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No Tarô a carta da “Morte” pode significar, tanto a morte física como um renascimento, a passagem para um novo estado, uma nova condição, uma nova realidade de vida.

Dizem que quando sonhamos com a morte na verdade estamos prevendo o fim de um ciclo e o início de outro, ou seja, uma transição, uma grande mudança. Esse simbolismo ambíguo sempre me intrigou até o momento em que eu passei, pela primeira vez, pelo Puerpério.

Para quem não sabe, esse período começa imediatamente após o parto e vai até o sexagésimo dia de nascimento do bebê. A famosa “quarentena” ou como os antigos chamavam, o resguardo, está compreendido nesses sessenta dias.

As “lendas” sobre esse período tão especial são muitas: antigamente, a mulher não podia lavar a cabeça, devia consumir alimentos reforçados como canjica, canja, lentilha… tudo para se recuperar e poder alimentar, com seu leite, o recém nascido.

Aborrecer-se nem pensar, já que a mãe recente podia ficar “louca”. Sair de casa de jeito nenhum.

Hoje muitos desses mitos caíram por terra: tomei banho no mesmo dia dos meus dois partos (ambos cesáreas). Lavei o cabelo na manhã do dia seguinte, só tomei canja uma vez. Sabemos que a “loucura” a qual os mais velhos se referiam era a terrível e implacável depressão pós-parto, mais comum do que se imagina.

Mesmo assim, hoje, chegando ao quinquagésimo quinto dia do meu segundo puerpério, admito que muitas dessas crendices serviam e servem para proteger mãe e bebê. Quando estamos grávidas as pessoas nos dizem que o dia mais feliz de nossas vidas será aquele em que tivermos nosso filho (a) nos braços. Durante a gestação somos levadas a acreditar em muitas coisas  entre elas que aquele laço mágico, indissolúvel, incondicional e permanente de amor aparecerá no instante em que o neném sair de dentro de nós. 

Somos levadas a acreditar que, como somos fisiologicamente capazes de gerar e parir, também seremos imediatamente capazes de cuidar, prover, alimentar. Que a felicidade chegará para nós embrulhada em um cobertorzinho azul ou rosa e que, a partir daquele momento, isso bastará. Mas, e quando as coisas não são bem assim? Posso assegurar, por experiência própria e pela experiência de muitas amigas e conhecidas  que quase nunca é.

Quando  Miguel, meu primeiro filho nasceu,  eu não tinha ideia do que estava para acontecer e ninguém me preparou. Ninguém na verdade me explicou que essa seria a experiência mais rica e mais difícil da minha vida. Ninguém me falou abertamente sobre a dor lancinante dos seios rachados, da exaustão limitante das noites de sono, da montanha russa hormonal que me fazia chorar copiosamente, logo eu, que quase nunca chorava. Ninguém me disse que eu me sentiria tão sozinha que meu coração se rasgaria dentro do peito e que eu duvidaria da minha capacidade de cuidar do meu filho, aquele serzinho inocente e indefeso, mas que, em determinados momentos era visto, com meus olhos desesperados,  como o responsável por todas as mudanças que estavam acontecendo. 

Ninguém me falou do luto e esse é o principal motivo deste texto estar sendo escrito: eu quero falar para você que está passando por isso que quando nasce a mãe,  morre a mulher que ela costumava ser. Ninguém nos prepara para isso. Ninguém pode ser preparada para a morte de si mesma. E nós precisamos entender e aceitar que esse luto existe.

Durante muitos anos eu me acostumei comigo mesma. Aprendi a me conhecer, a saber meus limites físicos e psicológicos e a superá-los. Nós passamos pela adolescência e por tudo o que ela representa; chegamos à fase adulta, batalhamos por nossos sonhos, empregos, realizações, pelos nossos relacionamentos. Quando fui mãe a primeira vez, aos 32 anos eu gostava de quem eu era. Na verdade, de um modo geral, naquela época eu acreditava estar vivendo o auge da minha vida: estava formada, tinha feito pós-graduação, trabalhava na profissão que amava, já tinha realizado alguns sonhos como viajar para fora do país. 

Eu e o Diego meu marido vivíamos um relacionamento maravilhoso, tínhamos a nossa casa e nossos amigos estavam sempre presentes. Por essa razão resolvemos que era hora de ter um bebê, mesmo porque, se esperássemos mais talvez eu desistisse.

Quando eu engravidei todos ficamos felizes. Mas os meses seguintes não foram fáceis; eu não sabia, mas a desconstrução da minha identidade já tinha começado.

No trabalho a notícia não foi bem recebida e eu passei a sofrer assédio por causa da gravidez. Na família, a avó do Diego, uma das pessoas mais importantes em nossas vidas adoeceu e faleceu pouco antes do Miguel nascer. Até hoje o fato dela não ter conhecido nosso filho neste plano nos entristece.

