Tudo era pesado, menos ele: Ariel, meu filho. Não sei diagnosticar o início ou término daquela turbulência; minha mente parecia querer explodir! Calma! Eu queria ouvir essa voz; eu já sabia o que estava acontecendo. Então me lembrei das leituras prévias e dos aconselhamentos. Li tudo que eu pude antes de vivenciá-la, enfrentei-a com dor e resiliência.

Confesso que já tinha ouvido a palavra “puerpério”, mas nada se compara ao experienciado. Não há como romantizar essa fase, mas havia um sentido maior, uma gratificação para que eu me refizesse logo. Precisava me equilibrar para cuidar do meu amor, tão pequeno, tão dependente em tudo da minha força. Ao mesmo tempo, ele era tão grande para mim: um leãozinho, como o nome indica. E eu, como uma leoa, me aprontava para desfrutar do maior presente que Deus me concedeu. Por ele, já renasci tantas vezes!

Foi difícil amamentar, mas fui persistente apesar das dores intensas. Não conseguia ver a dor como uma barreira, e sim como um desafio. Fui até o fim e meu leite chegou após cinco dias! Mais lágrimas! Aquelas foram um derramamento de felicidade e gratidão, como um cálice transbordando, cheinho do melhor vinho. Assim foi a minha alegria ao ver a fartura de leite que meu peito passou a produzir.

Mas o medo de o leite não ser suficiente, ou o simples fato de imaginar que ele poderia acabar a qualquer momento, gerava em mim uma angústia que terminava em choro. Houve quem dissesse que eu era muito “melindrosa” e chorava por tudo, que não iria dar conta de cuidar da minha criança. Escutei muitas coisas que não ajudaram em nada nessa fase. 

Sim, foi difícil cuidar do meu filho e de mim ao mesmo tempo! Foi difícil segurar as emoções, e eu nem deveria ter segurado!

 Precisei repetir frases como essas que iniciam meu texto como um mantra, para reafirmar a minha maior certeza: tê-lo em meus braços era o meu remédio, amá-lo todos os dias era o antídoto para acalmar os meus hormônios. Tudo o que vivenciei nessa fase do puerpério somente fez sentido porque ele estava ali. Era por ele que cada lágrima derramada me renovava. Cada gemido de dor me tornava ainda mais forte. Era, e é, por você, Ariel!

Que bom que pude contar com uma rede de apoio da qual não tenho queixas; costumo dizer que fui e sou privilegiada como poucas mulheres foram e são. Desde o anúncio, eu tive quem sonhasse, chorasse, pulasse e vibrasse comigo por entender o quanto eu o queria. O quanto eu tinha a certeza de que o amor pousaria em meu ventre.

Entendi que também não devia ser fácil para ele. Fomos nos adaptando. Fui entendendo que não era somente eu quem deveria me acostumar a maternar, ele também estava passando por esse momento de transformação, de novidade, da “filiação”. Se eu tivesse entendido isso desde o início, teria respeitado melhor a sua exterogestação.

Ah, meu amor! Perdoe a mamãe por essa falha. Nunca fui avisada disso.

Não se sentir culpada, ter que trabalhar isso paulatinamente durante os primeiros momentos da vida de um ser. Não saber identificar as necessidades de uma criança somente pelo choro. Sentir-se uma mulher “fraca” por não produzir leite desde o primeiro momento. Um peso recaía sobre a minha consciência, porque meu filho sentia frio, calor, cólica… parecia surreal! E todas as vezes que eu me perdia nessas informações e não conseguia te acalentar, eu chorava também. O sentimento de culpa era o primeiro gatilho que minha mente e coração disparavam.

Recompor-se! Uma palavra dura, porém era palavra de ordem para uma “marinheira de primeira viagem”. Mas a gente sobrevive!

Aqui não se tem a intenção de generalizar, cada uma viverá sua fase à própria maneira. Essa é uma experiência única que jamais se repetirá; nem em mim, muito menos em outra mulher. Pode vir mais leve para umas, mais pesada para outras, mas, se for possível se preparar para essa travessia, faça-o!

Não li sobre partos, mas li sobre puerpérios! Não busquei viver as experiências de outras pessoas, mas fui ouvindo os relatos de quem já havia passado por ele.

Eu vivi e venci!

Agora, contemplo cada sorriso, vejo-o crescendo feliz, ouço as declarações. Acolho cada abraço que me afaga, cheio de manhas, em todas as manhãs! E vejo que vale a pena. Ao menos para mim, tem valido. Ser mãe era um sonho.

Maternar, tantas dores e tantas delícias! Deixo aqui registrado para ele, meu filho, hoje e sempre:

Amar-te-ei! Incondicionalmente.

Amar-te-ei! Infinitamente.

Amar-te-ei! Eternamente.

Autora: Carmem Jesus – @carmemlucia1735

Revisora: Yhasmin Viriato

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