Entramos no mês de maio e automaticamente recebemos uma enxurrada de propagandas e mensagens sobre as maravilhas da maternidade e todo tipo de clichê. Nada contra comemorações, mimos e reconhecimento da data, mas vale pontuar algo muito importante: a sobrecarga materna.
E no empreendedorismo a sobrecarga é grande, e muitas vezes acaba sendo mascarada pelos mitos envolvendo o ato de empreender. Para quem olha de fora, empreender parece um sonho: não ter patrão, pode fazer o próprio horário, ter mais flexibilidade, ter mais lucratividade.
Mas a vida real não tem todo esse glamour e a tão desejada liberdade do negócio próprio, vem acompanhado de muita sobrecarga. Na verdade, a empreendedora precisa mesmo de muita flexibilidade, já que se desdobra em mil para: atender clientes, parceiros, fornecedores, ter presença nas redes sociais, cuidar da logística, do financeiro e muito mais, ultrapassando facilmente oito horas diárias de trabalho.
E nem falamos do resto, pois a empreendedora, como tantas mulheres, também faz tripla jornada, cuidando da casa, da família e dos filhos. O tempo da mãe/empreendedora é ocupado por lembrar, organizar, antecipar, resolver, o que gera um cansaço mental constante. Não esquecendo que sempre cabe à mãe empreendedora sem patrão e com horários flexíveis, a tarefa de levar e buscar os filhos e ficar com eles nos casos de doença ou férias/feriados.
Outro ponto delicado na questão da flexibilidade de horários, é o mito da disponibilidade constante. A empreendedora fica dividida entre colocar limites e perder clientes, ou estar sempre à disposição e sacrificar a vida pessoal e o relacionamento com o parceiro . Trabalhar por conta própria vira sinônimo de nunca desligar. Esse é um erro muito comum de quem está começando. Descansar? Jamais! E quando a mulher ousa descansar , vem logo a culpa, ou por não produzir o suficiente ou por trabalhar demais e renunciar ao tempo com a família. E não podemos esquecer a culpa por prosperar, pois o desejo de conquistar mais e ter ambição não é o que se espera de uma mulher, e seremos julgadas também por isso.
Ouvimos tantas narrativas exaltando a mãe heroína e batalhadora, que acabamos aceitando e acreditando que é a única forma possível. É tempo de desconstruir esses mitos e buscar novos caminhos. Nenhuma mulher deveria ter que matar um leão por dia para cuidar do próprio negócio e da família.
A pergunta é: quem cuida dessa mulher? Porque se ela mesma não conseguir se acolher e se cuidar, todo o resto desaba. Para atender a tantas demandas, a mulher precisa estar bem em todos os aspectos e isso exige se colocar em primeiro plano. É a velha história da máscara de oxigênio no avião – primeiro eu me cuido para poder cuidar de quem depende de mim.
Esse cuidado de si só será possível com uma rede de apoio e divisão de tarefas, mas em um país onde mais da metade dos lares (51,7% ou cerca de 41,3 milhões) é chefiado por mulheres, é um luxo pensar em apoio de qualquer forma. Nesses casos, falar sobre gestão do tempo e divisão de responsabilidades é ainda mais complexo e cabe ao Estado oferecer políticas sociais de apoio, incluindo escola integral de qualidade.
Para aquelas que vem de condições mais favoráveis, a redução da sobrecarga envolve especialmente, saber delegar e o uso de métodos de produtividade.
Delegar acaba sendo um dos grandes desafios para o crescimento de um negócio, pois envolve mais do que a distribuição de tarefas. Muitas mulheres foram reconhecidas ao longo da vida justamente por serem responsáveis, organizadas, eficientes, e o ato de delegar envolve perder esse lugar de “perfeição”. Mas quando tudo está centralizado em uma única pessoa, a empresa não cresce e a carga acumulada vira sofrimento.
Com o medo de que ninguém fará “tão bem quanto eu”, vamos empurrando tudo para o automático, acreditando que explicar dá mais trabalho do que fazer, e o automático geralmente significa assumir mais funções. Aprender a delegar envolve um processo emocional de amadurecimento, onde é necessário abrir mão do controle, confiar na equipe e sobretudo, aceitar que não precisamos e não podemos dar conta de tudo- por mais que a sociedade nos faça acreditar no contrário. É complicado no começo, exige tempo e paciência no treinamento e nos processos. Também exige desapegar e aceitar que o outro fará diferente, e que diferente não significa pior.
Fomos educadas para resistir e aguentar, pois é assim que tem que ser, aguentar tudo sem reclamar. Não precisamos ser mártires e nem devemos padecer no paraíso. Podemos e devemos pedir ajuda. É saudável reconhecer nossos limites e respeitar o próprio ritmo sem chegar a exaustão. Ao delegar, ocorre uma mudança significativa – a empreendedora deixa de ser a única que faz, para se tornar aquela que conduz.
Outro mito a ser quebrado é o excesso de trabalho. “Trabalhar enquanto os outros dormem” é uma máxima que está caindo por terra. Especialistas são unânimes em recomendar o descanso. As pausas no trabalho, não são perda de tempo, e sim estratégia de sobrevivência. Descansar é o que vai permitir poder continuar. Manter um negócio funcionando não pode significar uma vida de esgotamento.
O verdadeiro avanço não é fazer mais, e sim, encontrar um equilíbrio entre trabalho e vida pessoal.