Durante a gestação eu consegui me manter equilibrada. Meu filho nasceu no dia 12 de março de 2012. Enquanto estávamos na maternidade tudo era novidade, as visitas não paravam de chegar e no primeiro dia eu fiquei bem “grogue” por causa das anestesias. Foi quando chegamos em casa que a realidade caiu em cima de nós. Meu leite não descia, Miguel chorava 24 horas de fome e eu não dormia. Meus seios estavam em carne viva e doíam muito mais que o corte da cesárea. Eu não queria mais amamentar.

Algo de muito estranho acontece com a mulher que se transforma em mãe: ela vira patrimônio público. Durante a gestação qualquer pessoa, desde o vendedor de pipoca até a moça da farmácia acha que pode e deve dar uma “dica” sobre a gravidez, o parto, a amamentação… Perguntas como: “Vai ser parto normal?”; “Você vai dar só peito né?” e conselhos como “Olha, não esquece do marido, senão ele arranja outra” saem das bocas mais improváveis. Mesmo assim, enquanto se está grávida a mulher ainda é tratada com certa deferência. No entanto, bastou parir pra que aquela mulher que gerou uma vida do nada (é, sempre falo isso para o Diego, geramos vidas praticamente do nada,  de apenas um espermatozoide) seja completamente esquecida.

Não importa se ela está cansada, não importa se está com dor, não importa o que ela quer ou não… Agora ela é mãe e mãe é padecer no paraíso. Só que não. Muitas vezes essa mulher ainda não se transformou em mãe. Ela não se despediu de quem ela era, não chorou por seu cabelo que começou a cair, por suas novas estrias, por seus sentimentos confusos. 

Não teve tempo de se apaixonar loucamente pelo filho (a), não consegue pensar em meio ao sono, ao cansaço, ao enjoo que muitas vezes sente ao amamentar. Não entende como algo que deveria lhe trazer uma felicidade indescritível lhe traz angústia e desespero. Não consegue explicar o que acontece com ela, como as horas passam voando e ela não consegue ao menos tomar um banho e colocar uma roupa limpa. Não quer olhar para ninguém, no entanto se desespera ao ficar sozinha e acredita que esse furacão jamais vai passar.

Mas para essa mulher, que eu já fui um dia, a boa nova é que sim, tudo isso vai passar. E como a vida é sábia e o tempo, o maior missionário da Justiça de Deus, os sessenta dias do puerpério servirão para que o renascimento que eu citei lá no começo aconteça.

Será nessa estrada não tão longa, mas muitas vezes tortuosa, que nós mulheres nos descobrimos mães? Em algum ponto do caminho a mãe que tivemos e que sempre fomos nos encontrará. Por mais ajuda que se tenha ao longo dos dias ou das noites é no silêncio da madrugada quando mãe e filho estão sozinhos no mundo, que eles se encontrarão. Serão nas noites insones, nos choros seguidos de colo, nos golfos e nos olhares semicerrados que mãe e filho se reconhecerão.

Será durante essa caminhada exaustiva que nós mulheres choraremos nosso luto pelo que um dia fomos e jamais voltaremos a ser, mas também será neste caminho que começaremos a vislumbrar nossas novas vidas? Será nas sonecas à tarde junto com o bebê que sonharemos com sua entrada na escola, com sua formatura no jardim de infância, com seu primeiro beijo e seu primeiro amor? Será na descoberta dos cuidados diários que nossos corpos começarão a se curar do parto, tenha sido ele qual foi? Será na rotina dos banhos de sol que reaprenderemos a andar, não mais sozinhas, mas sempre acompanhadas? Será na exigência da cooperação de  nossos companheiros que aprenderemos e ensinaremos a dividir? Será nas horas repetitivas que aprenderemos a conhecer como ninguém nosso bebê: o que significa cada choro, cada resmungo, cada sorriso? Saberemos como é seu sono, sua alimentação, sua personalidade? Será na convivência que o laço será estreitado, apertado, reforçado a ponto de não nos lembrarmos de nossa existência antes daquela criaturinha? Descobriremos como somos inacreditavelmente fortes, capazes e belas, cada uma à sua maneira.

Hoje me aproximo do final do meu segundo puerpério. A estrada que trilhei com o meu Miguel, trilho agora com a minha Ana Clara.  É óbvio que a segunda vez foi mais fácil do que a primeira, mesmo assim, houve momentos em que chorei, me desesperei, duvidei. Mas, dessa vez, eu já era mãe. Só precisava me tornar mãe da Ana Clara. 

Juntas nos descobrimos, nos apaixonamos, nos conhecemos, nos tornamos mãe e filha. Cada experiência é única, cada filho é único. Mas o amor, esse amor que é construído nessa estrada que apenas começa nestes sessenta dias é o mesmo há séculos e encontrará a todas nós. Acredite.

Autora: Paula De Donato Mãe do Miguel e da Ana Clara, Jornalista, Professora e escritora. 

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